Massacre em igreja eleva para mais de 250 número de mortos no Quênia
da Folha Online
Uma multidão incendiou uma igreja no Quênia nesta terça-feira, matando cerca de 50 pessoas que buscavam se proteger dos confrontos étnicos desencadeados com a reeleição do presidente Mwai Kibaki, sob denúncias de fraude. O ataque eleva para mais de 250 o número de mortos nos conflitos no país desde o último domingo (30).
O fogo queimou uma igreja perto da cidade de Eldoret, onde centenas de membros da tribo Kikuyu, de Kibaki, haviam se abrigado. Testemunhas afirmam que corpos queimados, inclusive de mulheres e crianças, estavam entre as ruínas da construção.
"É a primeira vez na história do Quênia que um grupo ataca uma igreja. Nunca esperamos que a selvageria fosse tão longe", afirmou o porta-voz da polícia Eric Kiraithe.
Kibaki tomou posse neste domingo, após os resultados oficiais da eleição apontarem para uma vitória apertada sobre o líder da oposição Raila Odinga. Ambos os lados se acusaram de fraudes durante o pleito, realizado no último dia 27.
A disputa fomentou rivalidades tribais em uma das democracias mais estáveis e uma das economias mais fortes da África.
A comunidade internacional pediu calma e instou os oponentes políticos a "exercer o comedimento" e a conversar.
A polícia e uma autoridade de segurança afirmaram que o ataque à Igreja Pentecostal de Deus no oeste do Quênia foi realizado por uma gangue de jovens.
Imagens da televisão captadas por helicóptero mostravam fumaça subindo da área da igreja e jovens, alguns com arcos, criando bloqueios nas ruas.
Crise
Moradores e uma autoridade local afirmam que as vítimas foram à pequena igreja, a 8 km de Eldoret, em busca de proteção.
"Alguns jovens vieram à igreja", disse um jornalista no local. "Eles brigaram com os garotos que faziam a guarda (da igreja), mas estavam em vantagem e colocaram fogo na igreja."
A imprensa local afirma que 20 pessoas sofreram queimaduras e correm risco de morte.
O ataque reviveu memórias traumáticas da África ocidental --em 1994 milhares foram assassinados em ataques a igrejas em Ruanda durante o genocídio, e em 2000, centenas morreram queimados em um suicídio em massa em uma igreja em Uganda.
A polícia estima que cerca de 70 mil pessoas estão refugiadas pelo país, e que 170 foram assassinadas. A agência de notícias Reuters contabiliza cerca de 250 mortos.
O principal jornal local, "Daily Nation", afirmou temer que o país está "à beira de um colapso completo". Os preços dos combustíveis em Uganda, no sul do Sudão e em Burundi tiveram aumento acentuado. Todos recebem petróleo, diesel, gasolina e outros produtos de portos quenianos.
Massacre
Washington primeiro deu os parabéns a Kibaki e depois voltou atrás, expressando "preocupações sobre irregularidades". O Reino Unido, antiga metrópole do país, a União Européia e outros líderes evitaram parabenizar Kibaki, mostrando preocupação, pedindo por reconciliação e por investigações em supostas irregularidades no pleito.
"As eleições gerais de 2007 não atingiram os padrões-chave internacionais para eleições democráticas", afirma a declaração dos observadores da União Européia.
A região de Eldoret, onde ocorreu o massacre, é multi-étnica, mas tradicionalmente dominada pela tribo Kalenin.
A região foi palco de violência étnica em 1992 e 1997, quando centenas de Kikuyus foram assassinados e outros milhares tiveram de abandonar suas casas.
Uma autoridade local disse que cerca de 15 mil pessoas buscaram abrigo da violência em igrejas e postos policiais em Eldoret. Ele culpou a oposição por incitar a violência.
"Moramos juntos durante anos, casamos entre nós, temos crianças, mas agora pediram para ficarmos contra", afirmou a autoridade. "Não fazemos isso no Quênia. É o que ocorre na Iugoslávia e no Sudão", completou.
Paul Brennen, padre católico irlandês em Eldoret, disse à agência Reuters que gangues estavam circulando pelas ruas.
"Casas estão sendo incendiadas. É muito perigoso sair e contar os mortos, disse o padre. "As igrejas estão cheias, Há de 4.000 a 5.000 pessoas na catedral principal".
Kibaki convocou um encontro com políticos de oposição para fazer um pedido público pela paz. O candidato derrotado da oposição, Raila Odinga, afirmou que iria recusar o convite.
"Se ele anunciar que não foi eleito, então eu irei conversar com ele", disse Odinga à agência Associated Press. Ele acusou o governo de contribuir para a violência e afirmou que a administração de Kibaki "é culpada, diretamente, pelo genocídio".
Com France Presse, Efe e Reuters
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