Mundo
04/12/2007 - 08h45

Chávez errou ao vincular reforma à sua imagem, diz professor

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FERNANDO SERPONE
da Folha Online

O presidente venezuelano, Hugo Chávez --derrotado em referendo popular neste domingo (02)-- errou ao vincular a proposta de reforma constitucional à sua imagem, na opinião de Daniel Hellinger, especialista em Venezuela e professor de História, Política e Legislação da Universidade Webster, no Missouri (Estados Unidos).

O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela anunciou nesta segunda-feira (03) a vitória do "Não" no pleito. Um total de 50,7% dos votantes --o equivalente a cerca de 4,5 milhões-- optaram pelo "Não", contra 49,29% -- cerca de 4,3 milhões-- que escolheram o "Sim".

Francesco Spotorno/Reuters
Chávez errou ao vincular reforma à sua própria imagem, diz professor
Hugo Chávez errou ao vincular reforma à sua própria imagem, diz professor

Para Hellinger, Chávez se enganou ao dizer: "Vou fazer deste um referendo sobre mim e a minha administração". "Afirmar, durante a campanha, que com a aprovação da reforma poderia ele poderia ficar no poder até 2050, foi um erro sério de Chávez", afirmou Hellinger por telefone à Folha Online nesta segunda-feira.

A proposta rejeitada criaria novos tipos de propriedades comunitárias, permitiria que Chávez escolhesse líderes locais para realizar um novo desenho do mapa político e suspendesse os direitos civis durante prolongados estados de emergência. Sem a reforma, que também previa a reeleição presidencial ilimitada, ele não poderá concorrer à Presidência em 2012.

Outras mudanças seriam a diminuição da carga horária de trabalho de 8 para 6 horas diárias, a criação de um fundo de segurança social para os milhões de trabalhadores informais e de conselhos regionais para que se decidisse como empregar os fundos do governo. Segundo o estudioso, especialista em Venezuela, o vínculo entre sua imagem e a reforma permite à oposição dizer que a derrota foi uma "rejeição ao presidente Chávez".

De acordo com o estudioso, a resposta negativa está ligada ao descontentamento com questões materiais imediatas, como a "coleta de lixo e a criminalidade, além da inflação e do racionamento de alimentos".

"Pela primeira vez as pessoas começam a se perguntar se a administração [Chávez] pode prestar esses serviços com eficiência. E ele [Chávez] tem de lidar com esses problemas", explica.

Por outro lado, o professor diz que a pequena margem que garantiu a vitória ao "Não" mostre à comunidade internacional que há democracia no país.

"Me pergunto que tipo de ditador aceita uma perda de 1% em um referendo", afirmou Hellinger.

Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida à Folha Online:

*

Folha Online - O senhor crê que Chávez irá tentar realizar mudanças propostas na reforma por outros meios?

Daniel Hellinger - Provavelmente. Podemos questionar se algumas das mudanças que ele queria fazer tinham mesmo de estar na Constituição --[as mudanças relativas a] salário e redução da semana de trabalho, por exemplo, que definitivamente podiam ser implementadas por outros meios. E, provavelmente, algumas mudanças que ele queria fazer nos Conselhos Comunitários poderiam ser alcançadas através de legislação.

Folha Online - E por que ele tentou fazer essas mudanças na Constituição?

Hellinger - É uma boa pergunta. Uma resposta fácil é que mudanças constitucionais são mais profundas e permanentes que mudanças na legislação. Em segundo lugar, Chávez superestimou sua habilidade de mobilizar as pessoas pela força de sua própria personalidade, e ele às vezes é impaciente com o ritmo das mudanças --ele quer que as coisas aconteçam mais rapidamente, o que creio que tenha sido outro erro cometido nesse caso.

Então, acredito que tenha a ver com a sua impaciência e com seu desejo de juntar todo esse pacote de mudanças. Ao ter dois grandes pacotes de reformas, com 69 emendas, isso força as pessoas a não diferenciarem o que elas gostam do que elas não gostam, mas a ter de votar a favor de todo um pacote de uma vez. Se ele submetesse [as mudanças] à Assembléia Nacional, apesar de ele controlá-la, haveria muito mais debate, e possibilidades de mudanças e emendas. O que creio que era algo que ele não queria apoiar.

