Cresce tensão entre Colômbia, Equador e Venezuela; OEA discute crise
da France Presse, em Bogotá
da Folha Online
O Equador rompeu relações diplomáticas com a Colômbia e a Venezuela expulsou o embaixador colombiano, enquanto os países da América Latina se mobilizam para conter a grave crise diplomática, iniciada após um ataque colombiano contra a guerrilha Farc (Forças Armadas revolucionárias da Colômbia) em território equatoriano, ocorrido no ultimo sábado (1º), e que levou à morte Raúl Reyes, um dos principais líderes da guerrilha, além de outros 16 membros das Farc. Segundo o governo de Quito, no total seriam 22 mortos.
As decisões de Caracas e Quito de romper relações diplomáticas com a Colômbia foram adotadas depois que Bogotá revelou a suposta existência de acordos das Farc com os governos de Equador e Venezuela.
| 20.ago.2003/João Wainer/Folha Imagem |
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| Raúl Reyes, um dos pricipais líderes das Farc, morto no sábado pela Colômbia |
Bogotá informou que as revelações serão apresentadas à OEA (Organização dos Estados Americanos), cujo conselho permanente se reunirá nesta terça-feira.
O presidente do Equador, Rafael Correa, que iniciará uma viagem por vários países latino-americanos para tentar obter apoio em meio à crise, pediu aos governos da região que formem fileiras frente ao "nefasto e traidor" ato da Colômbia contra as Farc em seu território.
Libertação de Betancourt
Correa afirmou nesta segunda-feira que o ataque colombiano contra um acampamento das Farc no Equador frustrou a libertação da franco-colombiana Ingrid Betancourt e de outros dez reféns da guerrilha, que deveria ocorrer em março no território equatoriano.
Os seis reféns [todos ex-congressistas colombianos] libertados pelas Farc recentemente relataram que a franco-colombiana Betancourt se encontra muito mal de saúde e sofre de hepatite B. Em carta enviada à família, no ano passado, Betancourt deu sinais de que está à beira do desespero, dizia que perdeu o apetite, que não come, e que seu cabelo caía "em grande quantidade". "Aqui vivemos mortos", disse na carta.
| AP |
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| Foto de Betancourt divulgada pelas Farc; saúde debilitada preocupa familiares |
"Lamento informar que as negociações estavam bastante avançadas para libertar no Equador 12 reféns, entre eles (a ex-candidata presidencial) Ingrid Betancourt" e os três norte-americanos", disse Correa em uma mensagem à Nação, na qual justificou a ruptura das relações com Bogotá.
Bogotá reagiu imediatamente e rebateu a versão do presidente equatoriano e afirmou que as conversas do governo deste país com as Farc "têm mais as características de tráfico de seqüestrados com fins políticos".
Ontem, a França admitiu que Reyes era o contato do governo francês nas negociações da libertação de Betancourt.
Documentos
Segundo a Colômbia, os acordos entre Caracas e Quito com as Farc são evidenciados em documentos e fotografias encontrados em três computadores apreendidos no acampamento onde morreu Reyes, situado no Equador a 1,8 km da fronteira bilateral.
O ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, disse que o país não enviará mais forças à fronteira e disse que as informações encontradas nos computadores eram "preocupantes".
Ele disse ainda que os contatos entre Reyes e o ministro da Segurança equatoriano, Gustavo Larrea, provam "uma convivência, uma espécie de associação do governo do Equador com a guerrilha".
Larrea admitiu que se reuniu em janeiro com Reyes fora do Equador e da Colômbia para tentar obter a libertação dos reféns das Farc.
Venezuela
A respeito da Venezuela, o chefe da polícia colombiana, general Oscar Naranjo, revelou que um dos arquivos encontrados afirma que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, entregou US$ 300 milhões às Farc.
"Esta nota traz implícita uma proximidade e torna evidente uma aliança em termos armados das Farc e o governo da Venezuela", disse.
| Efe/AP |
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| (Da esq. para a dir.) Os presidentes da Venezuela (Hugo Chávez), do Equador (Rafael Correa) e da Colômbia (Álvaro Uribe) |
O ministro do Interior da Venezuela, Ramón Rodríguez Chacín, rebateu as acusações e disse "são falácias absolutas".
Ele disse ainda que a Colômbia manipula os dados do computador de Reyes para justificar uma "guerra preventiva" contra a Venezuela e acusou o chefe da polícia colombiana de ligações com o narcotráfico.
A preocupação com a crise se espalhou por todo o continente e vários países, incluindo o Brasil, defendem a via diplomática. O governo dos Estados Unidos respaldou as ações da Colômbia contra as Farc
Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva Lula teria pedido ao ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, que reunisse o maior número de informações sobre o caso para se pronunciar depois sobre o tema no Itamaraty.
O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), disse nesta segunda-feira que o Brasil deve exercer seu papel de liderança para evitar que a crise traga prejuízos para a região. "Eu acho que a mediação é necessária e tem que ser consentida. A atitude do Brasil de buscar a mediação, ao lado de outros países, é medida eficaz", disse.
Apesar de defenderem a atuação do Brasil como mediador do conflito, os parlamentares defendem que o país fique neutro na disputa. Ou seja, não tome partido nem da Colômbia nem do Equador nem da Venezuela.
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