Mundo
27/01/2008 - 08h00

Certidão falsa e alemão evitaram envio de polonesa a campo de concentração

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FERNANDO SERPONE
da Folha Online

Em 2005, a Assembléia Geral das Nações Unidas instituiu o dia 27 de janeiro como o "Dia Internacional de Recordação das Vítimas do Holocausto". A data é uma homenagem simbólica aos seis milhões de judeus e a outras vítimas do nazismo.

O dia 27 de janeiro também corresponde à libertação do campo de concentração nazista de Auschwitz por tropas russas, que completa 63 anos neste domingo. Cerca de 2 milhões de pessoas morreram no local. Ben Abrahan, sobrevivente de Auschwitz, contou à Folha Online como foram os anos passados no gueto em em campos de concentração. Leia mais.

Nascida em Cracóvia (Polônia), Henrietta "Rita" Braun tinha nove anos quando a guerra começou. Quase 63 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Henrietta contou à Folha Online como certidões de nascimento falsas e a ajuda de um alemão evitaram que ela, sua mãe, padrasto e meia-irmã fossem enviados a campos de concentração.

1937 - Arquivo Pessoal
A polonesa radicada no Brasil Henrietta "Rita" Braun quando criança, em foto de 1937
A polonesa radicada no Brasil Henrietta "Rita" Braun quando criança, em foto de 1937

Ainda assim, a família passou três anos no gueto. "Eu vasculhava os lixos dos alemães, pegava os ossos que eram jogados aos cachorros, ou então, membrana de fígado, cozinhava grama", contou Henrietta sobre os tempos de fome no gueto isolado por cercas eletrificadas.

"Mamãe às vezes, muito raramente, conseguia trazer um pouquinho de leite, ou um ovo, escondido. Às vezes, conseguia um pedaço de um torrão de açúcar. Meu padrasto, quando um pão ficava chamuscado, me trazia, e assim fiquei --com anemia, com piolhos."

Mesmo após o fim da guerra, a perseguição continuou na Polônia, o que fez com que a família de Henrietta viesse ao Brasil.

Atualmente, a polonesa finaliza seu livro de memórias, iniciado a pedido dos filhos e netos. "Como eu sei que as palavras o vento leva e o que é escrito fica, essa é a minha missão. Todos que eram levados nos caminhões no gueto de Stanislavov gritavam 'conte o que nos aconteceu."

Em entrevista à Folha

Leia a seguir trechos da entrevista sobre a trajetória da enteada de um latifundiário perseguida durante e após os seis anos de guerra:

*

Folha - Como foi o início da guerra?

Henrietta Braun - Meu padrasto tinha uma grande fazenda, onde fui passar as férias. Estávamos nós, crianças, deitadas na grama, olhando as nuvens, e apareceram aviões que, naquela área, nunca haviam aparecido. Dois dias depois, veio um mensageiro dizendo que os russos haviam invadido aquele lado da Polônia, deportando para a Sibéria todos os latifundiários e saqueando tudo. Meu padrasto montou sete carroças com 14 cavalos, e fugimos da fazenda em direção a uma cidade chamada Stanislavov.

Mal chegamos, os russos confiscaram todos os cavalos, deixando apenas as carroças. Ficamos sob domínio russo durante um ano e pouco.

Folha - Durante esse um ano vocês ficaram, de alguma forma, detidos?

Henrietta - Não. Só tínhamos que aplaudir tudo o que diziam e a nós, crianças, que colocavam logo nos colégios pois investiam muito nas crianças, faziam uma lavagem cerebral.

Nos mandavam rezar para Deus, pedindo guloseimas e doces, não aparecia nada. Quando rezávamos para o general Stalin, abriam-se portas e os funcionários da escola traziam cestas com chocolates e tínhamos que, em coro, responder "Deus existe?" Não. "Quem é nosso Deus?" General Stalin.

Assim vivemos, muito policiados. Mas sem nenhuma conseqüência grave, a não ser que não aplaudíssemos tudo o que eles falavam, e aí então, se alguém era contra, era deportado para a Sibéria.

Folha - Isso foi de 1930 a 1940?

Henrietta - Por volta de 1941. Datas me fogem porque eu era criança, mas é mais ou menos isso. Quando os russos se retiraram, liberando a cidade para os nazistas, eles ofereceram vagões ao povo, para levar-nos, mas minha família não queria, pois eram todos eles muito primitivos.