Folha Online - Qual o significado dessa derrota para a imagem de Chávez, sendo a sua primeira derrota nas urnas em nove anos? O senhor crê que signifique uma perda de apoio popular?

Hellinger - Em parte, sim. Mas creio que há o risco de a oposição ter superestimado o valor desse voto, assim como há o risco de que Chávez o tenha subestimado. É sempre difícil interpretar o voto em qualquer eleição, em qualquer país, pois as pessoas têm uma série de motivos para votar como votam, e o resultado de uma eleição nem sempre tem um significado claro. Nesse caso, creio que não devemos olhar apenas para a margem de diferença, que foi bem pequena, mas para o alto índice de abstenção.

Ela significa que Chávez deve olhar bem não só porque as pessoas votaram contra, mas porque elas não foram votar. A resposta tem a ver com o descontentamento com coisas materiais imediatas, como coleta de lixo, a questão da criminalidade. A inflação se tornou um problema, o racionamento de alimentos, em alguns casos.

Pela primeira vez as pessoas começam a se perguntar se a administração [Chávez] pode prestar esses serviços com eficiência. E ele [Chávez] tem de lidar com esses problemas.

As pessoas quererem mandar um sinal foi outra razão pela qual ele perdeu. Mesmo entre simpatizantes, em particular entre os chamados ni-ni (abreviação de "ni una cosa ni otra"), da classe média, que passaram a apoiar o presidente a partir da última eleição. Creio que, neste caso, gostando das reformas propostas ou não, estavam de certa forma nervosos por demonstrar algum tipo de reprovação pelo aumento e concentração do poder nas mãos do presidente.

Folha Online - O senhor crê que o alto nível de abstenção também estaria relacionado ao grande número de reformas propostas e à falta de conhecimento da população sobre o que estava sendo votado?

Hellinger - Creio que em parte, mas Chávez tentou fazer a campanha uma campanha sobre ele. O que é um jogo perigoso para ele, já que a sua derrota permite à oposição dizer "é uma rejeição ao presidente Chávez", em comparação a 2004, quando a oposição cometeu o erro de dizer "vamos fazer as pessoas votarem contra Chávez".

Desta vez foi Chávez que cometeu o engano de dizer "vou fazer deste um referendo sobre mim e a minha administração", mais do que sobre as mudanças na Constituição. Vi algumas pesquisas que diziam que a maioria dos venezuelanos --entre 50% a 60%-- do eleitorado se sentiam informados sobre a reforma constitucional. Claro que a pesquisa não mede o quanto elas conhecem, mas 60% dos venezuelanos disseram entender sobre as mudanças na Constituição. Se for verdade, é uma indicação de que, de certo modo, o presidente confundiu a questão, dizendo "se você vota não, você vota contra mim."

Acredito que ele deva refletir sobre essa estratégia em particular, e por que ele, em quase nove anos de mandato, não conseguiu desenvolver nada como um aparato político, um partido político, que realmente pudesse mobilizar as pessoas na quantidade necessária para realizar a transição ao socialismo sobre o qual ele fala.

Folha Online - Do que você me diz, podemos entender que foi mais uma derrota de Chávez do que uma vitória da oposição?

Hellinger - Não colocaria dessa forma. É uma derrota para o presidente? Claro que é. É uma vitória da oposição? Com certeza. Mas isso não é tudo. Eu interpretaria como a população venezuelana dizendo ao presidente Chávez que "neste momento, não temos tanta certeza sobre a direção na qual você pretende levar o país, queremos ver mais resultados da sua administração para alguns dos problemas que surgiram, e estamos um pouco nervosos sobre essas reformas que deviam ser sobre descentralizar o poder e que podem colocar mais poder nas suas mãos do que queremos que tenha".

Também, apesar de a Constituição ainda permitir a reeleição, apesar de o presidente ter defendido a reeleição a cada sete anos, o presidente, na campanha, falando que aprovando a reforma ele pode ficar no poder até 2050, foi um erro sério da sua parte. Muitos venezuelanos pensaram: "eu não necessariamente quero que o meu voto signifique que, se eu votar a favor dessas reformas, eu quero que o presidente fique até 2050".

Folha Online - As campanhas pelo "Não" e pelo "Sim" aumentaram a polarização na Venezuela?

