Análise: Bush visita Oriente Médio em meio a tensão com o Irã
CÉSAR MUÑOZ ACEBES
da Efe, em Washington
O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, inicia nesta terça-feira sua viagem mais ampla pelo Oriente Médio desde que chegou à Casa Branca, tendo como pano de fundo o aumento da tensão com o Irã.
O próprio Bush, que chegará amanhã a Jerusalém, primeira etapa de uma viagem de nove dias pela região, disse que um dos objetivos fundamentais de seus encontros será conter as "ambições agressivas" do Irã.
A tensão subiu após o incidente do último domingo (6) no Estreito de Ormuz, porta de entrada para o golfo Pérsico, no qual três navios de guerra americanos estiveram prestes a disparar contra navios iranianos após terem sido supostamente ameaçados.
A Casa Branca quer criar uma frente comum na região para isolar o Irã por suas atividades nucleares, seu suposto apoio a milícias xiitas no Iraque e os arroubos de seu presidente, Mahmoud Ahmadinejad, que pediu que Israel "fosse riscada da face da terra".
"Ele gostaria de criar uma aliança de países amigos para enfrentar as agressões iranianas", disse Graeme Bannerman, analista do centro de estudos independente Instituto do Oriente Médio.
No entanto, Bush encontrará, segundo os especialistas, bastante confusão a esse respeito em Kuait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Egito, países que visitará em sua excursão, na qual passará ainda por Israel e Cisjordânia.
Relatório
A razão é um relatório divulgado pela Estimativa Nacional de Inteligência (NIE) no início de dezembro, que revelou que o Irã provavelmente teve um programa secreto para fabricar armas nucleares, mas que o interrompeu em 2003 sob pressão internacional.
O relatório gerou uma onda de rumores no Oriente Médio, onde chegou a se afirmar que faria parte de um complô de um pequeno grupo de analistas para esconder a verdade ou seria até mesmo um golpe das agências secretas dos Estados Unidos para impedir um ataque militar contra o Irã.
O conselheiro de Segurança Nacional americano, Stephen Hadley, reconheceu que o relatório foi "mal interpretado", e Bush previsivelmente passará grande parte de seu tempo durante a viagem tentando desfazer os mal-entendidos a seu respeito.
"Parte da razão pela qual vou ao Oriente Médio é para deixar muito claro às nações desta parte do mundo que consideramos o Irã uma ameaça, e que o relatório da NIE não muda de nenhuma forma essa ameaça, mas a esclarece", afirmou o presidente.
Sanções
O documento da NIE pôs fim aos argumentos de Washington em favor do recrudescimento das sanções contra o Irã, segundo Kenneth Pollack, um analista da Instituição Brookings, um centro de estudos independente.
"Uma das coisas que o presidente terá que fazer é sentar-se diante desses líderes e reiterar que (...) ainda é possível preparar um pacote de sanções que ponha suficiente pressão sobre os iranianos para forçá-los a mudar", disse Pollack.
Segundo especialistas, no entanto, os países da região não passaram a ter afinidades com o governo de Teerã; pelo contrário, sempre existiu grande animosidade entre o Irã, que é um país persa de maioria xiita, e seus vizinhos árabes de maioria sunita.
"Os países do golfo exercem pressão sobre o Irã entre quatro paredes, e não em público. Eles não gostam da diplomacia pública dos Estados Unidos", disse o analista iraniano Farid Abolfathi, da empresa de consultoria Global Insight.
Para levá-los para seu lado, a Casa Branca está se preparando para vender aos governos da região armas no valor de US$ 20 bilhões [cerca de R$ 35 bilhões], um pacote que deverá superar as objeções dos legisladores americanos que o consideram "um perigo para Israel".
Terrorismo
Como se a tensão gerada pelo incidente no Estreito de Ormuz não fosse suficiente, a rede terrorista Al Qaeda pediu a seus seguidores que cometessem atentados contra Bush durante sua viagem.
Bush chegará amanhã a Jerusalém, e no dia seguinte irá a Ramallah, enquanto se especula sobre uma possível visita surpresa ao Líbano.
Durante a excursão, o presidente americano passará próximo a regiões controladas pelos grupo radical islâmico Hamas e a milícia libanesa Hizbollah, que se opõem à política externa dos EUA e, segundo o Departamento de Estado americano, são apoiados pelo Irã.
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