Mundo
03/03/2008 - 00h02

Equador expulsa embaixador da Colômbia e envia tropas à fronteira

da Folha Online

O presidente do Equador, Rafael Correa, anunciou na noite deste domingo a "expulsão imediata" do embaixador da Colômbia em Quito, Carlos Holguín, após a retirada de seu embaixador em Bogotá, Francisco Suéscum, e solicitou uma reunião urgente da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Comunidade Andina de Nações (CAN) para tratar do ataque colombiano ao território equatoriano.

Em cadeia nacional de televisão, Correa informou que tinha ordenado a "mobilização de tropas" na fronteira com a Colômbia e exigiu do governo do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, não só desculpas, mas "compromissos firmes de respeito ao Equador".

As medidas de Correa são em resposta ao ataque militar colombiano em território equatoriano na madrugada do sábado, no qual morreu o porta-voz internacional e número dois das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Raúl Reyes.

Apesar disso, o governo colombiano afirmou que tem provas de que o Equador teria "interesse de oficializar as relações com a direção das Farc".

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aliado de Correa, se envolveu no conflito, ordenou o fechamento da embaixada em Bogotá --sem titular desde o final de novembro do ano passado--, e disse ainda ter enviado dez batalhões à fronteira com a Colômbia.

João Wainer/Folha Imagem
Segundo homem das Farc, Raúl Reyes (foto), foi morto pelo Exército colombiano
Segundo homem das Farc, Raúl Reyes (foto), foi morto pelo Exército colombiano

Ao chegar a Quito neste domingo, após ser chamado para consultas por Correa, Suéscum qualificou o ataque colombiano de "ato de guerra".

Conversando com jornalistas no aeroporto, o embaixador equatoriano disse que "o massacre é um fato bárbaro, um fato de guerra, um fato contra a paz, a vida e aos direitos humanos".

"As relações (entre Equador e Colômbia) ficam muito afetadas por um ato desta natureza, que não esperávamos desde nenhum ponto de vista", acrescentou Suéscum.

O embaixador disse que sua chamada para consultas por parte de Correa é "um ato de legítima defesa da dignidade e da soberania do país que foi violada por este atropelo cometido pelas Forças Armadas da Colômbia".

O diplomata declarou que não tinha nenhum conhecimento (prévio da operação). "Ninguém informou absolutamente nada ao Equador".

Suéscum disse ainda que para as comunicações sobre assuntos militares na fronteira comum entre Equador e Colômbia "existem mecanismos da Comissão Binacional de Fronteira, composta por comandantes militares e representantes diplomáticos dos dois países".

Sobre seu retorno a Bogotá, disse que o presidente Correa é quem conduz a política externa do país e será ele quem vai decidir quando acontece a sua volta.

O Ministério das Relações Exteriores convocou também o embaixador da Colômbia em Quito, Carlos Holguín, a quem foi comunicado o protesto e a retirada de Suéscum.

Desculpas

O governo colombiano pediu desculpas ao Equador pela ação militar em território equatoriano. "O governo da República da Colômbia deseja apresentar ao governo da República do Equador suas desculpas pela ação que se viu obrigado a antecipar na zona de fronteira", diz o documento lido neste domingo em Bogotá pelo chanceler colombiano Fernando Araújo.

A nota acrescenta que a ação consistiu na "entrada de helicópteros colombianos com pessoal das Forças Armadas no território equatoriano, para verificar o local".

"O governo colombiano nunca teve a pretensão ou a disposição de desrespeitar, vulnerar a soberania ou a integridade da irmã República do Equador, de seu povo ou de suas autoridades, pelas quais professou, historicamente, afeto e admiração", diz o comunicado oficial.

Assegura o documento que na ação os militares colombianos recuperaram o corpo de Reyes, três computadores, documentos e correspondência do "terrorista". Acrescentou que, com informações da inteligência, foi preparada "uma operação para atacar um lugar em território colombiano" onde estavam Reyes e outros guerrilheiros das Farc.

A nota detalha que "no momento em que as unidades transportadas por helicópteros da polícia (colombiana) estavam se aproximando, foram recebidas por intenso fogo de guerrilheiros localizados em nosso território, sendo iniciado um combate. Foi nesse momento que as unidades foram atacadas, de um lugar a menos de 1.800 metros da fronteira, em território equatoriano".

Esclareceu que diante do ataque, os militares colombianos "reagiram e utilizaram a força em direção ao lugar de onde estavam sendo atacados" e que essa ação deixou um saldo de 12 guerrilheiros mortos, entre eles Reyes.

O governo colombiano acrescentou que perante a situação "foi indispensável que as tropas colombianas entrassem no território equatoriano para verificar o lugar de onde receberam disparos e ao qual atacaram".

A Colômbia se comprometeu a indenizar os cidadãos equatorianos que possam ter sido afetados pelos ataques.

Segundo o porta-voz presidencial da Colômbia, César Mauricio Velásquez, o comunicado referente à operação militar que terminou com a morte de Reyes foi redigido por um conselho extraordinário de ministros que se reuniu na Casa presidencial.

