Mundo
29/02/2008 - 18h07

Leia íntegra do novo artigo de Fidel Castro

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da Folha Online

Leia a seguir a íntegra do novo artigo do ex-ditador de Cuba Fidel Castro, 81, publicado nesta sexta-feira no jornal oficial "Granma". Fidel anunciou no último dia 19 sua renúncia à Presidência Cuba e a seu cargo de comandante do Partido Comunista após 49 anos na liderança.

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"Espero não ficar envergonhado"

Estas linhas serão publicadas amanhã, 29 de fevereiro. Um grande número de tarefas nos esperam daqui a pouco. Na segunda-feira, dia 3, terá início o 10º Encontro Internacional de Economistas sobre Globalização e Problemas do Desenvolvimento, aos quais sempre assisti e onde expressei diversos pontos de vista. Em face dos acontecimentos internacionais, este será, sem dúvida, de grande importância, já que estarão presentes prestigiosos economistas, alguns ganhadores do Prêmio Nobel e dois eminentes chefes de Estado.

Desejo, nesta reflexão que hoje escrevo, tratar de um tema.

Neste dias de descanso voluntário, li um grande número de cabogramas enviados por agências tradicionais da imprensa escrita ou através da internet. Entre estes, há uma informação de Cuba no site digital da BBC Mundo que repugna por seu insultante ataque pessoal. Publicado em 25 de fevereiro, um dia depois da eleição do presidente do Conselho de Estado, intitulado O peso das reflexões, afirma o seguinte:

"Fidel Castro parece que quer acalmar o novo governo e promete 'ser cuidadoso' com as opiniões expressas em seus editoriais, as quais são publicadas em todos os meios de comunicação do país, inclusive na rádio e na televisão.

"Em suas reflexões faz um novo exercício de modéstia, não só pede ser chamado de 'companheiro Fidel', mas que seus escritos não apareçam na primeira página do jornal oficial e insiste que os outros meios só divulguem uma síntese."

"... Trata-se apenas de algo formal; embora suas reflexões apareçam na página de esportes, seu peso não será menor. Tanto nacional quanto internacionalmente, qualquer comentário do 'companheiro Fidel' repercutirá profundamente.

"De certa maneira, é uma Espada de Dâmocles sobre a cabeça dos dirigentes. Todos eles sabem que seria extremamente difícil implementar qualquer política que seja publicamente condenada por Castro..."

"As relações entre os irmãos Castro são em Cuba um mistério temperado pelos mais dissímeis rumores...".

"Alguns contam que se encerraram sós e discutiram várias horas, que fora do gabinete de Fidel se podiam ouvir os gritos dos dois.

"Nada disso pode ser confirmado, não há provas, só supostas testemunhas; mas em Cuba, como em nenhum outro país, quando se ouve o tiro, a bala já anda longe e, a 'vox populi', a transmissão oral da informação, quase sempre acerta".

Outros importantes meios da grande imprensa norte-americana, The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal, expressaram frustração, mas sem chegar a grosseiros insultos.

Para muitos, nosso país era uma caldeira cheia de vapor a ponto de estourar. Surpreende-lhes meio século de resistência heróica.

As palavras inteligentes e calmas de Raúl depois de que os 609 membros da Assembléia Nacional presentes o elegeram unanimemente presidente do Conselho de Estado, seus sinceros argumentos, desfizeram o enredo de ilusões em torno a Cuba. Aqueles que me conhecem bem, assim como Raúl, sabem que, por elementar sentido de dignidade e respeito, tal tipo de reunião jamais poderia ter se realizado. Muitos ficaram com desejos de ver, de súbito, a derrubada da Revolução heróica, que resistiu e resiste meio século à agressão imperialista.

Agora ouvem-se os uivos de lobos presos pela cauda. Quanta raiva sentem especialmente por ter sido eleito primeiro vice-presidente Machadito, secretário de Organização do Partido Comunista de Cuba, a quem a Constituição encomenda a tarefa principal na condução do povo ao socialismo.

Sabendo que no mundo das nebulosas e dos protocolos o principal é a chefia do Estado, e a organização partidária é considerada um intruso indesejável, e portanto, um princípio interno, particularmente, no caso de Cuba, deveria bastar-lhes saber que Raúl conta com todas as faculdades e prerrogativas legais e constitucionais para dirigir nosso país. Como ele mesmo explicou, o cargo de primeiro vice-presidente que ocupava - e do qual não foi tirado - foi consultado comigo no processo de eleição da candidatura unitária. Não foi porque eu exigi a consulta; foi decisão de Raúl e dos dirigentes principais do país fazer tal consulta. Foi também minha decisão pedir à Comissão de Candidatura que incluísse na lista de candidatos ao Conselho de Estado Leopoldo Cintra Frías e Álvaro López Miera, os quais se uniram aos combatentes do Exército Rebelde quando apenas tinham 15 anos. Os dois são muito mais jovens que McCain e têm mais experiência como chefes militares, demonstrada em vitoriosas façanhas internacionalistas.

