Ex-agente da CIA revela práticas de tortura em interrogatórios
da Folha Online
Um ex-agente da CIA [inteligência americana] que diz ter participado de interrogatórios de um suposto terrorista ligado à Al Qaeda, revelou nesta segunda-feira, em entrevista ao "Washington Post", o uso de técnicas de tortura durante as sessões.
No entanto, ele tentou justificar as práticas, dizendo que estas deram à inteligência subsídios que "provavelmente salvaram vidas".
De acordo com o ex-agente John Kiriakou, o primeiro membro do alto comando da rede Al Qaeda capturado após o atentado de 11 de Setembro de 2001, Abu Zubaydah, entregou informações que permitiram à CIA desmantelar planos terroristas "em menos de um minuto" após ser submetido a técnicas de afogamento.
Kiriakou --que serviu como interrogador da CIA no Paquistão-- é o primeiro funcionário da CIA envolvido nos interrogatórios de dirigentes da Al Qaeda a falar publicamente.
Ao "Post", ele disse que não presenciou a sessão em que Zubaydah foi submetido às práticas de afogamento, mas chegou a interrogá-lo em um hospital paquistanês em 2002.
Ele descreveu Zubaydah como "desafiador" e "pouco cooperativo" --até o dia em que os oficiais envolveram seu rosto em papel celofane e usaram técnicas de afogamento.
Segundo o ex-agente --que recebeu a descrição detalhada do interrogatório-- a tortura durou 35 segundos, até Zubaydah perder a consciência. De acordo com Kiriakou, o integrante da Al Qaeda afirmou, no dia seguinte, que contaria tudo o que os agentes quisessem.
"Ele disse que Alá veio até ele na cela e lhe disse para cooperar, para que as coisas ficassem mais fáceis para seus irmãos", afirmou Kiriakou.
Vídeos
As declarações de Kiriakou vieram a público um dia antes de agentes da CIA apresentarem-se ao Congresso americano para falarem sobre a destruição dos vídeos que mostravam os interrogatórios de Zubaydah e de Abd al Rahim al Nashiri --outro líder acusado de vínculos com a rede Al Qaeda.
Na última quinta-feira (6), o diretor da CIA, Michael Hayden, admitiu que as gravações foram destruídas deliberadamente.
Segundo ele, a decisão foi tomada "dentro da CIA" com o intuito de proteger a identidade dos agentes. Ainda de acordo com ele, os vídeos "não teriam mais valor" para os trabalhos de inteligência.
As fitas foram inutilizadas apesar das ordens judiciais que solicitavam ao governo a preservação das gravações dos programas de interrogatórios da CIA.
Explicações
Na última sexta-feira (7), líderes do Congresso dos Estados Unidos exigiram explicações sobre o caso.
Em particular, os legisladores querem saber se o Departamento de Justiça sabia da existência dos vídeos, e de sua posterior destruição.
Os legisladores querem determinar se as autoridades omitiram a existência das gravações enquanto um tribunal federal analisava o caso contra o franco-marroquino Zacarias Moussaoui, cuja defesa tinha solicitado materiais obtidos dos interrogatórios.
O presidente do Comitê Judicial da Câmara de Representantes, o democrata John Conyers, liderou uma investigação sobre uso da tortura e vários métodos coercitivos de interrogatórios de agentes do governo.
O governo dos Estados Unidos nega haver prática de tortura durante os interrogatórios.
A porta-voz da Casa Branca Dana Perino afirmou na sexta-feira (7) que o presidente americano, George W. Bush, não tinha conhecimento prévio da destruição das fitas.
"Conversei hoje com o presidente [Bush] sobre isso. Ele não se lembra de ter sido informado a respeito da destruição das gravações até ontem, quando foi informado por Hayden", afirmou.
Com Washington Post
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