Mundo
27/11/2007 - 09h05

Reunião sobre Oriente Médio nos EUA deve fracassar, dizem analistas

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FERNANDO SERPONE
da Folha Online

Nesta terça-feira, a cidade americana de Annapolis receberá delegações de mais de 40 países que irão se reunir para discutir o conflito israelense-palestino, em mais uma busca por soluções.

Os palestinos --representados pela Autoridade Nacional Palestina (ANP), interlocutor escolhido pelo Ocidente e por Israel após o grupo extremista islâmico Hamas tomar a faixa de Gaza em junho-- pedem o estabelecimento de um cronograma para a criação de um Estado próprio e a assinatura de uma declaração conjunta de princípios. Israel se nega a criar um calendário fixo, mas diz ser possível chegar a um acordo em 2008.

Thaer Ganaiim/Efe
O líder palestino Mahmoud Abbas (centro) em ato prévio à conferência de paz em Annapolis
O líder palestino Mahmoud Abbas (centro) em ato prévio à conferência de paz em Annapolis; analistas prevêem fracasso

Porém, apesar do otimismo expressado pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, analistas dizem duvidar de que a conferência tenha resultados positivos.

Tanto Hillel Frisch, analista político e militar israelense, quanto Bassem Eid, diretor do Palestinian Human Rights Monitoring Group, entrevistados pela Folha Online, expressaram pessimismo em relação ao encontro nos EUA.

"Annapolis provará o quanto a administração Bush é um fracasso", afirmou Eid. "E todos seremos testemunhas disso, de que será um encontro fracassado entre palestinos e israelenses." Eid acredita que, com a conferência e as negociações atuais, "nada irá acontecer", e o conflito irá continuar, com os dois lados "tentando reduzir a violência perpetrada contra o outro, mas isso é algo que pode ser considerado como temporário".

"Olmert e Abbas estão olhando para os seus interesses, do que para os interesses dos seus povos. É muito triste para os palestinos e israelenses. Espero ver amanhã novas intifadas. Uma é a intifada dos israelenses contra sua própria liderança, e a outra dos palestinos, contra sua própria liderança", afirmou o analista palestino.

Para ele, conflito se tornou muito mais complicado do que era, e que "os dois líderes [Mahmoud Abbas e Ehud Olmert] são totalmente incapazes de resolvê-lo". As negociações atuais "são muito mais voltadas para a comunidade internacional do que para os palestinos ou para os israelenses", diz Eid.

Segundo o analista, tanto Abbas quanto Olmert são "oportunistas". "Abbas está preocupado em se promover e Olmert está muito mais preocupado com a sua própria corrupção do que com o conflito palestino", diz.

Já Frisch diz que a administração Bush não divulga o encontro "como um sucesso, mas como uma tentativa de alcançar a paz". Para ele, no entanto, "não há condições" para a criação de um Estado palestino atualmente.

"Irã é o foco"

Na entrevista à Folha Online, Frisch afirmou ainda que a conferência em Annapolis teria como real objetivo conseguir o apoio dos países árabes a um eventual ataque contra o Irã.

Loay Abu Haykel/Reuters
O premiê israelense, Ehud Olmert; analistas prevêem fracasso de reunião nos EUA
O premiê israelense, Ehud Olmert; analistas prevêem fracasso de reunião nos EUA

Após apresentar motivos que, em sua opinião, atualmente impedem a criação de um Estado palestino --a guerra civil entre o secular Fatah e o radical islâmico Hamas e a oposição da população palestina à existência de Israel, entre outros--, Frisch disse que Annapolis é "basicamente uma tentativa de criar um movimento de preparação de um possível ataque ao Irã". "O Irã é o foco real da administração americana", afirmou o analista israelense.

"Os Estados árabes vão aos EUA e dizem: estamos com você, mas nosso povo não, sabemos disso por pesquisas. Mas temos que lidar com um assunto que é sensível ao nosso povo, que é a questão palestina", diz Frisch, explicando o ponto de vista dos líderes árabes. "Creio que esse seja o verdadeiro tema de Annapolis."

Para o analista israelense, além de os palestinos não serem "tão importantes para os americanos em termos de política externa", também está em questão a hegemonia americana, o lugar dos EUA no mundo no século 21."

"Não haverá uma guerra [contra o Irã], e sim uma negociação através de bombardeios", afirmou Frisch. "Só haverá uma exigência, sem espaço para o diálogo. A exigência será o fim do programa nuclear [do Irã]."

Solução

Em relação ao conflito israelo-palestino, Frisch diz acreditar que a solução seria, de alguma forma, "ligar Gaza ao Egito, como era até 1967, e a Cisjordânia à Jordânia, com algum tipo de autonomia", sugere.

"E [os palestinos] irão perceber que eles têm de procurar seu espaço no mundo árabe, que bater cabeça com Israel não irá levá-los muito longe." Porém, segundo ele, os egípcios são relutantes em voltar a Gaza, e o mesmo ocorre com a Jordânia. "Então, a opção palestina pode não ser realista, agora não há alternativa", diz.

Para ele, é preciso, neste momento, "administrar o conflito". "Israel teve um alto crescimento econômico a partir de 2000. Então, vivemos com a violência, a população aumenta (...) Há problemas gerados com esse conflito perpétuo, mas dá para se viver. Essa é a alternativa por enquanto, e creio que é como será nos próximos anos".

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