Mundo
11/12/2007 - 21h39

Ex-presidente Fujimori é condenado a seis anos de prisão no Peru

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da Folha Online

O ex-presidente do Peru Alberto Fujimori foi condenado nesta terça-feira a seis anos de prisão por haver ordenado durante seu mandato a invasão ilegal da residência da esposa de seu ex-assessor Vladimiro Montesinos, segundo a sentença lida em Lima.

Esta é a primeira condenação de Fujimori, que enfrenta outras quatro acusações de corrupção e mais duas de crimes contra os direitos humanos. O ex-presidente anunciou em seguida que irá recorrer da pena.

Karel Navarro/AP
O ex-presidente Alberto Fujimori acena ao chegar ao tribunal nesta terça-feira
O ex-presidente Alberto Fujimori acena ao chegar ao tribunal nesta terça-feira

O julgamento foi realizado em uma sede policial de Lima onde Fujimori está preso desde setembro, quando o peruano foi extraditado do Chile.

Fujimori escutou a sentença sem manifestar emoção, durante uma leitura de quase três horas. Ao sair da sala, se despediu com um sorriso dos três filhos que acompanhavam a sessão atrás de um vidro.

A pena pela acusação de abuso de autoridade se deu em razão da invasão domiciliar da casa de Trinidad Becerra, esposa de seu ex-braço direito Vladimiro Montesinos, onde um falso fiscal --ordenado por Fujimori, segundo a sentença-- entrou de maneira ilegal.

A invasão ocorreu em 7 de novembro de 2000, nos últimos dias do terceiro mandato de Fujimori, que acabou em meio a um escândalo de corrupção protagonizado por Montesinos.

Acredita-se que a invasão de domicílio tinha como objetivo buscar fitas de vídeo que pudessem comprometer o ex-presidente em atos de corrupção, já que Montesinos filmava escondido suas reuniões.

Muitos desses vídeos foram divulgados, e seu conteúdo foi usado como prova contra o próprio Montesinos e seus interlocutores.

O ex-presidente assumiu sua responsabilidade neste caso durante a fase de investigação realizada em outubro, mas a Corte não considerou o ato como uma confissão sincera, já que demorou sete anos para reconhecer sua culpa.

Direitos humanos

Nesta segunda-feira (10), teve início o julgamento por violação de direitos humanos, no qual o ex-presidente terá que responder por dois massacres que deixaram 25 mortos, entre 1991 e 1992, e por dois seqüestros de opositores a seu governo. Por essas acusações, Fujimori pode passar o resto da vida na prisão.

O julgamento desta segunda foi interrompido devido a uma crise de hipertensão do ex-presidente peruano. "Vamos suspender essa audiência até a próxima quarta-feira às 09h30" (12h30 de Brasília), declarou o presidente do tribunal, Cesar San Martin.

O médico, que não teve o nome divulgado, informou ao tribunal que Fujimori foi examinado às 13h45 (16h45 de Brasília) e apresentou "sintomas de dor cardíaca, dor de cabeça, e dor de garganta".

"Foi diagnosticada uma crise de hipertensão. A recomendação é que Alberto Fujimori fique de repouso hoje (segunda-feira) até ser reavaliado amanhã (terça-feira)", disse o médico do Instituto Nacional Penitenciário peruano.

Antes da crise de hipertensão, o ex-presidente peruano clamou sua inocência nas acusações de que teria ordenado assassinatos na "guerra suja" contra os rebeldes ao longo de seu governo nos anos de 1990.

"Rejeito as acusações, sou inocente, não aceito a acusação da procuradoria", disse Fujimori, em tom vibrante, ao responder ao juiz César San Martín.

Fujimori tentou, por quase sete anos, fugir da Justiça peruana, refugiando-se no Japão em 2000, país do qual também possui nacionalidade; depois, no Chile, de onde foi extraditado em 22 de setembro passado.

Sendero luminoso

O procurador buscará provar seu envolvimento, direto ou indireto, nas violações dos direitos humanos de seu regime (1990-2000), ligadas à luta contra o Exército e a guerrilha maoísta do Sendero Luminoso, que deixou 70 mil mortos e desaparecidos.

O ex-homem forte do Peru, hoje com 69 anos, está sendo julgado pelos massacres de Barrios Altos e de La Cantuta, em 1991 e 1992, em Lima, durante os quais 25 pessoas foram executadas pelo grupo Colina, um esquadrão da morte formado por militares, e pelo seqüestro e detenção do jornalista Gustavo Gorriti, então correspondente do jornal espanhol "El País", e de um empresário.

Gisela Ortiz, de 35, cujo irmão Luis Enrique, estudante na Universidade de La Cantuta, foi morto com oito colegas e com um professor em 1992 por um esquadrão da morte, espera por este dia há 15 anos. Ela viajou ao Japão, onde Fujimori se refugiou, protestou no Chile por sua extradição e fez dezenas de passeatas, pedindo seu julgamento no Peru.

Fujimori, que terá o direito de se manter em silêncio, está sendo defendido por César Nakasaki, uma advogada de origem japonesa.

O procurador-geral pede 30 anos de prisão e 33 milhões de dólares de indenizações para as famílias das vítimas.

Massacres

O ex-presidente é acusado de ser o autor intelectual de ambos os massacres. No primeiro, na noite de 3 de novembro de 1991, 15 pessoas, entre elas várias mulheres e idosos, além de uma criança de 8 anos, foram mortos no bairro de Barrios Altos, em Lima.
No segundo, ocorrido alguns meses mais tarde, em 18 de julho de 1992, as vítimas, nove estudantes e um professor de La Cantuta, foram seqüestrados antes de serem executados em um terreno baldio, com uma bala na nuca.

Vários membros do "grupo Colina" disseram ter obedecido a ordens "vindas de cima". Formado por militares, esse grupo era subordinado a Vladimiro Montesinos, conselheiro de Fujimori encarregado dos serviços secretos e diretamente ligado à presidência.

As audiências desse processo, que pode durar de nove meses a dois anos, vão acontecer três vezes por semana, nas dependências da Direção Nacional das Operações Especiais (Diroes), em Lima, onde Fujimori está preso desde sua extradição do Chile, a pedido da Justiça peruana.

Com France Presse, Efe e Reuters

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