Polito dirigiu a batalha de Cuito Cuanavale, a sudeste, e a contra-ofensiva no sudoeste, com mais de 40 mil combatentes voluntários cubanos e mais de 30 mil soldados angolanos, que expulsaram de Angola os últimos invasores do exército do apartheid.

O governo dos Estados Unidos criou condições para que a racista África do Sul, em determinadas condições, usasse a arma nuclear contra aquelas tropas.

López Miera, uma vez, mandou bombardear contra sua tropa, quando, nas redondezas de Luanda, ordenou a artilharia de reação múltipla, disparar contra suas próprias posições, assaltadas e quase ocupadas pelas forças sul-africanas que invadiram pela primeira vez Angola em 1975.

O tabuleiro de xadrez sugeria estas variantes. Não eram fruto de supostas tendências militaristas de Raúl, nem se tratava de gerações ou partidos disputando-se às mordidas o mundano poder. Por minha parte, reafirmo estar alheio a todo cargo, como expressei na mensagem ao povo em 18 de fevereiro de 2008.

Um dos que ficou sem fôlego é o pai teórico da "independência" de Kosovo. Numa das Reflexões, publicada em 22 de fevereiro, descrevi-o como "um ilustríssimo personagem espanhol, antes ministro da Cultura, hoje impecável socialista e há tempo, defensor do armamentismo e da guerra". (Foi também, em diversos momentos, ministro porta-voz do governo, ministro da Educação e da Ciência e ministro das Relações Exteriores).

O que ele disse? "As notícias de ontem poderiam ter sido mais abertas, melhores. Do que não tenho certeza é de que tenha começado a transição do ponto de vista politico... Tudo aquilo que vá de uma transição política rumo à democracia é bem-vindo".

Falou como se vivêssemos na Espanha de Francisco Franco, muito aliado dos Estados Unidos, e não em Cuba, onde investiram mais dde US$100 bilhões - de muito mais valor que hoje - para bloqueá-la e destruí-la.

Que homem! Não há maneira de calá-lo! Como se chama? A Mesa-Redonda há dois ou três dias mencionou o pecado e o pecador. Javier Solana. Onde milita? No Partido Socialista Operário da Espanha. Não virá a nosso país porque Cuba, quando da guerra contra a República Sérvia, exortou o mundo a julgá-lo como criminoso de guerra num tribunal internacional. Como ministro das Relações Exteriores da Espanha, recebeu-me no aeroporto de Madri quando fui participar da 2ª Cúpula Iberoamericana realizada na capital da Espanha. Parecia um anjo!

Até Aznar, que aconselhou Clinton de bombardear a emissora de televisão da Sérvia, ocasionando a morte a dezenas de pessoas, compreende que neste momento, na véspera das eleições, não se pode brincar com o assunto das nacionalidades, pois qualquer um percebe de que com esses antecedentes o País Basco e a Catalunha se poderiam acolher a tal princípio dentro da Comunidade Européia, e estas são duas das nações mais industrializadas da Espanha. Também podem fazer a mesma coisa os escoceses e os irlandeses.

Com os destinos da espécie humana em tais mãos, é como se dançasse alegremente à beira dum abismo onde reina a vaidade de não poucos hierarcas do mundo capitalista globalizado, que põem em risco todos os países. Os valores humanitários, educacionais e artísticos, atingidos com seus próprios recursos pela Revolução em Cuba que querem destruir, não significam nada para eles, se não se submete à tirania do livre mercado; este e suas leis cegas estão afundando a espécie numa crise econômica insustentável e numa mudança nas condição naturais naturais de vida que pode ser irreversível.

É para lutar contra isso que escrevo Reflexões. Provavelmente, se houver mais tempo, eu estaria disposto a escrever para lembrar questões que hoje estão dispersas em discursos, entrevistas, diálogos, declarações, reuniões, reflexões e coisas do gênero. Gastei toneladas de papel e toneladas de sons - valha a expressão simbólica -, mas não tenho motivos para ficar envergonhado.

Fidel Castro Ruz

28 de fevereiro de 2008 - 19h15

Fonte: Site do jornal "Granma"

 

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