Mundo
22/02/2008 - 00h56

Washington protesta oficialmente com Belgrado por incêndio na embaixada

da Folha Online

Os Estados Unidos apresentaram um protesto oficial, nesta quinta-feira, ao governo sérvio, qualificando como "intoleráveis" os incidentes após uma manifestação contra a independência de Kosovo, em Belgrado, que provocaram um incêndio na Embaixada americana e deixaram dezenas de feridos, anunciou o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack.

O número três do Departamento de Estado, Nicholas Burns, telefonou para o primeiro-ministro e o chanceler sérvios, Vojislav Kostunica e Vuk Jeremic, respectivamente, para protestar pelos fatos e a "totalmente insuficiente" proteção oferecida pelos corpos de segurança do país, disse McCormack à imprensa.

"A mensagem foi muito clara: que a situação era intolerável, que precisavam agir, imediatamente, para garantir uma segurança adequada para evitar que nossa Embaixada e pessoal sejam atacados", declarou.

McCormack afirmou que, no local dos incidentes, um corpo carbonizado foi encontrado, mas esclareceu que todo o pessoal de serviço americano da embaixada está a salvo.

Marko Drobnjakovic/AP
Manifestante passa na frente da Embaixada dos EUA, em chamas, em Belgrado
Manifestante passa na frente da Embaixada dos EUA, em chamas, em Belgrado

O fogo, que aparentemente afetou apenas um dos escritórios da repartição diplomática americana, foi apagado pouco depois pelos bombeiros, que também tiveram de controlar as chamas de um restaurante da rede de fast-food americana McDonald's em uma praça central do país.

Até o momento, esta é a única vítima fatal da violência registrada nesta quinta em Belgrado contra as embaixadas dos Estados Unidos e de outros países que reconheceram a independência de Kosovo, declarada unilateralmente no domingo (17) e que a Sérvia considera "ilegal".

De acordo com o diretor adjunto do centro de emergências de Belgrado, Dusan Jovanovic, 88 pessoas foram atendidas até o momento no local, sendo 21 policiais, embora todas com ferimentos leves.

Os ferimentos ocorreram com a intervenção da polícia antidistúrbios para conter os grupos que atacaram sedes de diversas embaixadas em Belgrado, como as da Turquia e Croácia, além da dos EUA.

Sean McCormack, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, pediu nesta quinta ao governo sérvio que proteja a Embaixada dos EUA. O porta-voz afirmou que o embaixador estava em sua residência e em contato com membros do governo dos EUA.

Além da embaixada americana, também sofreram ataques as da Turquia, onde a bandeira turca foi substituída por uma da Sérvia, e a da Croácia, onde foi a flâmula croata foi queimada.

Arte Folha Imagem

A polícia conseguiu impedir que os manifestantes invadissem a Embaixada do Reino Unido.

Paralelamente, uma manifestação de cerca de 150 mil pessoas, convocada pelo governo sérvio contra a autoproclamada independência de Kosovo, ocorria pacificamente do Parlamento até a catedral de São Sava.

De Bucareste, o presidente da Sérvia, Boris Tadic, pediu o fim da violência em Belgrado.

Em outro episódio de violência, um grupo de ex-reservistas do Exército sérvio atacou nesta quinta com pedras um posto da polícia kosovar e ateou fogo no local, na região da fronteira entre a Sérvia e Kosovo.

Colunas de fumaça foram vistas perto da localidade fronteiriça de Merdare, no sul da Sérvia, após o ataque do grupo que, segundo a polícia, era formado por cerca de 300 pessoas.

Centenas de policiais foram enviados ao local para tentar deter os manifestantes.

Manifestação

A manifestação, cujo lema é "Kosovo é Sérvia", começou às 17h (13h de Brasília) e prosseguiu com uma marcha em direção à catedral do país, onde foi feita uma oração. O objetivo, segundo os organizadores, é "canalizar o descontentamento, a fúria e a cólera, e mostrar de maneira pacífica ao mundo que a Sérvia não aceita a independência de Kosovo".

O primeiro-ministro sérvio, Vojislav Kostunica; o presidente, Boris Tadic, e os líderes do Partido Radical Sérvio (SRS), o maior de oposição no Parlamento, haviam pedido aos cidadãos que mantenham a calma e protestem "com dignidade", sem atos de violência.

As escolas estão fechadas nesta quinta-feira na Sérvia e os trens transportaram gratuitamente todos os cidadãos do país que quiseram comparecer aos protestos em Belgrado.

Reconhecimento

Vários países --entre eles Estados Unidos, França e Alemanha-- reconheceram o anúncio de Kosovo. A Sérvia se opõe à independência unilateral de Kosovo, que considera uma violação flagrante do direito internacional e 'uma injustiça histórica'. Belgrado anunciou que lutará por todos os meios políticos, diplomáticos e econômicos para recuperar Kosovo.

Em resposta ao reconhecimento americano à independência de Kosovo, a Sérvia retirou seu embaixador de Washington, e alguns políticos pedem que todos os laços diplomáticos sejam cortados com os países que reconhecerem a declaração kosovar.

O presidente sérvio, Boris Tadic, afirmou ontem que Belgrado não se isolará do restante da Europa, apesar do reconhecimento já anunciado por vários países da União Européia (UE).

"A Sérvia não tomará o rumo do isolamento", disse ele em Bucareste, durante visita à Romênia. "A Sérvia não desistirá de seu futuro na Europa".

Algumas lideranças sérvias exigem que o governo deixe de lado o objetivo de se integrar à União Européia devido ao reconhecimento de membros do bloco à independência de Kosovo.

 

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