Leia carta de refém das Farc na íntegra
da Folha de S. Paulo
Consuelo Gonzáles, ex-refém das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) libertada na semana passada, entregou nesta terça-feira cartas e provas de vida de outros oito reféns da guerrilha.
Leia a seguir a íntegra da carta do coronel da polícia Luis Mendieta, seqüestrado em 1998:
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21 de dezembro de 2007
Senhora María Teresa Paredes, Jose Luis, Jenny, senhor Alfredo Mendieta, senhora María Agueda Ovalle, irmãs, irmãos, senhor José Israel Paredes, senhora Aura Ardila, Olga, Hildo, Johanita, Alex, Carlos, José, Ricardo, Rossy Luz, William, Oscar, Flor, Alexandra, Hugo, Carmenza, Diana, José Alfredo, Vanesa, Cristian, Yolanda, Jonatan, Roberto, Pilar, Angi, Rober Jovany e Diego.
Graças a Deus nesta corrida contra o tempo pude escrever outras linhas, porque é difícil saber em que momento vão recolher a correspondência, na carta No. 6, na qual vou lhes contar sobre mim. Inicio com nossa despedida há seis anos e meio de Marlen, que levou a última correspondência escrita. Nessa época 28 integrantes da força pública dividíamos o cativeiro. Poucos dias depois chegou Alan Jara, ex-governador do Meta, e posteriormente chegou o Dr. Orlando Beltrán, parlamentar, depois a Representante na Câmara Consuelo González, e passamos vários meses com eles.
Antes de continuar quero agradecer a todos os que me escreveram e me mandaram detalhes com Marlen. Recebi tudo e nos dias seguintes respondi a todas as cartas, mas elas ficaram nas profundezas da selva porque não foi possível que saíssem, além de muitos cartões, de aniversário, de amor e amizade, do Dia das Mães, etc. A María meu agradecimento pela lata de polvo, que foi a última vez em que o consumi. O comi no meu aniversário do ano seguinte, esse foi o banquete especial, eu o desfrutei muito e o degustei bem devagar. Continuando, naquele dezembro Jorge Enrique Botero me fez a entrevista para a televisão que todos puderam observar e conhecer, mas não permitiram que déssemos informações sobre os três políticos mencionados.
Nesse fim de ano conseguimos passar juntos os três no mesmo lugar e fizemos atividades de integração, apesar das cercas de malha e de arame. Pudemos passar as festas do fim de ano juntos à maneira dos cativos. No mês de janeiro, devido a acidentes provocados ou devido ao mal-estar mental do cabo Peña comigo e outros, ele foi tirado do lugar comum e levado não sabemos para onde. Disseram que iam levá-lo para fazer um tratamento psiquiátrico, mas desde essa data não temos mais notícias dele, apesar das perguntas constantes para saber de sua situação.
Nesse mesmo mês chegaram ao local do cativeiro o Dr. Gechen e a senhora Gloria de Lozada. Passamos vários meses com eles, mas depois fomos separados. Em um local próximo ficamos 27 da força pública e Alan, e em outro lugar ficaram dez, porque ali ficaram as duas senhoras, o senador e parlamentar, e ali também vimos Ingrid, Clara, o senador Perez e os três norte-americanos. Vimos que Clara estava grávida e que poucos meses depois teve seu filho, a quem chamou Emmanuel, em condições subumanas na selva. Dias depois, em duas ou três oportunidades, alguns de nós pudemos pegar o bebê no colo porque o levaram para o lugar onde estávamos, porque homens especiais da força pública fizeram coisinhas para ele, roupinhas, sapatinhos, alguns brinquedinhos, bolsinhas e muitas outras coisinhas.
Então, à medida que ele crescia, o levavam para medi-lo e puderam fazer para ele roupas, sapatos e coisas diferentes. Nesse trabalho se destacaram por sua criatividade e engenhosidade: Buitrago, Durán, Duarte, Moreno, Bermeo, Salcedo, Donato e Beltrán, que possuem habilidades especiais para esses trabalhos. O que foi feito foi confeccionado com materiais reciclados que cada um tinha --ou seja, roupas de segunda mão e outros materiais que foram fornecidos.
