Cristina Kirchner reage com irritação a acusações dos EUA
da Folha Online
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, reagiu com irritação às acusações de que os US$ 800 mil [cerca de R$ 1,4 milhão] apreendidos em agosto com o empresário venezuelano Guido Antonini Wilson em Buenos Aires seriam uma contribuição do governo de Hugo Chávez à sua campanha presidencial.
Cristina qualificou a acusação como um exemplo de "lixo na política internacional" e sugeriu que qualquer um que pensar que uma presidente mulher é mais facilmente influenciável "está errado".
Promotores dos EUA afirmaram que uma mala apreendida pela alfândega argentina com quase US$ 800 mil era uma contribuição do governo venezuelano a Cristina, que assumiu a Presidência na última segunda-feira (10).
A acusação foi feita na quarta-feira em Miami, onde promotores revelaram uma denúncia criminal que acusa quatro venezuelanos de atuarem como agentes ilegais para o governo de Chávez, e de tentarem encobrir o destino do dinheiro não declarado.
Os promotores afirmam que gravações de conversas dos envolvidos revelam que o esquema chegava aos mais altos escalões da administração venezuelana.
O governo de Chávez classificou como um "escândalo fabricado", e Cristina afirmou em declarações transmitidas pela televisão que não será pressionada pelo o que seus assessores consideram um "truque maldoso" para interromper a influência de Chávez na região.
"Guerra política"
"Este presidente pode ser uma mulher, mas ela não se deixará ser pressionada", disse Cristina, a primeira mulher eleita presidente da Argentina. "Mais que países amigos, querem países empregados e subordinados", afirmou, em referência aos EUA.
Cristina disse ainda que continuará "afirmando a relação de amizade com nossos países latino americanos, também com a Venezuela".
O ministro das Relações Exteriores da Argentina, Nicolas Maduro, classificou as acusações como "um esforço desesperado do governo dos EUA (...) usando o Judiciário para uma guerra política, psicológica, e midiática contra os governos progressivos do continente".
Em Buenos Aires, o ministro da Justiça argentino, Aníbal Fernandez, disse que as acusações são uma punição pelas boas relações do governo argentino com Chávez.
Fernandez afirmou que Cristina prometeu aprofundar ainda mais as relações do país com a Venezuela nos âmbitos do comércio e energético.
"O que está acontecendo é estupidez, e na conjuntura atual, creio que é uma reprise da atitude dos EUA em relação à Venezuela", disse a presidente à agência de notícia estatal Telam.
As alegações de que o dinheiro enviado clandestinamente de Caracas a Buenos Aires irá fornecer mais munição para os críticos de Chávez que o acusam de ingerência em outros países latino-americanos e de usar o dinheiro do petróleo para fortalecer alianças.
As revelações também colocam Cristina na defensiva dias após ser empossada como primeira presidente eleita do país.
Denúncia
A denúncia afirma que "nem a verdadeira fonte, nem o receptor do dinheiro foi descoberto". No entanto, o promotor-assistente Thomas Mulvihill disse no tribunal que o FBI gravou uma conversa na qual um dos detidos afirma que a campanha de Cristina que receberia o dinheiro, apreendido em agosto.
Os venezuelanos Moises Roman Majonica, 36, Franklin Duran, 40, e Carlos Kauffmann, 35, e o uruguaio Rodolfo Wanseele, 40, são os acusados de não se registrarem nos EUA como agentes de outro país. Os quatro foram detidos na terça-feira à noite.
Se condenados, podem passar até dez anos presos e terão de pagar multas de US$ 250 mil (cerca de R$ 440 mil).
O cidadão venezuelano-americano que estava com a mala, vindo da Venezuela, Guido Alejandro Antonini Wilson, não é acusado no processo. A Argentina pediu sua extradição em agosto por acusações de fraude, mas o processo nos EUA sugere que o empresário de Miami foi de suspeito a testemunha principal.
Kenneth L. Wainstein, promotor-geral para segurança nacional, disse que a denúncia "revela um complô de agentes do governo venezuelano para manipular um cidadão americano em Miami, em um esforço para encobrir um crescente escândalo internacional".
Promotores disseram em um tribunal de Miami que as evidências contra os detidos incluem gravações do FBI de conversas entre alguns deles e membros do alto escalão do governo da Venezuela no escritório do vice-presidente, no órgão de inteligência e no Ministério da Justiça.
Em diversas conversas com Antonini, os quatro supostamente tentaram manter a origem do dinheiro em segredo.
A denúncia afirma que Duran disse a Antonini que o assunto estava sendo tratado "no alto escalão do governo venezuelano", e que outro suspeito, Kauffmann, disse a ele que "suas ações futuras podem colocar a vida de seus filhos em risco".
O documento diz ainda que durante uma conversa com Antonini, Duran identificou a pessoa que levou o dinheiro a bordo como um assessor do chefe executivo da estatal petrolífera venezuelana PDVSA.
O dinheiro foi levado à Argentina a bordo de um avião fretado pela companhia de petróleo estatal da Argentina. Antonini estava acompanhado por membros do governo venezuelano e funcionários da PDVSA, incluindo o filho do mais importante funcionário da PDVSA na Argentina.
O advogado de Duran e Kauffmann, Michael Hacker, disse que seus clientes são inocentes.
Com Associated Press
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