Mundo
10/12/2001 - 19h33

Leia relato de jornalista inglês espancado por refugiados afegãos

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da Folha Online

Leia abaixo a narrativa assinada pelo jornalista inglês Robert Fisk, do The Independent, que foi surrado por refugiados afegãos nas ruas da pequena cidade de Kila Abdullah, perto da fronteira com o Paquistão. Aparentemente, Fisk foi atacado sem motivo algum, apenas pelo fato de ser um "ocidental", sendo associado por semelhança com o governo americano, responsável pelos bombardeios que há mais de dois meses arrasam o Afeganistão. O jornalista sobreviveu aos golpes e vem apresentando uma recuperação satisfatória. A narrativa abaixo foi publicada hoje na versão do The Independent para a internet.

***

No começo, nós chegamos a trocar apertos de mãos. Nós dissemos: "Salaam aleikum", algo como "Que a paz esteja com você". Logo depois, começaram a ocorrer os primeiros problemas. Um garoto tentou roubar minha mochila. Outro garoto tentou fazer o mesmo. Em seguida, recebi um forte soco em minhas costas. Um jovem arrancou e quebrou meus óculos, enquanto outras pessoas começaram atirar pedras em meu rosto e em minha cabeça. Eu não podia ver direito o que acontecia porque o sangue escorria da minha testa e inundava meus olhos. Mesmo neste momento, eu entendi: não podia culpá-los pelo que estavam fazendo. Realmente, se eu fosse um refugiado da região de Kila Abdullah, próximo à fronteira entre Paquistão e Afeganistão, eu faria exatamente o mesmo a Robert Fisk. Ou a qualquer outro ocidental que aparecesse por ali.

Então, porque registrar meus poucos minutos de terror enquanto era atacado perto à fronteira do Afeganistão, sangrando e chorando como um animal, enquanto centenas _sejamos francos e digamos milhares_ de civis inocentes estavam morrendo nos bombardeios norte-americanos; enquanto a "Guerra da Civilização" estava carbonizando e mutilando os pashtus que vivem em Candahar e destruindo suas casas porque o "Bem" precisa vencer o "Mal"?

Muitos afegãos que viviam na pequena cidade estavam ali há anos, ou haviam chegado _desesperados, famintos e lamentando a morte de entes queridos_ há poucas semanas. É um péssimo lugar para o carro quebrar. Era também um mau momento, já que a população estava terminando de cumprir um dia inteiro de jejum pelo mês sagrado do Ramadã. O que aconteceu conosco pode simbolizar o ódio, a fúria e a hipocrisia dessa guerra imunda: um bando de miseráveis, jovens e velhos, que encontraram em seu território um grupo de estrangeiros_que para eles são inimigos_ e tentaram exterminar pelo menos um deles.

Muitos deles estavam horrorizados com o que viram na TV sobre os massacres de Mazar-e-Shariff, onde prisioneiros foram mortos enquanto estavam com as mãos algemadas nas costas. Um aldeão disse a um dos motoristas que nos acompanhavam que ele havia assistido a um vídeo em que dois agentes da CIA, identificados como Mike e Dave, ameaçavam matar um prisioneiro ajoelhado na cadeia de Mazar-e-Sharrif. Os afegãos que estavam nas ruas da cidade naquela oportunidade provavelmente não tiveram acesso a algum estudo _duvido até que esses homens tenham aprendido a ler_ mas não é preciso ser letrado para reagir à morte de pessoas queridas mortas em bombardeios. Um jovem, ao me ver, chegou a perguntar para meu motorista, com total ingenuidade, "ele é o Bush?".

Devia ser por volta de 16h30 quando nós chegamos a Kila Abdullah, no meio do caminho entre a cidade paquistanesa de Quetta e a cidade de Chaman. Estávamos em quatro pessoas no carro: Amanullah, nosso motorista, Fayyaz Ahmed, nosso tradutor, Justin Huggler, do jornal "The Independent", que havia acabado de cobrir o massacre de Mazar-e-Shariff, e eu.

Nós percebemos que algo estava errado quando o nosso carro parou no meio de uma estreita e movimentada rua. Uma cortina de vapor branco e espesso começou a se levantar do capô do jeep em que estávamos. Um barulho terrível formado por uma mistura de buzinas de carros, ônibus e caminhões e de gritos de puxadores de riquixás reclamado do bloqueio que, involuntariamente, havíamos criado.

Nós quatro saímos do carro e o empurramos para perto da calçada, para evitar que o trânsito ficasse ainda mais prejudicado. Eu resmunguei alguma coisa com Justin sobre aquele ser um péssimo lugar para o carro quebrar. Kila Abdullah é o lar de centena de refugiados afegãos, uma massa de pessoas pobres e sem destino que a guerra produziu no Paquistão.

Amanullah foi tentar encontrar outro carro. Poucas coisas são piores do que enfrentar um multidão faminta, uma delas e enfrentas um multidão faminta depois que anoitece. Quando percebemos que algumas pessoas começaram a se aglomerar ao redor de nosso fumegante Jeep, Justin e eu procuramos sorris amistosamente. Eu apertei as mãos de vários deles. Talvez eu tenha pensado em George W. Bush e distribuido muitos "Salaam aleikums". Eu sabia o que poderia acontecer se eu parasse de sorrir.

