Empresários russos acreditam nas reformas prometidas por Medvedev
AMÉLIE HERENSTEIN
da France Presse, em Moscou
O meio empresarial russo espera que a chegada de Dmitri Medvedev ao governo da Rússia estimule as reformas porque, mesmo que os números deixados por seu antecessor Vladimir Putin sejam sólidos, estão comprometidos pela inflação.
Embora já fosse previsto, os resultados das eleições de domingo foram recebidos com certa satisfação pelo meio econômico porque "marca o fim do processo formal de sucessão do presidente Putin, o que contribuirá para reduzir o risco político", resume Iaroslav Lissovolik, economista do Deutsche Bank em Moscou.
"Apesar de as recentes críticas relacionadas às restrições à liberdade e à democracia na Rússia, a saída de Putin do Kremlin confirma sem dúvida que a Rússia optou por uma transição pacífica como exige a Constituição", considera Katia Malofeeva, analista do Banco Renascimento Capital.
Os bom resultado registrado por Medvedev (70,23% dos votos, segundo resultados preliminares quase definitivos) garantem a ele "crédito político suficiente para estabelecer certas reformas prioritárias apresentadas em seu discurso em Krasnoiarsk" no dia 15 de fevereiro, ressaltou Lissovolik.
O candidato destacou então os "quatro is", ou seja, as instituições, as infra-estruturas, a inovação e os investimentos. Insistiu particularmente na necessidade de diversificar a economia, reduzir a presença do Estado, dar maior independência à Justiça e lutar contra a corrupção. Ele é geralmente considerado mais "liberal" que seu antecessor e mentor.
Estas propostas são boas para os investidores, frisou Neil Cooper, diretor da Câmara de Comércio Russo-Britânica em Moscou. "Acho que (sua) resposta (à eleição) será muito positiva. (...) Tudo o que ouvimos leva-nos a acreditar que realizará reformas para um mercado livre", disse à France Presse.
Chris Weafer, analista do Banco Uralsib, ressaltou que o essencial para os meios empresariais é que Medvedev garanta a estabilidade. "O casamento chegou ao fim, agora é hora da lua-de-mel. Os investidores esperam que ela seja longa e forte e gere diversas belas reformas", ironiza em uma nota.
Anders Aslund, economista do Peterson Institute for International Economics, um centro de pesquisa independente, não está certo disso.
Ele ressaltou em um artigo recente no jornal russo em língua inglesa "Moscow Times" que a performance econômica da Rússia de Putin teve pontos apreciáveis, mas que "muitos problemas se acumularam em razão da quase inexistência de reformas desde 2002".
"Até recentemente, Vladimir Putin podia ter mantido uma política macroeconômica responsável, mas colocou em perigo esta performance com gastos populistas em plena escalada inflacionária", o que agravou o fenômeno, critica.
A inflação, que chegou a 12% no ano passado, é considerada a principal pedra no sapato de um país com dados econômicos instáveis, mesmo com a alta do petróleo.
"Quem quer que venha após o segundo mandato de Putin, a Rússia tem grande necessidade de relançar suas reformas de mercado. Mas o que Putin e seus assessores da KGB deixarão Medvedev fazer?", perguntou Anders Aslund.
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