Mérito da ação colombiana foi chamar atenção para desafio das Farc, diz chefe da diplomacia dos EUA para a AL
CLAUDIA ANTUNES
Editora de Mundo da Folha de S. Paulo
O ataque colombiano contra o acampamento das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em território do Equador, em 1º de março, foi importante para "trazer à luz" a atuação do grupo nos países vizinhos, afirma o secretário de Estado assistente dos EUA para o Hemisfério Ocidental, Thomas Shannon.
Shannon fez parte da comitiva da secretária de Estado Condoleezza Rice no Brasil e falou à Folha por telefone na manhã de sexta, enquanto rumava para o aeroporto de Salvador, onde embarcaria para o Chile.
"Como esse fenômeno [a atuação das Farc na Venezuela e no Equador] cresce devagar e de maneira quase imperceptível, é preciso um evento que provoque uma crise para trazê-lo à luz. E foi isso que aconteceu", disse ele. Abaixo, os principais trechos da entrevista.
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FOLHA - Do que consiste o plano conjunto contra o racismo que vocês assinaram com o governo brasileiro?
THOMAS SHANNON - O principal é a troca de informações, porque os dois países têm abordagens diferentes em relação ao tema da discriminação. O maior foco é na educação, como você a usa para interiorizar nas pessoas o respeito à diversidade e à tolerância, mas também para permitir que as pessoas tenham acesso a oportunidades econômicas. O objetivo do plano de ação é reconhecer, primeiro, que tanto os EUA quanto o Brasil são democracias multiétnicas que compartilham experiências semelhantes. E, segundo, como podemos dividir essas experiências e vermos onde fomos e onde não fomos bem sucedidos.
FOLHA - No Brasil há um enorme debate sobre a conveniência de se adotar programas de ação afirmativa. Nos EUA há o mesmo debate, geralmente com os democratas mais favoráveis e os republicanos contrários. Qual a sua opinião pessoal?
SHANNON - Minha opinião é que o Estado tem o direito e de fato a obrigação de usar verba e instituições públicas para promover a integração, promover a capacidade de pessoas com desvantagens históricas de ter acesso a oportunidades econômicas e educacionais. Em última instância, esse tipo de política social tem o objetivo de produzir uma sociedade em que todos sentem que têm voz e pode se dar bem. Esse sucesso depende em última instância do indivíduo, mas ele precisa ter acesso aos recursos para ser bem-sucedido. Eu reconheço que é um tema controvertido, mas acho que os resultados, especialmente nos Estados Unidos, falam por si.
FOLHA - Quanto à disputa entre Colômbia e Equador, o senhor deve saber que a idéia de trazer para a América Latina conceitos da "guerra ao terror", tentar redefinir a questão das fronteiras, é controvertida. Mesmo aliados dos EUA, como o Chile, disseram que não se pode violar fronteiras em nome do combate ao terrorismo. O que o senhor acha disso?
SHANNON - Não estamos entanto redefinir idéias de soberania ou de fronteiras. Estamos tentando usar os mecanismos à disposição dos países no sistema interamericano para aumentar a cooperação na luta contra grupos ilegais e irregulares, como traficantes de drogas e terroristas. O que está evidente é que o sistema interamericano, historicamente baseado na idéia de se prevenir conflitos interestatais, enfrenta um novo tipo de desafio, que é a ameaça de atores não-estatais ou transnacionais. A OEA começou o processo de abordar esse desafio em 2003, com a Declaração sobre Segurança nas Américas, que citou especificamente terrorismo, narcotráfico, alguns tipos de desastres ambientais e pandemias como ameaças à segurança nacional que os países tinham que cooperar para combater. Isso não é projetado para reduzir a importância da soberania, mas para promover a cooperação entre os países, de modo que as democracias trabalhem juntas para proteger o Estado democrático. O que é evidente, para mim, nos acontecimentos dos últimos dias, é que as Farc usam as fronteiras em seu benefício, as usam como santuário para criar bases relativamente seguras de operação e logística. E isso não pode ser permitido. A Colômbia está numa luta pela sua vida e acredito que numa região comprometida com a democracia, as democracias têm que se comprometer umas com as outras para fortalecer a segurança do Estado democrático.