A multidão foi crescendo, e sugeri a Justin que nos afastássemos do jipe e andássemos para o meio da rua. Uma criança beliscou meu pulso, e eu me convenci de era um acidente, um instante de desprezo infantil. Então uma pedrinha passou por minha cabeça e bateu no ombro de Justin. Ele se voltou para mim, com preocupação nos olhos, e recordo que pensei: "Por favor, que seja apenas brincadeira". Então outro menino tentou agarrar minha bolsa. Dentro dela estavam meu passaporte, cartões de crédito, dinheiro, agenda, caderno de endereços e telefones e celular. Puxei a bolsa de volta e a pendurei atravessada no meu ombro. Justin e eu atravessamos a rua, e então alguém me deu um soco nas costas.

Como se faz para sair de um sonho quando seus personagens de repente ficam hostis? Vi um dos homens que nos apertara as mãos, todo sorrisos. Mas ele não estava mais sorrindo. Alguns dos garotos menores ainda estavam rindo, mas seus risos já não eram amigáveis. O estrangeiro respeitado _o homem que, minutos atrás, repetia "salaam aleikum" a torto e direito_ estava assustado, fugindo. Era o Ocidente sendo humilhado. Justin estava sendo empurrado de um lado para o outro. Então percebemos um motorista de ônibus que acenava para nós de seu veículo, no meio da rua. Fayyaz, ainda ao lado do carro, não entendia porque tínhamos nos afastado e não nos enxergava mais. Justin alcançou o ônibus e subiu nele. No momento em que eu pus os pés no degrau, três homens agarraram a alça de minha bolsa e me puxaram para o chão. Justin me estendeu a mão, gritando "segure!". Segurei.

Foi quando recebi o primeiro golpe forte na cabeça. Quase caí sob o impacto, que deixou meus ouvidos zumbindo. Eu já esperava por isso, mas não imaginara que seria tão doloroso e duro, nem tão imediato. A mensagem era apavorante: alguém me odiava o suficiente para querer me ferir. Recebi mais dois socos fortes, um deles no ombro, um golpe forte que me jogou contra o lado do ônibus, enquanto eu ainda segurava a mão de Justin. Os passageiros olhavam para mim e para Justin, mas não se mexiam. Ninguém queria ajudar.

Gritei "me ajude, Justin". Então percebi que eu mal conseguia ouvi-lo. As pessoas gritavam. Será que eu ouvira a palavra "kaffir" (infiel)? Talvez não. Foi então que me arrastaram para longe de Justin.

Recebi mais dois golpes na cabeça, um de cada lado. O golpe seguinte foi dado por um homem que eu vi carregando uma pedra grande na mão direita. Ele bateu a pedra contra minha testa com força tremenda, e alguma coisa líquida e quente veio jorrando e bateu sobre meu rosto, meus lábios e meu queixo. Me chutaram _nas costas, nas canelas, na coxa direita. Outro adolescente agarrou minha bolsa outra vez, e eu me vi segurando a alça. Olhei para cima e percebi que deveria haver uns 60 homens à minha frente, todos gritando. Foi estranho, mas o que senti não foi medo, mas uma espécie de surpresa. Quer dizer que é assim que acontece. Eu percebia que teria que reagir. Ou isso, racionei em meio ao meu atordoamento, ou eu morreria.

A única coisa que me chocava era meu próprio senso de impotência física, a crescente consciência do líquido que começava a me cobrir inteiro. Acho que nunca antes vi tanto sangue. Por um instante, tive um vislumbre de uma coisa horrível, um rosto de pesadelo _o meu_ refletido na janela do ônibus, ensanguentado, minhas mãos encharcadas de sangue, como as de lady Macbeth, o sangue escorrendo por meu suéter e a gola da minha cabeça, manchas dele aparecendo até nas minhas calças.

Quanto mais eu sangrava, mais a multidão me batia. Pedras pequenas e maiores começavam a atingir minha cabeça e meus ombros. De repente, minha cabeça foi golpeada com pedras de cada lado, ao mesmo tempo _não pedras atiradas, mas pedras nas palmas de homens que as usavam para tentar rachar minha cabeça. Então um punho acertou um soco no meu rosto, estilhaçando meus óculos, enquanto outra mão arrancava o segundo par de óculos que levo pendurado no pescoço.

Acho que neste ponto devo agradecer ao Líbano. Passei 25 anos cobrindo as guerras do Líbano, e os libaneses me ensinaram muitas e muitas vezes como se faz para continuar vivo: tome uma decisão, qualquer uma, mas nunca fique parado sem fazer nada.