Hellinger - Dependendo de como os dois lados responderem, podem deixar o país menos polarizado. É quase impossível para qualquer pessoa da oposição, ou da imprensa internacional, apontar Chávez como um ditador. Essa foi uma derrota muito estreita para o presidente. Não houve fraude eleitoral. Não seria necessário muito para manipular os resultados da eleição. Por isso, creio que há setores da mídia internacional, principalmente nos EUA, que estavam tão convencidos que o presidente Chávez nunca iria aceitar e respeitar esse resultado, que precisam repensar como a política funciona na Venezuela.

Nesse sentido, voltando à questão da polarização, por um lado o resultado reduz a parcela da oposição que originalmente pedia pela abstenção, por crer que fosse um golpe antidemocrático. Essas forças perderam um tanto nessa eleição, pois a oposição mais moderada se mostrou mais efetiva. E do lado de Chávez, se os chavistas responderem com reflexão e tentarem retificar os problemas internos que eles têm, também pode ser um desenvolvimento bastante positivo.

Os primeiros sinais são de que, por ter sido uma vitória com uma margem pequena, ela deve deixar a Venezuela menos polarizada do que ela era há 24 horas. Não faço previsões, mas tenho essa esperança.

Folha Online - De certo modo, o resultado foi uma derrota no campo político interno, mas para os outros países, provou que a Venezuela tem uma democracia real e não uma ditadura?

Hellinger - Eu espero que sim, que as pessoas entendam isso. Me pergunto que tipo de ditador aceita uma perda de 1% em um referendo.

Folha Online - Sobre o discurso de Chávez no último evento de campanha, sobre um plano dos EUA de interferir na Venezuela, a "Operación Tenaza" --há um fundo de verdade ou é pura retórica?

Hellinger - É um pouco de cada. Ainda não há provas reais de que a Operación Tenaza tenha existido. Por outro lado, temos visto que os EUA continuam a procurar formas de auxiliar organizações da oposição, e a interferir na política interna da Venezuela. Não creio que isso seja invenção.

Então, acredito que o apelo do presidente Chávez de que o voto contra suas propostas seria uma aprovação à interferência americana nos assuntos internos da Venezuela claramente não funcionou. Mas isso não significa que os EUA não tenham recursos extraordinários para interferir nos assuntos internos do país. E quando você olha para o tipo de administração em Washington, seria muita inocência alguém achar que os EUA estão prontos para respeitar a soberania venezuelana, e que teriam aceitado facilmente a vitória de Chávez.

A Operación Tenaza só tem credibilidade na Venezuela porque Washington de fato interfere em seus assuntos internos. Mas não temos provas da existência dessa operação em particular.

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Comentários dos leitores
Luis Antonio Aragão (19) 01/07/2009 14h51
Luis Antonio Aragão (19) 01/07/2009 14h51
Sim,não dizem que a democracia é o governo do povo para o povo.Portanto o povo é quem decide,e a constiuição venezuelana é mais moderna que a nossa,pois possibilita um plebiscito bi anual.Se Chavez tiver sido um mau presidente perderá.Por que então os reacionários que até um certo dia apoiavam Mousavi,pregando a ~derrubada do mesmo após ter sido eleito,estão agora ladrando? sem opinião
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J. R. (354) 01/07/2009 10h15
J. R. (354) 01/07/2009 10h15
Globovision apóia o golpe em Honduras e tira do ar imagens dos fatos. Esse canal é mesmo do demo. sem opinião
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João Carlos Gagliardi (1573) 19/06/2009 23h18
João Carlos Gagliardi (1573) 19/06/2009 23h18
Globovisión arrecada mais de US$ 1 mi para pagar multa a Chávez...
Está de parabéns o povo venezuelano, que se cotizou para pagar essa "multa".
Chávez, é o ídolo de todo populista degenerado do continente.
Ele continua fazendo o que bem entende, devidamente sustentado por políticos de quinta categoria.
Não sei porque essa história me lembra alguém...
O fato, é que Chávez quer se tornar o novo Fidel, e não está medindo esforços para isso.
As estatizações, sequem a todo vapor...
Com o petróleo voltando a subir, ele voltará ao ataque.
Tenho certeza que não "medirá esforços", com as eleições presidenciais já próximas no Brasil, para ter aqui, um governo simpático á sua causa.
Como, aliás, ele fez generosamente tanto em 2002 quanto em 2006...
4 opiniões
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