Análise: Após Annapolis, israelenses e palestinos aguardam resultados
JEAN-LUC RENAUDIE
da France Presse, em Jerusalém
Israelenses e palestinos receberam com prudência as boas intenções formuladas na terça-feira em Annapolis, já que ambas as partes dizem duvidar de que haja uma margem de tempo suficiente para concluir um acordo até o final de 2008, conforme foi previsto.
Os meios de comunicação israelenses dizem estar céticos no que diz respeito ao cumprimento deste prazo. A imprensa lembrou uma frase proferida pelo ex-primeiro-ministro Yitzhak Rabin, que dizia que "nenhuma data é sagrada" no Oriente Médio.
Hanan Cristal, o comentarista da rádio pública, considerou que o discurso pronunciado pelo primeiro-ministro Ehud Olmert era "suficientemente vago" para que Israel Beitenu, o partido ultranacionalista --que tem 11 deputados em um total de 120-- e o Shass, um grupo ultra-ortodoxo --12 deputados--, tenham decidido permanecer na coalizão governamental.
"Olmert ganhou um ano",diz Cristal, destacando que o chefe de governo não deu nenhuma informação concreta no que diz respeito a questões-chave, como o futuro de Jerusalém Oriental, os refugiados palestinos e o traçado das fronteiras do futuro Estado palestino.
"O que ocorreu em Annapolis não tem nenhuma importância", afirmou Avigdor Lieberman, ministro de Assuntos Estratégicos e chefe de Israel Beitenu.
O ministro de Comércio e Indústria, Eli Yishai, dirigente político do Shass, comparou a reunião de Annapolis a "um sonho", destacando que o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, não é mais do que "um sócio virtual" que já não controla a faixa de Gaza, dominada desde junho deste ano pelos integrantes do Hamas.
O chefe da oposição e do Likud, Benjamin Netanyahu, voltou a pedir, outra vez em vão, que o Israel Beitenu e a Shass que abandonassem a coalizão, alegando que "o primeiro-ministro fez concessões perigosas, enquanto que Abbas não se moveu nem um centímetro".
Palestinos
Do lado palestino, o jornal "Al Quds" --independente e vinculado ao Fatah, de Abbas--, afirmou que Annapolis "marca um começo alentador, apesar de simbólico": "Esta reunião colocou a bola no campo israelense e deu aos Estados Unidos uma ocasião de exercer pressões sobre os dirigentes israelenses para que eles participem de forma real no processo de paz".
"Al Hayat al Jadida", o jornal da ANP, diz que "a maior parte do povo palestino apóia o processo lançado em Annapolis, apesar do que sugerem redes de TV dos países do Golfo".
Abdullah Abdullah, deputado do Fatah, afirmou que "o elemento mais importante é que Abbas não cedeu nos direitos dos palestinos, ao contrário das acusações lançadas contra ele".
O Hamas, que se opôs à reunião de Annapolis ao proclamar que Abbas não tinha mandato algum para negociar em nome dos palestinos, disse que a reunião "não terá resultado".
"Os discursos pronunciados confirmam o que nós tínhamos afirmado anteriormente, ou seja, que esta conferência não produzirá nenhum resultado no interesse da causa palestina", afirmou Taher al Nunu, um porta-voz do Hamas.
Um dos dirigentes do radical Frente para a Libertação da Palestina disse à France Presse que lamentava que esta "reunião tenha se limitado a um festival de discursos".
Leia mais
- Brasil se oferece para sediar reuniões entre Israel e palestinos
- Protestos contra Annapolis deixam um morto e 50 feridos na Cisjordânia
- Líderes tentarão chegar a acordo de paz até fim de 2008, diz Bush
- Bush diz que é a "hora certa" para buscar a paz no Oriente Médio
- Reunião sobre Oriente Médio nos EUA deve fracassar, dizem analistas
- "O islã" explica origens e preceitos do islamismo
Especial

