Bombas cluster já atingiram 13 mil em vários países, diz CICV
DANIELA LORETO
editora de Mundo da Folha Online
Mais de 13 mil pessoas em vários países do mundo já morreram ou se feriram pelas bombas cluster --ou bombas cacho-- de acordo com dados divulgados pelo CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha). Os homens são as vítimas mais comuns, seguidos das crianças, que freqüentemente são atraídas pela forma, tamanho e cor dessas munições.
As bombas cluster são armas que, disparadas por terra ou ar, se abrem espalhando dezenas ou até centenas de submunições explosivas sobre áreas extensas. Freqüentemente, são direcionadas a alvos difusos: agrupamentos humanos, construções, instalações e veículos.
| Shamil Zhumatov/Reuters |
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| Bomba cluster não-detonada na cidade de Arbil, no norte do Iraque |
De acordo com o CICV, os sobreviventes dos incidentes com munições cluster costumam sofrer ferimentos graves causados pela explosão ou por fragmentos dos explosivos. Posteriormente, tais pessoas necessitam de tratamento a longo prazo e reabilitação, que inclui assistência médica, reabilitação física, apoio psicológico e reintegração socioeconômica.
Diante da extensão dos riscos do uso das bombas cluster em situações de conflito, o CICV realiza há décadas uma campanha para sensibilizar os Estados para a questão. "Estas armas não podem causar danos desnecessários a civis. O que queremos é delimitar o uso delas, para manter o mínimo de respeito humano em uma situação de conflito. Temos que ter equilíbrio entre as necessidades militares, que cabem aos Estados, e os direitos civis", afirmou Michel Minnig, delegado regional do CICV para Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, em visita à Folha de S.Paulo.
Segundo Minnig, conflitos armados anteriores apontam que as vítimas são, na maior parte, civis. "As bombas cluster possuem problemas de precisão e se espalham, mesmo fora da área militar. Além disso, elas não são confiáveis, porque muitas vezes não explodem e ficam armazenadas no solo, sendo detonadas apenas quando são tocadas por alguém", explica.
De acordo com o CICV, ao menos 21 Estados da África, do Oriente Médio, da Ásia e da Europa estão contaminados por munições cluster ou estiveram nas últimas cinco décadas. As submunições remanescentes provocam mortes e mutilações em quem as toca, como tem ocorrido com adultos e crianças do Vietnã, Camboja, Líbano, Afeganistão, Sudão e Etiópia.
Em países como o Laos, onde as munições cluster foram muito usadas durante nove anos --1964 até 1973--, há um perigo letal espalhado por uma superfície extensa.
Já em Kosovo o conflito durou apenas 11 semanas, mas, segundo o CICV, estima-se que entre 230 mil a 290 mil submunições tenham sido lançadas, e que aproximadamente 30 mil continuem no solo sem terem sido detonadas, mesmo depois de terminado o conflito.
Campanha
Minnig explica que a questão das cluster não é nova, e que o CICV trabalha desde as décadas de 60 e 70 para sensibilizar os governos. "Encorajamos os Estados a discutir esse tema, para encontrar modos de regulamentar o uso destas munições. Há várias maneiras de fazer isso, podemos encaixar as cluster dentro de regras que existem para outras armas, ou criar novas. Isso é decisão do Estado, o CICV quer reforçar a proteção às vítimas", explica.
Além disso, a organização realiza também um trabalho junto às comunidades carentes, com o uso de cartilhas e realização de palestras para a explicação de noções de direito humanitário.
"O direito internacional humanitário visa limitar o impacto do conflito. As regras visam proteger principalmente os civis. O objetivo não é proibir a guerra, mas humanizá-la", diz.
Para ele, todos os Estados, sem exceção, são interessados nesta questão, não apenas aqueles que estão envolvidos em conflitos ou os que produzem tais armas. "Se existe um problema de direito humanitário, todos devem pressionar para resolvê-lo", afirma.
"O processo de Oslo [que discute a criação de um tratado internacional proibindo a fabricação, a estocagem, o uso e a transferência de bombas cluster] não é a única maneira de controle, não temos posição sobre a natureza destas armas, mas sobre as conseqüências. Se houvesse como torná-las precisas e confiáveis, não a combateríamos".
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