Então puxei a bolsa de volta das mãos do rapaz que a estava segurando. Ele deu um passo para trás. Depois me voltei para o homem à minha direita, que segurava a pedra ensanguentada na mão, e lhe dei um soco na boca. Eu não enxergava muita coisa _não apenas eu estava míope, sem meus óculos, como também meus olhos estava recobertos de uma névoa vermelha_, mas vi o homem tossir e um dente cair de sua boca. Ele recuou para a rua. A multidão parou por um instante. Então ataquei o outro homem, ainda agarrando minha bolsa sob um braço, e lhe dei um soco no nariz. Ele urrou de raiva, e, de repente, tudo ficou vermelho. Não acertei um soco em outro homem, depois acertei ainda outro no rosto, e corri.

Eu estava no meio da rua novamente, mas não conseguia enxergar. Tentei limpar os olhos com as mãos. Comecei a enxergar de novo, e percebi que eu estava chorando, e que as lágrimas estavam lavando o sangue de meus olhos. "O que foi que eu fiz?", eu repetia para mim mesmo. Eu tinha socado e atacado refugiados afegãos, exatamente as pessoas sobre as quais vinha escrevendo havia tanto tempo, as pessoas mutiladas e miseráveis que meu próprio país _entre outros_ estava matando, juntamente com o Taleban, logo do outro lado da fronteira.

Nesse momento aconteceu uma coisa espantosa. Um homem se aproximou de mim, com muita calma, e me pegou pelo braço. Eu não conseguia vê-lo muito bem por causa do sangue que enchia meus olhos, mas vi que ele usava uma espécie de veste e um turbante e tinha barba grisalha, quase branca. Ele me conduziu para longe da multidão. Olhei por cima do meu ombro. Havia uma centena de homens atrás de mim, e algumas pedras bateram na rua, mas não tinham sido miradas contra mim _imagino que para evitar atingir o estranho. Ele era como uma figura do Velho Testamento ou de alguma história bíblica, o bom samaritano, um muçulmano _um mulá do povoado, quem sabe_ que tentava salvar minha vida.

Ele me empurrou para dentro da traseira de uma caminhonete da polícia. Mas os policiais não se mexiam. Estavam apavorados. "Me ajudem!", gritei pela janelinha dos fundos da cabine da viatura, minhas mãos manchando o vidro de sangue. Eles avançaram alguns metros, aí pararam. O homem alto falou com eles outra vez. Andaram mais 300 metros.

E ali, ao lado da rua, havia um comboio da Cruz Vermelha-Crescente Vermelho. A multidão ainda nos perseguia. Mas dois dos atendentes médicos me puxaram para trás de um de seus veículos, jogaram água sobre minha cabeça e meu rosto e enfaixaram minha cabeça. "Deite no chão e nós lhe cobriremos com um cobertor, para que não o vejam", disse um deles. Os dois eram muçulmanos bengaleses, e quero registrar seus nomes porque eles eram homens corajosos e bons: Mohamed Abdul Halim e Sikder Mokaddes Ahmed.

Minutos mais tarde, Justin chegou. Ele tinha sido protegido por um soldado grandão dos Levis do Baluquistão _um verdadeiro fantasma remanescente do Império Britânico, que, com um único fuzil, mantivera a multidão afastada do carro em que Justin agora estava sentado.

"Não pegaram minha bolsa", eu repetia para mim mesmo, como se meu passaporte e meus cartões de crédito fossem uma espécie de Santo Graal. Mas pegaram até mesmo meu último óculos sobressalente, sem os quais fico cego, meu celular e meu caderno de contatos, contendo 25 anos de números de telefone acumulados em todo o Oriente Médio.

Passei mais de duas décadas e meia relatando a humilhação e a miséria do mundo muçulmano, e agora a revolta dele abarcou também a mim. Ou será que sim? Afinal, havia Mohamed e Sikder, do Crescente Vermelho, Fayyaz, que voltou para o carro, ofegando e furioso diante do que acontecera, e Amanullah, que nos convidou para sua casa para recebermos tratamento médico. Sem falar no santo muçulmano que me resgatara.

E, percebi, havia todos aqueles rapazes e homens afegãos que me atacaram e que não deveriam tê-lo feito, mas cuja brutalidade é inteiramente produto da ação de outros, da nossa _nós, que armamos sua luta contra os russos, que ignoramos sua dor, que zombamos de sua guerra civil e depois os armamos e pagamos para lutar na "Guerra pela Civilização", a poucos quilômetros de distância, e então bombardeamos suas casas, massacramos suas famílias e chamamos a isso de "danos colaterais".

Então pensei que eu deveria escrever sobre o que aconteceu conosco nesse incidente temível, tolo, sangrento, pequeno. Temi que outras versões pudessem resultar numa narrativa diferente, numa história de como um jornalista britânico "foi espancado por uma turba de refugiados afegãos".

E é esse o xis da questão, é claro. Os agredidos foram os afegãos. As cicatrizes foram infligidas por nós, pelos aviões B-52, e não por eles. E torno a repetir: se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, eu teria feito exatamente o que eles fizeram. Teria atacado Robert Fisk _ou qualquer outro ocidental que encontrasse pela frente.

Sobre o caso:
  • Jornalista é espancado no Afeganistão


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