O "concilio" da família decidiu esperar as eruditas e culturais tropas nazistas. Logo eles entraram, começaram a gritar nos alto-falantes quais eram as áreas proibidas para judeus e cachorros.

Em seguida foi construído um gueto. Pelos alto-falantes, mandaram em um certo dia, em uma certa hora, pontualmente como só eles podem ser, colocar todos os bens em frente às casas, como quadros, objetos de arte, cristais, jóias, peles. Enfim, tudo o que eles iam confiscar.

Folha - Na época, a sra. vivia com quem?

Henrietta - Com minha, mãe, meu padrasto e minha meia-irmã, em Stanislavov. Nós colocamos tudo isso (objetos de valor na rua), não demorou muito, mais alguns dias, nos avisaram que nós íamos ser colocados em um bairro feito especialmente para nós, e que nós estaríamos vivendo então entre os nossos --para levarmos só aquilo que podíamos carregar.

Pontualmente naquela hora estipulada, levaram-nos para o gueto eletrificado, com dois acessos --um para entrar, outro para sair, vigiado pelos ucranianos, que eram o segundo violino da orquestra de Hitler. Porque quando os nazistas não conseguiam reconhecer um judeu, o ucraniano ajudava. Por ser eslavo, ele conhecia melhor o tipo semita, diríamos.

Nos jogaram numa praça, selecionaram --os velhos eram imediatamente levados para bosques, mas nos disseram que para trabalho, só que não voltaram. As crianças eram separadas, na maioria, das mães. Em geral, as mães conseguiam esconder as crianças maiores atrás de si, e os homens vigorosos recebiam uma faixa com letra A, que quer dizer Arbeit, então podiam ainda servir aos alemães.

Assim eu permaneci no gueto durante quase três anos. Minha irmã trabalhava fora do gueto, como governanta na casa de um alemão civil, meu padrasto em uma padaria, e minha mãe, na seleção das roupas.

Folha - E cada um recebia um certo salário por esses trabalhos?

Henrietta - Nenhum salário, nada.

Folha - E como vocês faziam para se alimentar?

Henrietta - Mamãe tinha um pouco de dinheiro, comia fora (do gueto). Minha irmã comia na casa do alemão. Meu padrasto estava trabalhando na padaria, então tinha pão lá. E eu, vasculhava os lixos dos alemães, pegava os ossos que eram jogados aos cachorros, ou então, membrana de fígado, cozinhava grama.

Mamãe, muito raramente, conseguia trazer um pouquinho de leite, ou um ovo, escondido. Às vezes conseguia um pedaço de um torrão de açúcar, meu padrasto, quando um pão ficava chamuscado, ele me trazia, e assim fiquei --com anemia, com piolhos.

Tive tifo e escondia-me nos arbustos quando os dois alemães --Krieger e Strieg-- galopando, entravam no gueto. Eles matavam a esmo. Não precisava ser uma pessoa determinada. Basta ser um alvo móvel. Então, me escondia, até que a investida acabasse.

Assim passei quase três anos, até que minha mãe soube que haveria a liquidação do gueto [o que implicaria no envio a campos de concentração].

Arquivo Pessoal
Henrietta Braun,em foto de 1938; certidão falsa evitou envio a campo de concentração
Henrietta Braun,em foto de 1938; certidão falsa evitou envio a campo de concentração

Nesse ínterim, meus avós foram levados a um lugar que nunca soubemos aonde. Mamãe conseguiu de um padre --mediante jóias que ela tinha escondida dentro da manga de um casaco-- três certidões falsas de nascimento. Meu nome era Eva Rysiek.

Certidão polonesa católica. Em uma manhã chuvosa, saímos os três --eu escondida dentro de um sobretudo do meu padrasto, porque crianças não podiam sair do gueto, segurando ele pela cintura. Com a coluna dos judeus que saíam para o trabalho, saímos do gueto.

Começamos a viver na clandestinidade, indo de uma cidade a outra porque éramos reconhecidas. Não como judias, pois nosso tipo --olhos azuis e nariz arrebitado-- não denunciava. Meu padrasto sempre ficava escondido atrás do armário, ele não trafegava nas ruas. Minha família era conhecida de antes da guerra, nos denunciavam e nós éramos detidas, sujeitas a muitos interrogatórios.

