Mundo
20/02/2008 - 18h20

Renúncia de Fidel é início da era raulista em Cuba, diz analista

FERNANDO SERPONE
da Folha Online

A renúncia do ditador Fidel Castro, 81 --anunciada na última terça-feira (19) após 49 anos à frente do poder em Cuba-- significa o fim da era fidelista e o início da era raulista na ilha caribenha, na opinião de Jaime Suchlicki, diretor do Instituto para Estudos Cubanos e Cubano-americanos e do jornal "Cuban Affairs".

"Fidel está em decadência, está muito doente e não está bem mentalmente. A era fidelista acabou, e estamos entrando na era raulista", disse Suchlicki nesta quarta-feira com exclusividade à Folha Online.

Claudia Daut/Reuters
O ditador cubano Fidel Castro renunciou ao cargo após 49 anos à frente do poder
O ditador cubano Fidel Castro renunciou ao cargo após 49 anos à frente do poder; para analista, sua saída é início da era raulista

"Não creio que a história o absolverá, creio que a história o condenará. Ele será visto como um ditador que destruiu a sociedade cubana, dividiu as famílias e criou um país pobre. Algumas pessoas dirão que ele desafiou os EUA, e que apoiou o terrorismo internacional, e que apoiou revoluções em Angola e na América Latina", afirmou o analista.

Para o estudioso, Cuba continuará sob uma ditadura militar enquanto Raúl Castro --o irmão mais novo de Fidel-- estiver no comando do Exército. Nascido em Cuba, Suchlicki esteve no exílio durante a ditadura de Fulgêncio Batista, deposto por Fidel. Em 1959, o filho de um russo e de uma argentina voltou a Cuba, onde trabalhou no Ministério do Trabalho.

"Não gostei da influência comunista e da repressão, e decidir sair", diz ele.

Na entrevista, ele diz que o atual vice-presidente Carlos Lage deve ocupar a Presidência cubana. "Raúl não gosta de eventos e reuniões com diplomatas, [a Presidência] é um trabalho mais diplomático. O presidente não tem poder real, em Cuba o poder está com os militares", explica.

Segundo Suchlicki, a ilha não deverá sofrer grandes mudanças com a saída de Fidel, e a América Latina deveriam pressionar Cuba por democracia, como fizeram durante as ditaduras militares no Brasil e no Chile. "Já é tempo de perceber que o comunismo não tem nada de romântico", afirma.

Leia a íntegra da entrevista concedida à Folha Online:

*

Folha Online - Quais mudanças devem ocorrer em Cuba com a renúncia de Fidel?

Jaime Suchlicki - Haverá uma reunião da Assembléia do Poder Popular no domingo (24), que elege o presidente da Assembléia. O presidente é Ricardo Alarcón, mas provavelmente irão eleger outra pessoa. A Assembléia seleciona um grupo chamado Conselho de Estado. O Conselho tem 31 membros e escolhe o presidente de Cuba. Acredito que Carlos Lage será o próximo presidente, e que Raúl continuará nos bastidores, controlando o Exército, a segurança e o Partido Comunista.

Folha Online - Por que o sr. crê que Lage será o presidente, e não Raúl?

Suchlicki - Raúl não gosta dos eventos, de reuniões com diplomatas, ele não é esse tipo de pessoa. Esse é um trabalho [a Presidência] que é mais diplomático que qualquer outra coisa, que não tem nenhum poder real. O poder real em Cuba está com os militares. Esse é um regime militar, não um regime civil. Pode ter aparência civil, mas são os militares que comandam o país.

Javier Galeano/AP
Raúl Castro, irmão de Fidel, deve seguir no comando do país através do Exército
Raúl Castro, irmão de Fidel, deve seguir no comando do país através do Exército

Folha Online - Então o sr. Lage tem mais a ver com o cargo...

Suchlicki - Sim. Ele será uma figura simbólica, sem poder real.