Alan se destacou desde o primeiro momento conosco por sua colaboração, integração e conversas, devido às experiências vividas na Rússia, por suas viagens a dezenas de países, feitas com muitas dificuldades e limitações, por seu trabalho político no Meta. Ele tinha inúmeras histórias a contar e compartilhar. Por isso, sempre o ouvíamos quando ele relatava tantas experiências, dificuldades, problemas, incidentes que lhe aconteceram, enquanto esteve e durante as viagens, os tipos de trabalho que teve que fazer para poder viajar e conhecer o mundo, sem dinheiro mas com o desejo de seguir adiante. Uma das anedotas, acreditem se quiserem: Alan passou fome na Rússia. Os relatos extensos sobre essas situações eram assunto nosso noite e dia. Como Alan tinha estado recentemente nos Estados Unidos durante três meses estudando inglês, e com a ajuda de dois livrinhos de inglês que chegaram nas provas que Marlen trouxe e com o folheto que Johannita me enviou, começamos a assistir a uma espécie de aula, uma hora por dia, quando era possível e as condições eram favoráveis.
Éramos poucos, mas depois de alguns dias teve início uma longa travessia pela selva, devido aos problemas de ordem pública. Fomos novamente acorrentados e separados em grupos pequenos. Nas oportunidades, nos momentos de descanso, nos encontrávamos com alguns no caminho. Nesses caminhos, devido a problemas de saúde comuns, pude cumprimentar Ingrid, Clara, o doutor Pérez e os três norte-americanos.
À medida que se passavam os dias e a viagem era inclemente, a pé, alguns de nós fomos adoecendo. Foi o que aconteceu com Ingrid, Malagón, Guevara e eu. Nos carregaram em redes amarradas a um pau, fazendo as vezes de maca. Mas vou lhes contar o que aconteceu comigo. Começou com dores nas pernas, nos ossos e articulações por causa das caminhadas. Meus pés se inflamaram, e no início da doença eu caminhava com um pau que fazia as vezes de bengala. As marchas continuavam, e eu continuava piorando, mancava, depois tive que caminhar com a ajuda de dois forquilhos que faziam as vezes de muletas. Que viagens penosas, devido às dificuldades da selva, a chuva e os bichos, até que uma noite cheguei num local e no outro dia não consegui me levantar para andar. Mas como a marcha tinha que continuar, então me ou nos transportavam nas condições que mencionei anteriormente.
Então na doença eu pude cumprimentar e falar rapidamente com Ingrid, enquanto éramos carregados nas "macas". Assim foram se passando os dias até que um dia nos separaram a todos. Acabaram por formar vários grupos, e no nosso ficamos dez pessoas, o Dr. Gechem, a senhora Gloria, o Dr. Orlando Beltrán, Consuelo, Alan, Donato, Murillo, Clara, Delgado e eu. (Comecei esta carta ontem, mas a luz do sol acabou, então hoje pela manhã eu a comecei, mas está chovendo e não há luz forte do dia, então Deus permite que tudo melhore e que eu possa continuar este relato.)
O que me aconteceu? Acho que alguns vasos sanguíneos das pernas foram afetados, o sangue se espalhou pelas pernas e estas ficaram com uma cor escura, quase negra. Temi o pior, mas graças a Deus me aplicaram uma antitetânica, e dias depois me deram dez injeções de penicilina de 5 milhões de unidades, e pouco a pouco fui iniciando minha recuperação.
