Paquistaneses vão às urnas amanhã sob temor de fraudes
IGOR G. BARBERO
da Efe, em Islamabad
Após uma campanha marcada pela violência, os paquistaneses irão na segunda-feira às urnas em uma eleição crucial cuja transparência foi questionada pela oposição, que ameaça com protestos se o regime de Pervez Musharraf cometer uma fraude.
Uma missão de observadores europeus liderada pelo alemão Michael Gahler vigiará o processo através de centenas de analistas deslocados em diferentes colégios eleitorais de todo o país, exceto aqueles considerados mais perigosos --em torno de 14%--, nos quais o Exército desdobrou seus soldados.
Em entrevista à agência de notícias Efe, Gahler admitiu que há lacunas no processo eleitoral, em particular na transferência e na consolidação das atas de apuração, que podem despertar a suspeita de fraude denunciada pela oposição.
"O momento realmente sensível será o da apuração, porque alguns passos considerados pertinentes estão sob suspeita", afirmou o chefe da equipe européia, a principal missão de observadores estrangeiros neste pleito.
A apuração dos votos nos 64 mil colégios eleitorais será presenciada por interventores dos partidos e recolhida em uma ata que se tornará pública e será levada pessoalmente pelo presidente do colégio ao juiz eleitoral encarregado de cada circunscrição.
O juiz será o responsável por consolidar os resultados de cada circunscrição --que tem, em média, 200 colégios-- e por enviá-los à Comissão Eleitoral, mas esta ata não será divulgada.
Gahler explicou que, para "prevenir dúvidas, alegações e suspeitas", seria necessário que esse documento fosse publicado.
Os candidatos insatisfeitos poderão alegar tanto que as atas foram "interceptadas e alteradas" em seu transporte até o juiz como "manipuladas" no momento de sua consolidação pelos encarregados da circunscrição.
"A transparência em todos os níveis da apuração é essencial. Se há o desejo de evitar dúvidas, a ata de cada circunscrição deve ser publicada, mas até agora não foi assegurado que será assim", explicou Gahler.
Outra irregularidade já detectada por especialistas em processos eleitorais tem a ver com a atualização do censo desde o pleito anterior, realizado em 2002.
Segundo um observador que pediu anonimato à Efe, calcula-se que faltam entre 15 e 20 milhões de pessoas no censo, no qual estão registrados 81,03 milhões de eleitores em um país com uma população de cerca de 165 milhões.
"Dentro do censo eleitoral existem repetições de nomes e números de identidade", disse a fonte, acrescentando que amanhã os observadores terão que analisar quantas pessoas irão votar, uma tarefa difícil.
Os analistas, apoiados por milhares de observadores de ONGs nacionais, também ficarão atentos ao entorno dos colégios para detectar possíveis induções ao voto, em um país onde é habitual que o candidato consiga apoio em sua circunscrição e organize a ida de eleitores aos colégios.
Os temores de fraude expressados pelos dois principais grupos da oposição - o Partido Popular do Paquistão, liderado por Asif Zardari, marido da ex-premier assassinada Benazir Bhutto, e a Liga Muçulmana do Paquistão-N (PML-N), de Nawaz Sharif - se somaram esta semana a uma denúncia da organização Human Rights Watch (HRW).
A HRW divulgou uma gravação na qual uma voz atribuída ao procurador-geral paquistanês Malik Qayyum afirmava que o regime preparava uma "fraude maciça" para que a oficial Liga Muçulmana do Paquistão-Q (PML-Q) ganhe o pleito. A denúncia é negada por Qayyum.
"É um fato incontestável, uma prova clara muito interessante", disse Gahler.
Qayyum anunciou em entrevista coletiva que se a HRW não se desculpar publicamente em um mês processará a organização no Paquistão e pedirá cerca de 3,3 milhões de euros de indenização e três anos de prisão para os envolvidos.
Em outra entrevista coletiva, o ministro da Informação, Nisar Memon, disse que os preparativos para eleições livres e transparentes já estão completos e encorajou o eleitorado a comparecer às urnas e "desempenhar seu papel no fortalecimento do Paquistão".
Nesse mesmo sentido se expressou o secretário da Comissão Eleitoral, Kanwar Dilshad, cuja neutralidade foi seriamente questionada pela oposição.
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