Até nos tiraram amostras de sangue, para ver se era ariano ou semita. Esperamos por três dias o resultado. Felizmente, não existe tipo de sangue de determinada raça. Mas eu, criança, estava tremendo de medo que fossem dizer que éramos semitas. No fim, veio um relatório que somos arianas, portanto --me lembro da voz de mamãe, que leu-- portanto dignas de conviver com a pura raça alemã.

Folha - A sra. disse que seu padrasto não podia ser visto. E como vocês faziam para se deslocar de um local a outro?

Henrietta - A incumbência do alemão para o qual minha irmã trabalhava era ser diretor de várias filiais de ferro-velho onde judeus traziam trilhos, conteiners, enfim, tudo o que era de ferro e que era mandado à Alemanha.

Quando em uma cidade nos descubriam, esse alemão transferia meu padrasto junto com ele, no vagão dos alemães, com uma suástica na lapela, chapeuzinho tirolês e um jornal alemão cobrindo o rosto, fingindo que estava dormindo. E assim ele o trazia para nós de cidade em cidade.

Ele era o Schindler [alemão que salvou cerca de 1.100 judeus durante a Segunda Guerra] em nossas vidas, naturalmente em uma escala menor.

Folha - Naquele tempo, dava para freqüentar a escola?

Henrietta - Nada. Só igreja, se confessando e comungando. Senão os vizinhos podiam perceber que alguma coisa não estava certa, que talvez eu fosse judia já que não freqüentava a igreja. Porque na Polônia predominava a religião católica.

Folha - Em cada cidade, vocês moravam onde?

Henrietta - De Stanislavov, fugindo do gueto, fomos a Stryi, e depois, até o fim da guerra, ficamos em Borislav. Como em todas essas cidades havia filiais de ferro-velho, o alemão, sr. Herbert Szpitta, colocou o irmão da mamãe como dirigente polonês, também com papéis falsos. Mamãe era a secretária dele. Meu padrasto atrás do armário, e eu em casa, esperando mamãe voltar.

Folha - Nesse tempo, onde estava seu pai?

Henrietta - Meus pais se separaram em 1938. Ele morava em outra cidade, vinha me visitar nas férias. Nas últimas, quando ele queria me apresentar à sua nova família, pois se casou e tinha um filhinho, veio me buscar. Então fui com ele, mas as tropas alemãs entraram primeiro lá, e eu não pude mais voltar.

E começou a mesma história, os carros paravam em frente aos prédios, tiravam os judeus e os jogavam dentro dos caminhões.

Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Henrietta "Rita" Braun, em foto de 1995, durante exposição de seus documentos
Henrietta "Rita" Braun, em foto de 1995, durante exposição de seus documentos

Muitas vezes meu pai se escondia no bagageiro do armário, mas uma vez tivemos de ir. Me vi carregando uma pequena sacola, descendo correndo as escadas, e um caminhão esperando e o diabo dos alemães esperando com cachorros que, com a simples palavra "juden", mordiam os judeus.

"Rápido, rápido, judeus". Meu pai colocou a esposa e o filhinho no caminhão e quando se abaixou para me colocar também, aproximou-se um senhor polonês e apresentou carta escrita pela mamãe, onde ela pedia que me entregasse a esse homem, que me levaria junto a ela.

Nesse momento, entre gritos e latidos, inclusive tiros, meu pai se abaixou e disse: "querida, você vai ter que escolher porque a vida é sua, papai não pode opinar por você --a gente não sabe quem vai sobreviver, e se vai sobreviver. A mamãe mandou este homem, lá (em Stanislavov) o gueto ainda não está pronto, aqui já estamos indo. Independente da sua decisão papai não vai ficar chateado."

Esse momento eu jamais vou esquecer. Jamais. Uma menina de dez anos para onze, ter de escolher entre pai e mãe, com medo desses cachorros, não querendo magoá-lo, mas querendo ir para a mãe --não tive tempo para raciocínio.

Então eu disse, "papai, se você não se zangar, eu quero ir para a mamãe". Então papai pediu para se encontrar comigo com mais calma em uma pousada onde o senhor polonês esperava o trem do dia seguinte. Papai subiu no caminhão e foi embora.

