Fidel rejeita mudanças em Cuba; leia íntegra de artigo
da Folha de S. Paulo
O ditador cubano Fidel Castro anunciou sua renúncia ao cargo na terça-feira (19), após 49 anos à frente do poder na ilha.
Nesta sexta-feira, ele afirmou que sua renúncia à Presidência não provocará uma "mudança, como espera o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush", em artigo publicado no jornal oficial cubano "Granma".
O texto é o primeiro de Fidel depois de anunciar que não pretende se reeleger ao comando do país.
Leia a íntegra do artigo publicado nesta terça-feira no site do "Granma":
"O que escrevi na terça, 19
Fidel Castro Ruz
Na terça-feira, não havia notícias internacionais urgentes. Minha modesta mensagem ao povo, em 18 de fevereiro, não encontrou dificuldades para ser amplamente divulgada. Desde as 11 das manhã comecei a receber notícias concretas. Havia dormido como nunca na noite anterior. Tinha a consciência tranqüila e me havia prometido férias. Os dias de tensão, à medida que o 24 de fevereiro se aproximava, me deixaram exausto.
Não direi uma palavra, hoje, sobre as pessoas afetuosas, de Cuba e do mundo, que expressaram suas emoções de mil maneiras diferentes. Recebi igualmente um número elevado de opiniões recolhidas nas ruas por métodos confiáveis, e elas quase sem exceção, e espontaneamente, expressavam profundos sentimentos de solidariedade. Tratarei desse tema um dia.
Mas hoje dedicarei minhas reflexões ao adversário. Foi divertido observar a posição embaraçosa de todos os candidatos à presidência dos Estados Unidos, que se viram um a um obrigados a proclamar exigências imediatas a Cuba, para não arriscar um único eleitor. Seria possível imaginar que eu fosse um jornalista premiado com o Pulitzer e os estivesse entrevistando sobre os mais delicados assuntos políticos e até pessoais, em Las Vegas, onde reina a lógica do azar e das roletas de jogo, uma cidade que qualquer candidato à presidência deveria visitar humildemente.
Meio século de bloqueio parecia pouco, aos candidatos favoritos. Mudança, mudança, mudança, gritavam em uníssono.
Eu concordo -mudança!-, mas nos Estados Unidos. Cuba mudou há muito tempo e prosseguirá em seu rumo dialético. Nosso povo exclama que não deseja retornar ao passado.
"Anexação, anexação, anexação!", responde o adversário -já que é isso que eles pensam, no fundo, quando falam em mudança.
José Martí, rompendo o segredo de sua luta silenciosa, denunciou o império voraz e expansionista já descoberto e descrito por sua genial inteligência, mais de um século depois da declaração revolucionária de independência pelas 13 colônias.
O fim de uma etapa não é a mesma coisa que o início do fim de um sistema insustentável.
De imediato, as minguadas potências européias aliadas a esse sistema proclamam as mesmas exigências. Na opinião delas, chegou a hora de dançar com a música da democracia e da liberdade, coisas que não conhecem desde os tempos de Torquemada. A colonização e a neocolonização de continentes inteiros, de onde extraem energia, matérias-primas e mão-de-obra barata, as desqualifica moralmente.
Um ilustríssimo personagem espanhol, antigo ministro da Cultura e um dia socialista impecável, é hoje e já algum tempo porta-voz das armas e da guerra, e serve como síntese da irracionalidade pura. Kosovo e sua declaração unilateral de independência os golpeia agora como um impertinente pesadelo.
No Iraque e no Afeganistão, continuam a morrer homens de carne e osso, com os uniformes dos Estados Unidos e da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan). E as recordações da União Soviética, desintegrada em parte devido à sua aventura intervencionista no segundo destes países, perseguem os europeus como uma sombra.
Bush pai defende McCain como candidato, enquanto Bush filho, em visita a um país da África -a origem do homem no passado e o continente-mártir do presente-, para fazer ninguém sabe o quê, declarou que minha mensagem era o início do caminho da liberdade para Cuba, ou seja, a anexação decretada por seu governo em um volumoso e enorme texto.
No dia anterior, as estações internacionais de televisão mostravam um grupo de bombardeiros de última geração fazendo manobras espetaculares, com garantia total de que bombas de qualquer tipo poderiam ser lançadas sem que os radares detectem as aeronaves que as carregam e sem que isso seja considerado crime de guerra.
Um protesto de países importantes se relacionava à idéia imperial de testar uma arma, sob o pretexto e evitar a possível queda em território de outro país de um satélite espião, um dos muitos artefatos que os Estados Unidos colocaram em órbita do planeta.
Eu havia pensado que deixaria de escrever por pelo menos 10 dias, mas não tinha direito a guardar silêncio por tanto tempo. É preciso abrir fogo ideológico contra eles.
Escrevi este texto às 15h35 da terça-feira. Revisei o texto no dia seguinte e o entreguei na quinta-feira. Roguei encarecidamente que minhas reflexões sejam publicadas na página dois ou qualquer outra de nossos periódicos, nunca em primeira página, e que resumos simples sejam divulgados pelas outras mídias, caso elas sejam extensas.
Agora, estou me dedicando ao esforço de preparar meu voto de chapa para a seleção da presidência da Assembléia Nacional e do novo Conselho de Estado, e de decidir como fazê-lo.
Agradeço aos leitores por sua paciente espera.
Fidel Castro Ruz,
21 de fevereiro de 2008."
Tradução: Paulo Migliacci
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Nem à beira da morte, nestes 19 meses, Fidel demonstrou um pouco de humildade e menos "arrogância" - comum aos ditadores que se acham "deus" do povo - aproveitando para convocar eleições diretas e democráticas para o país!
Se o fizesse, pelo menos ficaria na história como um revolucionário que se tornou ditador, mas que antes de sua morte, se arrependeu daqueles anos de ausência de liberdades e de democracia, impingida por ele ao seu próprio povo trabalhador e honesto!
Para um ditador, era querer demais também, não?
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