Como é lógico em função de minha doença, me tiraram a corrente com cadeado do pescoço, mas eram eles que tinham que carregar minhas coisas pessoais, e de um dia para outro elas desapareceram. Ou seja, fiquei sem nada exceto a roupa do corpo. Felizmente, no início da via crucis, Delgado se ofereceu a colaborar comigo, carregando o pacotinho onde guardo as fotos. Graças a Deus esse se salvou. Posteriormente me entregaram a blusa do conjunto de moletom que María A me mandou. Ainda o tenho e praticamente é meu pijama. Delgado colaborou dando-me duas cuecas, um lençol e uma toalha. Murillo me deu uma bermuda para dormir, Donato me emprestou uma calça, Consuelito, uma camiseta e a senhora Gloria, um par de meias. Com tudo isso, começou outra etapa nesse peregrinar. Dias depois trouxeram algumas roupas para todos, então pude devolver a camiseta e a calça emprestada e procurar ir vivendo dia a dia com essa roupa. Alan me deu papel higiênico de presente, Murillo me deu pasta de dentes em alguns dias, mas depois disso passei três semanas escovando os dentes apenas com água, porque não havia pasta. Os companheiros tinham pouca pasta, então eu tinha dó de pedir a eles. Quanto tempo durou a enfermidade? Não tenho claras quantas semanas foram, mas devem ter sido aproximadamente cinco semanas sem conseguir caminhar.
As viagens penosas em rede nos pontos de encontro de rios, terrenos difíceis, pântanos, etc.. Nos lugares onde me deixavam, chegavam bichos de diferentes tipos: moscas, mosquitos, mutucas, pernilongos, formigas de diversas cores e tamanhos, aranhas, abelhas de diferentes tipos, vespas de diferentes tamanhos que a gente espantava e espantava com a mão. Eu era obrigado a me arrastar na lama para fazer minhas necessidades, unicamente com a ajuda de meus braços porque não conseguia me levantar. Quando se iniciou o tratamento, também me fizeram massagens nas pernas com yoduro (iodo), desodorante em creme, e, como uma criança, comecei de novo desde o começo, tentando fazer "solos".
Depois consegui dar alguns passos com paus, ou melhor dizendo, forquilhas que pareciam muletas, de modo que pude ir ao banheiro sozinho. Depois disso consegui ir com um pau em estilo de bengala, e depois, sem ele, até que, aos poucos, consegui voltar a andar devagar. Graças a Deus estávamos perto de um riacho. Ali eu pude fazer terapia nas pernas com a água, fazendo exercícios como tentar mexer as pernas. Assim fui me recuperando pouco a pouco. Estando nessa limitação, ocorreu um incidente de mal-entendido no grupo. Então, por iniciativa de alguém, voltaram a me acorrentar pelo pescoço, com uma corrente amarrada a uma estaca, justamente quando estava começando a convalescença.
Penso que Deus é muito grande e que nesse momento você estavam rezando muito. Graças a suas orações e a não sei mais o quê, me recuperei parcialmente dessa enfermidade.
Naqueles dias ouvi por Carrilera uma mensagem de Carmenza em que ela disse que o "Notícias Uno" e o "El Tiempo" tinham informado de minha morte num bombardeio. Acredito que vocês oraram mais e que o resultado foi minha recuperação. Alguns dias depois, infelizmente, levei picadas no pênis e me saíram sete feridas no corpo. Ficaram algumas cicatrizes, me aplicaram 38 injeções de glucamtil nos dias seguintes e consegui me curar dessa outra doença parasitária.
Eu diria que minha saúde neste cativeiro durou seis anos. Desse momento em diante, os problemas em meu estado de saúde vêm se sucedendo. Nos meses seguintes foram outras caminhadas, desta vez não de semanas mas de dias, outros lugares onde vivemos, uma quantidade enorme de inconvenientes e incidentes entre nós, represálias da guerrilha, várias, nos limitando coisas, espaços, meios, etc.
É difícil dividir cada coisa que chega ou que nos entregam nesses meses. Duas vezes me deu malária, em uma delas durando 20 dias, durante os quais estive de cama. Tomei muita droga mas por fim me recuperei. Mas desse momento em diante, não sei se é por causa da droga ou do que, há mais de um ano e meio vem me dando uma dor no peito, no lado, ou não sei se é no coração. É uma fisgada que em alguns dias dói, em outros dias, menos. Nos primeiros meses desse mal, Donato e Murillo me fizeram ventosas com vela, moeda e frasco, mas a dor não passou. Depois o enfermeiro continuou dizendo que isso era causado pelo frio e os ventos. Por isso ele e Consuelo me fizeram tampões de ouvido com jornal e embalagens de papel higiênico, mas a dor volta.