Folha Online - Fidel deve continuar a influenciar a política de Cuba?

Suchlicki - Não. Fidel está em decadência, muito doente, não está bem mentalmente. A era fidelista acabou, e estamos entrando na era raulista.

Folha Online - Mas ele continuará sendo um membro da Assembléia, não?

Suchlicki - Ele é, mas não participou de nenhuma sessão, nem participará. Ele pode escrever mais algumas "reflexões", mais alguns artigos, mas ele não é mais o poder.

Folha Online - O sr. crê que haverá grande mudanças no âmbito econômico?

Suchlicki - Haverá algumas mudanças na economia, provavelmente na agricultura, permitindo aos cubanos produzirem mais, talvez dando um pouco mais de terras --esse tipo de coisa, mas não haverá grandes mudanças, os chineses não irão moldar Cuba, não creio que isso irá ocorrer.

Folha Online - Haverá alguma mudança imediata para a população cubana?

26.jan.2008 - Gregorio Marrero/AP
O atual vice-presidente de Cuba, Carlos Lage, que deve suceder Fidel na Presidência
O atual vice-presidente de Cuba, Carlos Lage, que deve suceder Fidel na Presidência

Suchlicki - Pequenas mudanças, apenas. Raúl tem comprado comida de outros países --dos EUA, Vietnã, Brasil. Então haverá mais comida. Ele está importando bens de consumo da China. Então haverá mais sapatos, camisas. E as pessoas dirão "as coisas estão melhorando".

Folha Online - Quem deve ser o vice-presidente?

Suchlicki - Sua dúvida é tão boa quanto a minha, não sei.

Folha Online - Qual é o papel do atual vice-presidente, Carlos Lage?

Suchlicki - Lage é um médico pediatra, mais novo que Raúl, que está na casa dos 50. Apoiador de Fidel e Raúl, ele faz o que eles mandam. Ele não é uma pessoa independente.

Folha Online - Qual é a repercussão da renúncia de Fidel nos EUA?

Suchlicki - Creio que isso era esperado. Há 18, 19 meses ele estava fora do poder, todas as vezes que ele aparece na TV são imagens gravadas e ele não parecia bem. Então percebemos que seu tempo estava chegando ao fim. Todos estavam esperando o que Raúl iria fazer, se a comunidade internacional irá apoiar uma ditadura militar em Cuba, ou se iriam pressionar Raúl por mudanças. Então todos gostariam de ver uma mudança em Cuba, não uma sucessão de Fidel para um regime militar.

Folha Online - Normalmente ditadores só saem do poder ao morrer. A renúncia de Fidel pode ser considerada uma jogada inteligente?

Suchlicki - Ele não está morto, mas está morrendo. Fidel quer ver uma sucessão suave, uma transferência de poder suave para o seu irmão. Então ele quer ter certeza que seu irmão segue no poder e que isso (o regime) não desmorona. E a sua saída permite uma transição suave.

Folha Online - Após a morte de Fidel, há a expectativa de algum tipo de intervenção internacional em Cuba, ou será o mesmo que agora?

Suchlicki - Será o mesmo. Durante o ano após sua morte haverá um culto à personalidade, todos dizendo o quão magnífico Fidel era, todos recitando discursos de Fidel, esse tipo de coisa. Mas mudanças serão muito lentas e difíceis em Cuba.

Folha Online - Em 1953, Fidel afirmou: "A história me absolverá"...

Suchlicki - Não creio que a história o absolverá, creio que a história o condenará. Creio que ele será visto como um ditador que destruiu a sociedade cubana, dividiu as famílias cubanas, criou um país pobre. Algumas pessoas dirão que ele desafiou os EUA, e que apoiou o terrorismo internacional, e que apoiou revoluções em Angola e na América Latina. Se você considera isso positivo, é positivo. Se você considera o papel de um pequeno país na África e na América Latina negativo, então é negativo.

Folha Online - Há lideranças entre os mais jovens do Partido Comunista?

