Protestos no Quênia terminam com 24 mortos em três dias
da Folha Online
A oposição queniana, que rejeita a polêmica reeleição do presidente Mwai Kibaki, convocou nesta sexta-feira um boicote a empresas ligadas ao chefe de Estado, no terceiro dia de protestos que deixaram, desde quarta-feira, 24 mortos.
As vítimas dos últimos três dias se somam ao número de ao menos 700 mortos nos violentos combates que afetam o Quênia desde as eleições de 27 de dezembro, questionadas pela oposição e por observadores internacionais.
| Mike Hutchings/Reuters |
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| Membros das forças de segurança quenianas agridem manifestante |
Ao menos 250 mil pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas, incluindo cem mil crianças, segundo o Unicef (agência da ONU para crianças).
A nova onda de protestos convocada pelos partidários do líder da oposição, Raila Odinga, oficialmente segundo colocado na eleição, foi violentamente reprimida pela polícia, que considera as manifestações ilegais.
Os oficiais quenianos dispersaram com bombas de gás lacrimogêneo centenas de pessoas que se manifestavam em Kisumu (oeste). No resto do país a situação era de relativa calma à tarde.
Diante da violenta repressão, que impede as manifestações de fato, o Movimento Democrático Laranja (OMD), de Odinga, anunciou uma mudança de estratégia com o objetivo de debilitar o campo presidencial.
"Vimos muito sofrimento causado pelas ações irresponsáveis da polícia contra manifestantes pacíficos. Entramos agora em uma nova fase da luta, que incluirá um boicote econômico dos consumidores às grandes empresas pertencentes aos falcões próximos a Kibaki", disse à agência de notícias France Presse o porta-voz do OMD, Salim Lone.
O porta-voz citou em particular a empresa de laticínios Brookside Dairies, as companhias de transportes públicos City Hopper e Kenya Bus Service, assim como o banco Equity Bank.
"Deixemos o setor público à margem da política. Os quenianos têm o direito de escolher o que querem fazer. Aposto que (a nova estratégia) também fracassará", disse o porta-voz do governo, Alfred Mutua.
| Mike Hutchings /Reuters |
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| Manifestantes seguram pedras atrás de barricada de pneu incendiados |
"A violência tem irritado a comunidade internacional, a União Européia, os Estados Unidos e outros sócios que agora ameaçam cortar a ajuda e impor sanções", afirmou Mutua.
Segundo o porta-voz do OMD, os protestos demonstraram que o governo recorre a "táticas muito irresponsáveis" e que "tem medo" de que, sem elas, "centenas de milhares de quenianos saiam às ruas".
No plano político, o presidente reeleito nomeou nesta sexta-feira um "comitê político de alto nível para iniciar o diálogo e a reconciliação nacional", segundo um comunicado oficial.
Questionado se a oposição pretende se reunir com o comitê, integrado entre outros pelo vice-presidente Kalonzo Musyoka, seis ministros e o promotor-geral Amos Wako, o OMD afirmou que vai esperar um contato direto do governo antes de tomar uma decisão.
Odinga se reuniu nesta sexta-feira com dois mediadores africanos --Graça Machel, esposa do ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, e o ex-presidente tanzaniano Benjamin Mkapa.
Ambos integram a equipe de mediação do ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que adiou a viagem ao Quênia por causa de uma gripe.
Manipulação
Considerado até a eleição como uma ilha de estabilidade em uma região turbulenta, o Quênia atravessa uma grave crise política desde a reeleição de Kibaki.
Ainda nesta sexta, um relatório publicado por uma coalizão de organizações africanas afirma que os dirigentes da Comissão eleitoral do Quênia (ECK) manipularam os resultados em algumas circunscrições para garantir a reeleição do presidente Mwai Kibaki no dia 27 de dezembro.
O documento intitulado "Contagem regressiva para a fraude: as 30 horas que destruíram o Quênia", é baseado no depoimento hora por hora de quatro observadores eleitorais que assistiram na sede da Comissão, em Nairóbi, à última e crucial fase de contagem dos resultados do pleito, entre 29 de dezembro e 30 de dezembro.
No total oficial, 231.728 votos separam Kibaki e Raila Odinga --este último liderava a votação 24 horas antes do anúncio dos resultados oficiais pelo ECK na tarde de 30 de dezembro.
No relatório, a coalizão de organizações africanas diz que houve "anomalias, negligências e ilegalidades cometidas em pelo menos 49% das 220 circunscrições do país --percentual suficiente para modificar os resultados da eleição presidencial'.
Com France Presse
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