Mundo
05/02/2008 - 06h01

Bush deixará legado de recessão para próximo presidente dos EUA

VINICIUS ALBUQUERQUE
da Folha Online

"It's the economy, stupid!" ("É a economia, estúpido!"). A frase, cunhada pelo marqueteiro James Carville, foi usada como slogan na campanha presidencial de 1992 de Bill Clinton, que disputava a Presidência dos EUA com o então presidente e candidato à reeleição, também um Bush (George H. W., pai do atual presidente), que à época enfrentava desafios econômicos difíceis.

O slogan, se fosse aplicado à corrida presidencial deste ano nos EUA, encontraria ao menos dois elementos semelhantes aos da época em que foi criado: um outro Bush está na presidência --George W (que foi reeleito, ao contrário do pai)-- e a recessão está na pauta do dia --embora o país ainda não esteja oficialmente nela.

Em 1990, quando era presidente o primeiro Bush, o Federal Reserve (Fed, o BC americano) destacava em sua reunião de dezembro daquele ano que, frente ao cenário econômico da época, uma "recessão curta e relativamente suave" era uma expectativa "razoável"; ao mesmo tempo, o Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto, na sigla em inglês, equivalente ao Comitê de Política Monetária do BC brasileiro) reconhecia, no entanto, "os riscos de uma contração prolongada e mais grave na atividade econômica".

Pouco mais de 17 anos depois, o Fed, após ter cortado sua taxa de juros duas vezes no mês passado, em um total de 1,25 ponto percentual, para 3% ao ano, disse que tais cortes (e os que já tinham sido feitos em setembro, outubro e dezembro do ano passado) "devem ajudar a promover um crescimento moderado e a diminuir os riscos à atividade econômica".

A atividade econômica nos EUA corre, na verdade, um risco principal: de uma queda no consumo dos norte-americanos. Uma vez que 70% de toda a atividade econômica do país é movimentada pelas compras dos cidadãos (seja de bens como roupas e aparelhos eletrônicos, seja de bens de alto valor, como residências e automóveis), uma retração nos gastos pode se tornar o elemento que levará à temida "R-word" (que é como o mercado se refere à recessão).

Para que os americanos não fechem suas carteiras, o Fed vem fazendo o que pode: cortando seus juros. Taxas mais baixas barateiam os empréstimos e financiamentos bancários; com isso, os consumidores buscam mais dinheiro nos bancos, gastam e fazem a economia girar. As empresas, ao mesmo tempo, investem em produção, apostando na disposição dos consumidores para gastar. Dessa forma, a atividade econômica volta aos trilhos e o país evita a recessão.

Mercado imobiliário

Mas se a fórmula fosse simples assim, seria fácil. Os EUA, no entanto, estão em meio a uma crise no mercado imobiliário.

Durante a recessão enfrentada no início da atual década, o Fed agiu com cortes de juros; de 6,5% em dezembro de 2000, a taxa chegou a 1% ao ano em junho de 2003, nível visto pela última vez apenas no fim dos anos 50. O país havia passado pela bolha das empresas "pontocom" e logo viriam os escândalos corporativos na Enron (que foi assunto de um filme bastante didático, "Enron - Os Mais Espertos da Sala") e na WorldCom.

Com os juros baixos e a ressaca das "pontocom", os americanos logo deixaram de lado a falta de confiança na economia e passaram a procurar em que gastar --e o mercado imobiliário mostrou-se atraente. Comprar uma casa (ou mais de uma) tornou-se um bom negócio, na expectativa de que a valorização dos imóveis fizesse da nova compra um investimento. Também cresceu a procura por novas hipotecas, a fim de usar o dinheiro do financiamento para quitar dívidas e, também, gastar (mais).

O mercado imobiliário, assim, viu um período de preços em alta e demanda crescente, em um ciclo que se autoalimentava.

Já em 2005, no entanto, os primeiros sinais de problemas surgiram. No dia 27 de agosto daquele ano, o presidente do Fed à época, Alan Greenspan (que já estava no cargo quando o primeiro Bush ocupava a Casa Branca), fez sua advertência. Ele disse que o boom do setor imobiliário americano iria acabar, "inevitavelmente". "Nesse processo, o ritmo de venda de residências vai cair de seus níveis historicamente elevados", disse então Greenspan.

