Mundo
29/11/2007 - 18h14

Eleições são um "jogo" para enganar paquistaneses, diz analista

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DANIELA LORETO
editora de Mundo da Folha Online

Um dia após deixar a chefia do Exército, o ditador paquistanês, Pervez Musharraf, foi nomeado nesta quinta-feira presidente civil do país, anunciou a suspensão do estado de emergência e disse que as eleições legislativas de 8 de janeiro serão "justas e livres".

No entanto, para Gowher Rizvi, especialista em política do Sudeste Asiático e professor da Universidade de Harvard (EUA), tais medidas não irão alterar o cenário político do país.

"As eleições anunciadas como democráticas na verdade não causarão grandes mudanças, porque o governo continuará nas mesmas mãos: nas de Musharraf, e o Exército continuará a ter muito poder", afirmou o especialista nesta quinta-feira em entrevista por telefone à Folha Online.

Segundo ele, a votação é um "jogo" montado para enganar os paquistaneses, que atende às intenções dos Estados Unidos na região. "Quando aceitou-se que [a ex-premiê Benazir] Bhutto voltasse ao país, a idéia dos EUA era que Musharraf e o Exército continuassem no poder, para que assim pudessem prosseguir com a chamada "guerra contra o terror", afirma.

Para o analista, a eleição de Bhutto ou de outro líder da oposição como primeiro-ministro daria um "ar democrático" para o governo paquistanês. "Por isso tudo, mesmo com eleições justas e livres, não acredito que um governo eleito democraticamente tenha nenhum poder. Também não acredito que haverá qualquer mudança no apoio popular ao governo, porque os paquistaneses vêem que isso tudo é um grande jogo sendo encenado para enganá-los", diz.

Leia abaixo a íntegra da entrevista exclusiva concedida por Rizvi à Folha Online:

Folha Online- Musharraf anunciou hoje o fim do estado de emergência no Paquistão e prometeu que as eleições de 8 de janeiro serão "justas e livres". O senhor concorda?

Rizvi - Mesmo que consideremos que as eleições serão livres e justas, e não há razão para pensarmos que não serão, em termos de poder, muito pouco mudará no Paquistão. O que aconteceu no país é que uma série de governantes militares, começando com o general Muhammad Zia-ul-Haq [que governou o Paquistão de 1977 até sua morte, em 1988] até o general Musharraf, deixaram de lado a Constituição paquistanesa. O poder real foi retirado do Parlamento e do primeiro-ministro. O presidente tem, inclusive, o poder de demitir e eleger o primeiro-ministro. Então, podemos imaginar que, mesmo que seja eleito um primeiro-ministro, este será subserviente a Musharraf e, conseqüentemente, ao Exército. Por tudo isso, as eleições anunciadas como democráticas na verdade não causarão mudanças, porque o governo continuará nas mesmas mãos: nas de Musharraf, e o Exército continuará a ter muito poder.

Folha Online- A oposição comemorou a saída de Musharraf do Exército, mas disse esperar que o Exército não interfira mais na política. Pelo que o senhor diz, tal interferência deve continuar?

Rizvi- Sim, irá continuar, sem dúvida alguma. No discurso de despedida do Exército, Musharraf afirmou que estava retirando o uniforme, mas que continuaria "soldado de coração". Ou seja, podemos imaginar que ele não apenas manipulou sua própria eleição como está tentando mostrar seu apoio no Exército, e escolheu o chefe da inteligência [o general Ashfaq Kayani], que é um dos seus principais aliados, como novo chefe do Exército. Ou seja, o poder real continuará concentrado nas mãos de Musharraf, com o apoio militar.

Folha Online- Oficialmente, Musharraf tornou-se hoje presidente civil do país. Isso muda a maneira como ele é visto internamente e no exterior? Ainda podemos chamá-lo de ditador?

Rizvi- Não podemos mais chamá-lo de ditador, nem de chefe militar, porque, seguindo esse papel que ele criou, ele foi eleito de uma maneira supostamente democrática, que é apenas chamada de democrática. Por ter medo de que seu mandato fosse questionado na Justiça, ele demitiu juízes do alto escalão, e nomeou outros que são alinhados a ele, sabendo que aceitariam a legalidade de sua eleição. Isso tudo é, na verdade, exatamente o que os Estados Unidos esperavam que acontecesse no Paquistão. Quando aceitou-se que [a ex-premiê Benazir] Bhutto voltasse ao país, a idéia dos EUA era que Musharraf e o Exército continuassem no poder, para que assim pudessem prosseguir com a chamada "guerra contra o terror", e que Bhutto ou outro líder da oposição fosse eleito primeiro-ministro, o que daria um "ar democrático" para o governo paquistanês. Por isso tudo, mesmo com eleições justas e livres, não acredito que um governo eleito democraticamente tenha qualquer poder. Também não acredito que haverá qualquer mudança no apoio popular ao governo, porque os paquistaneses vêem que isso tudo é um grande jogo sendo encenado para enganá-los. Além disso, a credibilidade política de Bhutto é seriamente questionável. Há apenas um fato interessante ocorrendo no país, que é a volta [do ex-premiê] Nawaz Sharif ao Paquistão. Com isso, haverá uma competição muito acirrada entre Bhutto, Sharif e o partido político que foi criado por Musharraf, a Liga Muçulmana do Paquistão (PML-Q), nas eleições de janeiro.