Os alemães gritando o que era aquilo, e o senhor disse que eu era sua sobrinha, que por engano estava indo com os judeus para o gueto. Fomos a essa pousada. De noite, eu vi meu pai vindo, escondendo nos muros dos edifícios a tarja com a estrela de David [que os judeus eram obrigados a usar], que eu tenho a minha guardada até hoje.

Nos abraçamos, ele pendurou um saquinho com moedas no meu pescoço e disse: "querida, se esse senhor te recusar durante um bombardeio dos trens, ou qualquer coisa, aqui você tem para comprar.

Nos abraçamos e nos prometemos que depois da guerra iríamos nos rever. Foi a última vez que eu o vi.

Folha - Em Borislav, o que aconteceu?

Henrietta - Depois os russos entraram lá novamente. Os alemães se retiraram, perderam aquela parte da Polônia e, depois de certo tempo, cada um voltou à sua cidade de origem. Nós voltamos a Catovice.

Folha - Por volta de que ano?

Henrietta - De 1945 para 1946. Voltei, mas com nome falso pois ainda havia anti-semitismo. Meu tio, irmão da minha mãe, me preparou em poucos meses para eu fazer os exames para o ginásio.

Entrei no ginásio com o nome falso, aí as portas se abriram porque, enquanto judia, antes da guerra, eu não podia ser escoteira. Quando falei no rádio, parabenizando o presidente, não podia dizer meu sobrenome, que não era tipicamente polonês.

Só que meu tio, que resolveu voltar ao nome antigo pois era um advogado renomado, foi morto depois da guerra, fuzilado pelo AK.

Armia Krajowa [em polonês, Exército Nacional], um grupo paramilitar polonês que dizia que o que Hitler não terminou, eles iam concluir. Eles matavam em média uma pessoa da inteligência judaica por mês.

Folha - Aí a sra. fez o ginásio...

Henrietta - Terminei e vim ao Brasil, aconselhada pelos amigos advogados do fórum, que nos aconselharam a fugir senão poderíamos também ser mortos, principalmente porque minha mãe instituiu uma quantia para acharem o assassino (do irmão).

Por volta de 1946, 1947, chegamos em Santos e viemos a São Paulo. Em Santos esperava um dos irmãos da mamãe, o único que se salvou, porque veio em 1939 visitar o Brasil e aqui ficou.

Folha - Quando vocês chegaram, ainda possuíam alguns bens?

Henrietta - Não, não possuíamos nada. No navio, conhecemos um polonês que era técnico de chocolates. Abrimos uma fabriqueta de chocolates. Mas não deu certo porque na Polônia não precisava de conservantes e aqui os chocolates emboloravam e jogávamos quilos e quilos fora.

Mamãe enviuvou logo em seguida porque uma vez meu padrasto foi pego na rua pelos alemães e apanhou tanto que morreu um ano depois de chegamos.

Do lado do crânio onde bateram ele teve um derrame.

Folha - A sra. sabe o que aconteceu com o seu pai?

Henrietta - Um sobrevivente contou que ele contraiu tifo em um campo de concentração. Para não contaminar os outros e não desperdiçar balas, ele foi jogado contra a cerca eletrificada.

A esposa dele morreu no gueto e o filho, também como todas as crianças, para poupar as balas, eram colocadas em sacos e jogadas em valas e cobertas com terra. Em Stanislavov eu vi isso, a terra se mexia e se ouvia gemidos.

Depois da guerra, a gente costumava ir ver cartazes grudados nos muros dos edifícios que diziam "eu sobrevivi", e as informações da pessoa. E eu ia diariamente durante um mês procurando nome do meu pai e não achei.

Folha - Agora a sra. resolveu escrever um livro?

Henrietta - Sim, diante dos pedidos dos meus filhos e netos. Como eu sei que as palavras o vento leva e o que é escrito fica, essa é a minha missão. Todos que eram levados nos caminhões no gueto de Stanislavov gritavam "conte o que nos aconteceu".

Antes da guerra, na escola, já tive sinais de preconceito. Meu avô tinha fábrica de sapatos e tinha gente que dizia para não comprar na loja dele, pois era judeu, mas achávamos que eram apenas baderneiros. Então, quando a gente vê uma fagulha, tem que esmagar, mesmo se for uma bituca de cigarro, antes de se tornar um incêndio incontrolável.

 

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