Suchlicki - Com certeza. A questão é que eles não são organizados, são supervisionados e não tem nenhum controle, nenhum poder. Em dez anos, estas pessoas (no poder) estarão mortas, e com certeza haverá pessoas novas.

Folha Online - Em dez anos, Cuba estará do mesmo jeito que hoje?

Suchlicki - Mudará muito pouco. Se o mundo não pressionar Raúl, haverá uma ditadura militar.

Folha Online - A CNN afirmou que a CIA tentou matar Fidel mais de 600 vezes.

Suchlicki - Não sei se é verdade. No início, nos anos 60, houve tentativas para matá-lo.

Folha Online - Algum comentário final?

Suchlicki - Creio que o Brasil e os outros países latino-americanos deveriam pressionar Cuba por democracia. Por que os latino-americanos não fazem algo sobre Cuba?

Folha Online - Creio que, atualmente, os maiores aliados de Cuba, incondicionais, estão na América do Sul.

Suchlicki - Enquanto aliados, condenam os cubanos a uma ditadura de longo termo. Houve solidariedade na América Latina quando Pinochet estava no poder e com os militares no Brasil. As pessoas diziam: "temos de ter democracia", e todos pressionavam. Agora, "deixem os cubanos sofrerem" e continuarem sob uma ditadura. Não ouço a voz de brasileiros dizendo "Cuba deve ser livre".

Folha Online - Na América Latina o comunismo ainda é visto de forma romântica...

Suchlicki - Já é tempo de perceber que o comunismo não tem nada de romântico.

Comentários dos leitores
irineu ermel (3) 30/05/2008 16h03
irineu ermel (3) 30/05/2008 16h03
NATAL / RN
Eu nao quero ser parceiro de nenhum país comunista, e acho que o governo deveria ter mais responsabilidade com os recursos do País, e nao ficar fazendo caridade com o dinheiro que nao lhes pertence. sem opinião
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Antonio Carlos Bressan (124) 25/02/2008 17h04
Antonio Carlos Bressan (124) 25/02/2008 17h04
NITEROI / RJ
Depois de 50 anos, o mundo todo viu mais uma "encenação" eleitoral ridícula em Cuba, com o povo sofrido continuando a viver de forma passiva, como "gado", na grande fazenda particular da "famiglia" Castro!
Nem à beira da morte, nestes 19 meses, Fidel demonstrou um pouco de humildade e menos "arrogância" - comum aos ditadores que se acham "deus" do povo - aproveitando para convocar eleições diretas e democráticas para o país!
Se o fizesse, pelo menos ficaria na história como um revolucionário que se tornou ditador, mas que antes de sua morte, se arrependeu daqueles anos de ausência de liberdades e de democracia, impingida por ele ao seu próprio povo trabalhador e honesto!
Para um ditador, era querer demais também, não?
61 opiniões
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Igor Mendonça (2) 25/02/2008 12h45
Igor Mendonça (2) 25/02/2008 12h45
BELO HORIZONTE / MG
Acho importante salientar que diferente do regime socialista, o capitalismo não tem tratados ou teorias defensoras para guiá-lo. Independete do modo de produção, acho que conquista de direitos vem com o tempo, através de reformas e/ou revoluções. Acho que dizer que graças ao Patrioct Act o "mundo capitalista" é menos livre cai num grande equívoco (vide a Internet). As reformas das previdências sociais vem de uma grande verdade na natureza: os recursos são escassos, e saber administrá-los está além da capacidade de uns poucos técnicos de alguns governos. Os governos estão sem dinheiro para bancar o envehecimento mundial, e não há corrupção ou má administração que supere esta cifra. Resta ao governo regular para evitar abusos, e se preocupar com questões mais importantes: educação e democracia, por exemplo, conceitos extremamente imaturos ainda nas sociedades atuais. Mas isso foge muito ao assunto "Raul Castro no poder". Desculpem-me. 5 opiniões
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