Folha Online - Tanto Bhutto quanto Sharif registraram suas candidaturas para as eleições, mas ambos ameaçam boicotar a votação. O senhor acha que eles irão disputar o pleito?

Rizvi - Em minha opinião, as eleições irão de fato ocorrer. O principal motivo para minha crença é o fato de Musharraf ter dado fim ao estado de emergência no país, que era a principal exigência dos grupos de oposição. Todos os partidos tentarão usar a disputa eleitoral, mesmo que sua legitimidade seja questionável, para demonstrar seu apoio popular, para mostrar quem possui mais apoio entre os paquistaneses. Há apenas uma razão pela qual a oposição poderia boicotar o pleito. Em duas semanas, eles irão avaliar suas chances nas urnas. Caso Sharif ou Bhutto sintam que seus partidos correm o risco de fracassar completamente na disputa, eles podem desistir de participar. Com isso, não demonstrariam fraqueza, e diriam à população que optaram pelo boicote como protesto contra Musharraf. Há também a possibilidade de que as eleições não apontem um resultado claro. Para conseguir a maioria, o partido vencedor precisaria obter mais de 50% das cerca de 300 cadeiras no Parlamento. Caso nenhum dos partidos obtenha essa cota, é necessário que se forme uma coalizão. Nesse caso, o partido de Musharraf poderá optar por unir-se ao Partido Popular do Paquistão (PPP), de Bhutto, ou à Liga Muçulmana do Paquistão-N (PML-N), de Sharif. Dessa forma, Musharraf poderia fazer exigências, e passaria a controlar também o Parlamento

Folha Online- Em sua opinião, o que ocorrerá? É possível prever o provável cenário das eleições?

Rizvi- Neste momento, é muito difícil prever o que ocorrerá, por duas razões: Sharif e Bhutto ficaram fora do país por cerca de oito ou nove anos. Nesse período, Musharraf usou o Exército para construir seu próprio apoio popular. Não é possível saber como os eleitores reagirão. Não sabemos também qual a força real do partido de Sharif. Se este possuir a força necessária, imagino que Sharif possa vencer as eleições. Mas não se sabe, já que ele ficou um longo período longe do Paquistão, e muitos de seus partidários uniram-se a Musharraf. Por tudo isso, eu diria que o resultado dessas eleições é bastante imprevisível.

Folha Online- Sharif tentou voltar ao Paquistão em setembro deste ano, mas foi deportado horas depois. Por que ele foi bem-sucedido nesta segunda tentativa de retorno?

Rizvi- Musharraf visitou a Arábia Saudita há cerca de dez dias. Essa visita foi organizada pelo rei saudita, Abdullah bin Abdul Aziz. Ele disse a Musharraf que se Bhutto tinha voltado ao país, Sharif também deveria ter permissão para retornar. Além disso, Musharraf vislumbrou que, com o retorno, haveria uma competição entre três partes --Bhutto, Sharif e Musharraf. Dessa forma, ele dividiria os votos da oposição. Se fosse uma competição entre duas partes, não há dúvidas de que Bhutto venceria. Com a divisão em três, é mais provável que ninguém alcance a maioria, e o partido governista conseguirá comandar uma coalizão no Parlamento.

Folha Online- Bhutto e Sharif parecem ter adotado posturas políticas similares. Ambos se opõem a Musharraf e fazem as mesmas exigências. Isso pode mudar?

Rizvi- É verdade, as exigências de ambos são muito similares. Mas há uma profunda rivalidade entre Bhutto e Sharif, enquanto existem muito poucas divergências em suas propostas políticas. No Paquistão, a política é, em geral, bastante direcionada pelas personalidades, enquanto há diferenças mínimas nas plataformas políticas.

Folha Online- Musharraf afirmou nesta semana que o Paquistão "caminha para a democracia". O senhor concorda?

Rizvi - O presidente [americano George W. Bush] também diz que o Paquistão caminha para a democracia, mas ninguém acredita, ninguém leva este tipo de declaração a sério. É de interesse dos Estados Unidos que o mundo acredite nessa teoria, porque eles querem que Musharraf permaneça no poder. No entanto, as pessoas acreditam em Bush tanto quanto acreditaram nele no episódio do furacão Katrina [que devastou o sul dos Estados Unidos e matou 1.800 pessoas em 2005], quando afirmou que [o então diretor da Agência Federal de Gestão de Emergências (Fema, na sigla em inglês)] Michael Brown tinha feito um excelente trabalho. Ninguém acreditou, todos sabem que são mentiras contadas com determinados interesses.

 

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