Profecia ou não, o fato é que 2007 fechou com uma queda de 26,4% nas vendas de imóveis residenciais novos no país --o pior resultado desde a queda de 23,1% registrada em 1980. Já as vendas de casas usadas caíram 12,8%, pior resultado desde 1982, quando a queda foi de 17,7%.

Inflação e "subprime"

Com o mercado imobiliário aquecido, a inflação despontou --e o Fed teve de lidar com ela. Em 2003, a inflação foi de 1,9%, mas em 2004 subiu para 3,3% e, em 2005, chegou a 3,4%. Os juros do Fed, que em 2003 chegaram a 1%, passaram a subir em junho de 2004 --chegando gradualmente a 5,25% em junho de 2006. A alta de 4,25 pontos percentuais teve reflexo nos financiamentos bancários --incluindo os dos setor imobiliário, agora sobrevalorizado pela atividade frenética nos anos anteriores.

As taxas de juros em algumas modalidades de hipotecas passaram a ser reajustadas, o que afetou em particular o segmento conhecido como "subprime" (que reúne clientes com histórico de inadimplência ou com dificuldades para oferecer garantias). As correções acabaram por fazer crescer a inadimplência nesse segmento do mercado.

No ano passado, a inadimplência estava subindo a níveis críticos --mas para o atual presidente do Fed, Ben Bernanke, em março a situação ainda não era motivo para sustos : "O impacto sobre a economia como um todo e sobre os mercados financeiros dos problemas nos mercados 'subprime' provavelmente serão moderados", disse --acrescentando, no entanto, que o caso devia ser acompanhado com atenção.

Em agosto, no entanto, o sinal amarelo mudou para vermelho: o banco francês BNP Paribas suspendeu os resgates em fundos que tinham em suas carteiras papéis lastreados nas hipotecas "subprime". Papéis com esse lastro começaram a perder valor --uma vez que o medo de as hipotecas de risco não serem pagas cresceu, afetando os mercados mundiais.

Bolsa e bancos

A Bolsa de Valores de Nova York, que em julho havia batido o recorde de 14 mil pontos, logo passou a cair, voltando para o território dos 12 mil. A taxa de juros para empréstimos entre bancos começou a subir, com o medo de emprestar para instituições que, com suas reservas de capital atingidas pelos papéis "subprime", não tivessem como pagar depois. O cenário da crise financeira atual estava em formação.

O que veio a seguir foi uma série de medidas do Fed, como cortar sua taxa de redesconto (usada para conceder empréstimos de curto prazo a instituições com escassez temporária de liquidez) e injeções de recursos no sistema bancário.

Grandes bancos, tanto americanos como europeus, como Citigroup, Merrill Lynch e UBS, perderam bilhões em valor de seus papéis ligados às hipotecas "subprime" --ainda não há uma estimativa precisa de quanto mais os bancos podem perder com esses papéis.

Confiança e empregos

A crise imobiliária, por sua vez, continuou a produzir efeitos: a incerteza quanto aos desdobramentos da crise já provocou queda na confiança dos americanos quanto à economia --no mês passado, pesquisa da revista americana "Fortune" mostrou que um em cada quatro dos 1.000 entrevistados afirmou estar "muito preocupado" com a possibilidade de perder o emprego nos próximos 12 meses.

O temor não é infundado: a desaceleração da economia causada pela crise fez com que fossem fechadas 17 mil vagas no mercado de trabalho no mês passado. A taxa de desemprego recuou --mas não chegou a dar motivo para comemoração: passou de 5% em dezembro para 4,9% em janeiro.

A queda na atividade de construção residencial afetou a expansão do PIB no quarto trimestre do ano passado, que cresceu apenas 0,6%. O indicador do PIB referente aos investimentos fixos no setor residencial caiu 24% no período (maior desde o quarto trimestre de 1981, quando houve retração de 35%), o que custou ao PIB 1,18 ponto percentual.

Pacote

O governo vem agindo para evitar a recessão. O presidente George W. Bush obteve na Casa dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados) aprovação para um pacote de alívio fiscal, estimado em US$ 146 bilhões (ou cerca de 1% do PIB americano), a fim de estimular o consumo no país.

Bush, no entanto, pode não ter tempo para ver a aprovação do pacote no Senado, segundo artigo do "The New York Times" --tanto porque o Senado tem uma agenda diferente, com uma proposta própria de pacote, como porque lhe resta pouco tempo de mandato.