Depois pedi cardioaspirina e tomei umas 20, mas, como a dor continuava, parei de tomá-las. Hoje em dia procuro controlar a dor com creme Voltarén, mas especialmente fazendo respirações e caminhando em volta de nosso local com Alan, às vezes 20, 30, 40, 50 minutos ou uma hora, segundo o clima e outros fatores.
Isso me vem fazendo bem, e agora o problema está sob controle. Mas, por causa de caminhar, os ossos, as articulações das pernas me doem, especialmente nos joelhos, então às vezes não ando e então a dor no peito retorna.
De um lado das costas tenho uma mancha roxa que às vezes me dói, acho que é a sequela de um golpe quando eu era carregado na rede.
Nos últimos quatro anos não temos tido livros para ler. Algumas vezes contadas, as revistas de "Semana" e "Cambio" que trouxeram, e que relemos.
O mais importante é o tempo que Alan, Donato, Murillo e eu temos passando estudando por uma hora. Às vezes, durante o dia, inglês; em outros dias não estamos com ânimo para isso, ou por outros fatores, como a chuva. Alan, Donato e eu passamos outra hora estudando russo. Alan é bom professor, e assim passamos algumas horas. Não obstante, pela idade, os neurônios perdidos em função das doenças do cativeiro, a falta de materiais de estudo (livros, cadernos, lápis, etc.), esse trabalho é dificultado, e aprender é difícil. Mas continuamos, mesmo assim. Fazer isso funciona como terapia e maneira de ocupar o tempo. Com isso, como diria José Luis, já aprendemos os verbos ser, estar e ter, não apenas em inglês mas também em russo. Nos esforçamos para aprender alguns verbos, conjugações, expressões e gramática em geral, inglesa e russa.
O resto do tempo passamos jogando cartas, Ludo e dominó. Quando surge a oportunidade, nós quatro jogamos com Consuelito. Ela com certeza, com tempo suficiente, vai lhes contar muitos detalhes de tudo o que temos passado nestes anos.
Recebam todos saudações de parte de Alan, Donato e Murillo.
Me despeço novamente desejando a todos feliz Natal e um 2008 cheio de sorte e felicidade. Que Deus os acompanhe, a Virgem os proteja e cuide. Também entre vocês todos, cuidem-se, ajudem uns aos outros, mais velhos e mais novos, etc. Os pais aos filhos, os filhos aos pais, os irmãos entre si, os sobrinhos entre si, a família entre si.
Deus e a Virgem os guiem.
Tradução de Clara Allain
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As Farc, são compostas por sequestradores e traficantes, que sequer são classificados assim pela imprensa marrom controlada pelos petralhas.
Esses bandidos, que tentam derrubar o governo democraticamente eleito da colombia, são inacreditavelmente tratados pelo governo brasileiro como "revolucionários"...
Então, sem dúvida as Farc tem muito para agradecer a alguns "brasileiros"...
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Inegavelmente o citado país não pode ser apontado como um exemplo de bem estar sócio-econômico e muito menos o regime político com que se possa sonhar quando se pensa em Democracia. Por outro lado, não se pode ignorar que seus Governantes conseguiram indiscutíveis avanços na área educacional, saneamento básico e medicina preventiva (não estou fazendo apologia de Cuba mas tão somente reconhecendo resultados que indicadores sócio-econômicos identificam). Basta comparar IDH, percentual de analfabetismo e IDH com outros países da África e América Latina, por exemplo, que possuem população e PIB semelhantes e em tese, constituem-se em regimes democráticos (há controvérsias) mas sem dúvida, e que optaram pelo Capitalismo.
Em suma, como frequentemente ocorre, na natureza e na Política a avaliação mais justa tende ao centro em detrimento de posições extremadas (demonizar ou insensar costuma induzir a equívocos de igual magnitude).
Não é demais reconhecer que mesmo a crítica das estratégias e políticas implantadas fica prejudicada na medida em que esse país foi sim muito prejudicado pelo embargo norte-americano (imagine o que seria da China - cujo regime até onde se sabe é tão ou mais totalitário quanto o cubano - não pudesse comercializar com o maior Mercado mundial...
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