Uma cúpula sobre escombros e incertezas
ROGER COHEN
DO "NEW YORK TIMES"
Eu gostaria de depositar esperança na conferência, ou reunião, ou diálogo, ou qualquer que seja o termo, sobre a paz no Oriente Médio que será realizado em Annapolis. A batalha que os movimentos nacionais sionista e palestino travam pela mesma terra há 59 anos não fez bem a ninguém.
Eu gostaria de sentir esperança, embora não tenha sido estabelecida uma data firme, não se saiba ao certo quem participará do encontro, ele esteja acontecendo seis anos mais tarde do que deveria, e Israel tenha decidido atrair turistas para o seu 60º aniversário, no ano que vem, com a foto de um "caubói" israelense em uma fazenda nas colinas do Golã, o que dificilmente pareceria alardear disposição de trocar terras pela paz.
Não quero desesperar, ainda que o primeiro-ministro Ehud Olmert, de Israel, esteja sob investigação criminal, o presidente Bush pareça desamparado e o único homem capaz de fazer com que qualquer dos dois outros líderes pareça forte seja o presidente palestino Mahmoud Abbas, que só controla a Cisjordânia em seu movimento nacional.
A desesperança deve ser evitada ainda que a atual estratégia de "Cisjordânia primeiro" esteja sendo proposta apenas dois anos depois que a prioridade foi concedida a uma abordagem de "Gaza primeiro". Naquela situação, em 2005, a secretária de Estado Condoleezza Rice declarou que era muito importante "aproveitar o momento", mas o momento se foi, e o Hamas tomou o controle da faixa de Gaza.
Vocês se lembram de toda a fé que foi depositada em Gaza e em suas estufas, todas as conversas sobre um "teste prático" do Estado palestino depois da retirada israelense? Vocês se lembram da importância que foi atribuída às eleições palestinas? Lembrar faz mal. No Oriente Médio, existem memórias demais, túmulos demais. Eles atrapalham.
Pensando no futuro, me recuso a permitir que os recentes combates em Gaza entre o Fatah, de Abbas, e o Hamas me façam perder o ânimo, mesmo quando Mahmoud Zahar, um dos líderes do Hamas, me diz em conversa telefônica que "sem a unificação da Cisjordânia e Gaza, Abbas não pode falar pelos palestinos em Annapolis".
Zahar, que é médico, prevê que o encontro em Annapolis será "um exemplo singular de fracasso". Ele rebate às minhas questões sobre a possibilidade de que o Hamas reconheça Israel com três perguntas.
"Primeiro, quais serão as fronteiras com Israel? O que acontece com Jerusalém? E quanto aos refugiados palestinos nos campos de refugiados?", ele quer saber.
O Hamas não pode ser ignorado para sempre. Mas me consolo pensando que a reunião de Annapolis não gira em torno de um acordo de paz, mas sim de estabelecer a estrutura de um processo de negociação e de angariar apoio regional.
Talvez os sauditas, sob pesada pressão dos EUA, decidam comparecer, ainda que eles temam tanto os riscos e tenham apostado tanto na unidade palestina que duvido que o rei Abdullah se disponha ao esforço. Talvez os sírios decidam ignorar os anúncios mostrando caubóis no Golã e compareçam, mas duvido. Talvez o medo do Irã faça com que os países sunitas árabes demonstrem apoio público a Israel. Talvez.
Mas mesmo assim não quero ceder ao desespero, mesmo que um membro do governo de Olmert já estava votando em favor de um projeto de lei que proibiria dividir Jerusalém. E mesmo que Annapolis pareça uma transparente tentativa de Rice para estabelecer um "legado de realização", qual é o problema?
O que importa são os dois povos. Mas até mesmo os princípios básicos são problemáticos. Uma das demandas centrais de Olmert e de sua ministra do Exterior, Tzipi Livni, é que os palestinos reconheçam Israel abertamente como "Estado judaico". Mas Saeb Erekat, um negociador palestino moderado, já disse que "os palestinos jamais reconhecerão a identidade judaica de Israel".
Livni quer que o caráter judaico de Israel seja estipulado claramente, ainda que o país abrigue uma imensa minoria árabe, como pagamento pelo reconhecimento da Palestina e como seguro contra um retorno maciço de palestinos exilados. Ela está certa em desejá-lo, mas errada ao pressionar pelo reconhecimento imediato desse princípio.
Por que os palestinos deveriam oferecer alguma coisa quando a Cisjordânia é um lugar vergonhoso que oferece um curso prático de colonialismo e assentamentos israelenses que continuam a crescer sem qualquer controle? A Palestina nascente está esfacelada, e continua invisível por trás de um reconfortante muro de segurança.
Enquanto o governo Bush fingia não ver, israelenses e palestinos se perderam mutuamente de vista. Talvez, em última análise, a única maneira de evitar o desespero seja pensar que ao menos Annapolis os forçará a assumir o compromisso de verem uns aos outros. É possível criar grupos de trabalho, renunciar à violência, estabelecer cronogramas.
Todas as "questões de status final" --Jerusalém, fronteiras, assentamentos, água e segurança-- terão de ser deixadas para mais tarde. Tentativas prolongadas de definir princípios para que sejam discutidas já fracassaram muitas vezes.
"O melhor que podemos esperar é por uma agenda de administração de conflitos, sem ilusões quanto a revolvê-los", disse Shlomo Avineri, um cientista político israelense.
Mais de 200 mil colonos israelenses, a infiltração de adeptos da jihad no conflito e a profunda cisão no movimento palestino criaram barreiras físicas e mentais que até mesmo um presidente norte-americano forte encontraria dificuldades em remover. Bush é fraco.
A esperança mingua. Annapolis parece no máximo um espetáculo para as câmeras. Mas mesmo um espetáculo como esse vale alguma coisa, no momento que vivemos.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
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