Mais cedo neste domingo, o governo colombiano afirmou que não violou a soberania equatoriana na operação militar, considerada por Quito a "pior agressão" a seu país por parte de Bogotá.

Em uma breve resposta à nota de protesto transmitida no sábado a Bogotá pelo presidente equatoriano Rafael Correa, o Ministério das Relações Exteriores havia afirmado que "a Colômbia não violou a soberania, mas atuou de acordo com o princípio de legítima defesa".

"Os terroristas, entre eles Raúl Reyes, tinham o costume de cometer assassinatos na Colômbia e de invadir o território dos países vizinhos para refugiar-se", acrescentou a Chancelaria.

Relações

Apesar do pedido de desculpas, o governo colombiano afirma que o Equador deve explicações a Bogotá. Isso porque, segundo o diretor da polícia da Colômbia, general Oscar Naranjo, haveria documentos comprometedores ligando o governo do Equador às Farc.

De acordo com o general, o documento contendo a informação estaria em seu poder e teria sido encontrada em um computador apreendido na ação que vitimou Reyes.

Naranjo disse que um documento, elaborado por Reyes e dirigido ao comando das Farc, afirmaria que o ministro de Segurança do Equador, Gustavo Larrea, em nome do presidente do Equador, teria o "interesse de oficializar as relações com a direção das Farc".

Esse documento também afirmaria que o governo do presidente Correa se compromete a substituir os comandantes policiais e militares nas zonas equatorianas onde estão as Farc.

Também, segundo Naranjo, se solicita ao máximo chefe das Farc, Manuel Marulanda, conhecido como "Tirofijo", uma contribuição que impulsione a gestão de Correa na troca humanitária, que poderia ser entregar a seu governo o filho de um professor de sobrenome Moncayo, em poder dos rebeldes há mais de 10 anos.

Em outro documento, datado em 18 de janeiro e supostamente escrito por Reyes, se deixa entrever que o ministro equatoriano Larrea teve contatos diretos com esse chefe da guerrilha, já fora na Colômbia ou no Equador.

De acordo com Naranjo, os documentos comprometem a segurança da Colômbia e é o Equador que tem que dar explicações claras e contundentes.

Chávez

Em seu programa dominical "Alô, presidente!", Chávez ordenou o fechamento da embaixada venezuelana em Bogotá, sem titular desde o final de novembro do ano passado, após reforçar suas críticas a Uribe.

"Ordeno de imediato a retirada de todo nosso pessoal da embaixada de Bogotá. Que se feche a embaixada de Bogotá. Chanceler (Nicolás) Maduro, por favor, feche nossa embaixada e mande que voltem todos nossos funcionários", disse Chávez.

Chávez também chamou o presidente colombiano, Álvaro Uribe, de "criminoso, mafioso e paramilitar", e o acusou de dirigir um "narcogoverno". Ele acrescentou que a Colômbia é uma "ameaça para a paz da região".

"Não queremos guerra, mas não vamos permitir que o império nem o seu cachorro venham nos debilitar", disse Chávez, em referência aos EUA e à Colômbia, respectivamente.

O governante venezuelano disse ainda ter mobilizado tropas e aviões à fronteira com a Colômbia, de 2.219 quilômetros e palco freqüente de ações das Farc, de traficantes de drogas e de contrabandistas.

Segundo o venezuelano, o episódio pode dar início a uma guerra na América do Sul.

Bombardeio

O bombardeio no qual morreu Raúl Reyes aconteceu em Santa Rosa, a cerca de 1.800 metros da fronteira sul da Colômbia com o Equador.

No relatório oficial da ação, o Ministério da Defesa disse que a Força Aérea Colombiana (FAC) teve "sempre em conta a ordem de não violar o espaço aéreo equatoriano".

Além de Reyes, cujo nome verdadeiro era Luis Edgar Devia, durante a ação morreram Guillermo Enrique Torres (Julián Conrado), considerado um dos ideólogos da guerrilha, e outros 15 rebeldes.

Apesar de tanto a Colômbia quanto o Equador afirmarem que o bombardeio foi realizado em território equatoriano, as Farc negam as declarações. "Por agora, podemos assegurar que as afirmações do governo que dizem que nossos camaradas estavam na república irmã do Equador são pouco menos que uma infâmia", afirmou a revista "Resistencia", órgão de difusão das Farc, na primeira reação do grupo rebelde.

Reyes era um dos sete membros do Secretariado (comando central) das Farc, que tem como líder Pedro Antonio Marín ("Manuel Marulanda Vélez" ou "Tirofijo"), o septuagenário fundador e chefe máximo do grupo.

Considerado o número dois da organização, Reyes era dirigente do sindicato local da multinacional Nestlé quando entrou para a guerrilha, nos anos 70, se tornando, mais tarde, porta-voz oficial do grupo.

Com Efe e France Presse

 

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