Embora Bush não possa ser culpado pela atual crise, o custo político deve recair sobre ele, segundo um outro artigo do mesmo jornal. Pelo menos no que diz respeito à economia, o próximo presidente americano já tem a agenda cheia o esperando pela frente.

Comentários dos leitores
Eduardo Velasco (155) 06/09/2008 09h37
Eduardo Velasco (155) 06/09/2008 09h37
Não estou nem aí se o Luiz entende ou diferencia uma coisa da outra. Mas a resposta do outro realmente aponta para uma tremenda falta de lógica argumentativa.
Vejam, a premissa foi: Autodeterminação dos povos [que o Luiz não tratou do assunto, mas que o missivista rapidinho resolver ler "dentro" do texto do outro. Realmente está na CF/88: Art. 4º, III, CF/88 a tal da 'autodeterminação', mas não passa de zurrada constitucional eqüina].
Depois, uma outra premissa menor que não guarda nenhuma relação com a maior [anterior], e a conclusão ilógica [espúria]: "Por isso os Republicanos...".
Assim fica fácil: eu junto abóbora com melancia e digo que as duas são a mesma coisa porque o colorido interno de ambas são semelhantes!
Tertulia Flacida ad Bovinum Adormentare
(conversa pra boi dormir!)
Eduardo Velasco
Natal/RN
sem opinião
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Luiz Castro (17) 05/09/2008 23h04
Luiz Castro (17) 05/09/2008 23h04
Se por um lado úma vitória republicana trás tudo que estamos vendo com Bush e mais um pouco, uma vitória democrata não é sinal de que a vida vai ser melhor abaixo do rio grande. Se vão acabar com a guerra, também vão aumentar o protecionísmo com relação ao comércio, ou seja, querem vender tudo pra todo mundo mas não querem comprar nada, e quem for competitivo como os brasileiros produtores de camarão que aguardem mais subsídios para os produtores americanos. Os filhos de tio sam dão muito valor a quem não se curva a eles, que os enfrenta, quem não abaixa a cabeça. Convivendo nesse país por alguns anos vejo como eles agem. Hoje em dia a moda é se ter um filho adotado no Vietnan, se casar com orientais, principalmente mulheres oriundas dessas regiões onde os americanos foram postos pra correr. Nesse momento os soldados se envolvem com as iraquianas, trazem para a américa e muitos se convertem ao islamismo. Se é dor na conciência não sabemos, mas com certeza em alguns anos a integração entre estes países será muito maior que com os latinos, que dizem amém a tudo vindo do norte. A nossa região com todo seu potêncial energético e riquezas de toda ordem tem nas mãos a chave para abrir o caminho do progresso, o que precisamos é levantar a cabeça e olhar o primeiro mundo nos olhos, sem medo e dispostos a morrer por nosso país. A força americana reside no prazer de servir à pátria, mesmo que por causas injustas como o Iraque. Nosso chão merece esse sacrifício. sem opinião
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Leon Diniz Diniz (17) 05/09/2008 17h28
Leon Diniz Diniz (17) 05/09/2008 17h28
Quero congratular-me com LUIZ CASTRO E CÉLIO RODRIGUES, pela importância dos seus texto nesta tribuna. Agradeço também a IGMAR TRINDADE pela oportunidade que dá à estudiosos como eu de buscar um pouco mais de conhecimento. Igmar aproveitei a sugestão que fez a outra pessoa nesta tribuna para que entrasse no GOOGLE ZEITGEIST Também entrei, confesso que fiquei impressionado com as informações alí contidas. Obrigado de coração pela oportunidade.
Sr. Mac Cain copiar não é feio desde que se de o crédito a fonte. Mundança, até onde sei é mote de campanha do Senador Obama. O lema "ir para Wasghiton para refomar o país" também é de Obama. Por favor ponha a criatividade para funcionar e traga algo novo para deleite dos seus apoiadores. A América já teve um filho imitando o pai na presidência, e olha no que deu: A nação além de cair no atoleiro econômico, tem hoje boa parte do mundo odiando os EUA e sua máquina de fabricar guerras.
Enquanto Obama elogia o passado de Mac Cain. o general agride Obama com palavras impróprias e ao mesmo tempo tenta copia-lo sonhando alcançar a popularidade do Senador democrata. É por isso que o povo americano está mais simpático ao democrata que é original, do que à qualquer genérico de ocasião.
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