FOLHA - O Equador argumenta, e isso também é uma conclusão de centros de estudos como o International Crisis Group, que a atual estratégia da Colômbia contra as Farc é empurrar o grupo para as fronteiras, sem que haja uma linha de defesa. Existe um problema na estratégia do Plano Colômbia?
SHANNON - Não. A razão pela qual as Farc começaram a usar as áreas de fronteira é o fato de estarem sendo empurradas para fora de suas bases tradicionais. Em resumo, o Plano Colômbia tem sido bem sucedido e a estratégia de Segurança Democrática do presidente Uribe foi bem sucedida por ter limitado as áreas dentro da Colômbia nas quais as Farc podem operar. Por isso elas buscam refúgio em outros lugares e aí é que acho que a cooperação pode funcionar.
O que os eventos das últimas semanas fizeram foi mostrar tanto à Colômbia quanto ao Equador e à Venezuela, à toda à região, como será importante melhorar essa cooperação.
FOLHA - O problema dos atores não-estatais na América Latina não é novo. As Farc existem há mais de 40 anos. O que é novidade, na sua opinião?
SHANNON - Acho que a novidade é que as Farc não podem mais prosperar em suas fortalezas tradicionais e buscam santuários além das fronteiras colombianas. Em certa medida, as Farc já vinham usando o acesso às fronteiras, especialmente no lado venezuelano, por muitos anos, para objetivos logísticos. Mas o que vemos agora é algo diferente.
O acampamento em que Raúl Reyes estava era bem estabelecido, as pessoas o visitavam lá, ele o usava para encontros. Os estrangeiros que estavam lá tinham vindo de um encontro de círculos bolivarianos em Quito. Era uma parada em um tour revolucionário. Esse fenômeno é diferente, mas como ele cresce devagar e de maneira quase imperceptível, é preciso um evento que provoque uma crise para trazê-lo à luz. E foi isso que aconteceu. As pessoas foram forçadas a olhar para isso de outra maneira e espero que os países se dêem conta de que, em seu próprio interesse, devem reconhecer que precisam trabalhar juntos contra esse tipo de organização.
FOLHA - O senhor apoiaria a proposta equatoriana de instalação de uma força internacional na fronteira?
SHANNON - Temos que examinar melhor. Essa pode ser uma proposta muito criativa, especialmente se, seja o que for essa entidade multilateral, ela promova a comunicação entre os militares da Colômbia e do Equador. Mas, no encontro de ministros [do Exterior da OEA] na segunda-feira, vamos ouvir o relatório preparado pelo secretário-geral [José Miguel] Insulza e sua comissão com grande interesse, vamos ouvir o Equador e a Colômbia e tentar determinar quais serão os próximos passos. O importante é que todo mundo na região reconhece, olhando para a frente, que de modo a evitar esse tipo de incidente no futuro teremos que abordar o problema de fundo, que é a presença das Farc nas fronteiras.
FOLHA - Na avaliação que faz do Plano Colômbia, a ONU diz que ele não foi totalmente no efetivo no combate ao tráfico de drogas, porque a produção não caiu. Qual a sua avaliação?
SHANNON - Acho que o plano funcionou. Claro que a produção de cocaína e folha de coca é um negócio que evolui, as técnicas que os produtores usam mudam, e o Plano Colômbia também precisa evoluir para ser efetivo. Mas a razão pela qual digo que o plano funcionou é que, quando ele começou, a produção de folhas de coca e de cocaína estava aumentando exponencialmente. O plano cortou esse crescimento exponencial. Para mim isso é incrivelmente importante. A razão pela qual a produção de folha de coca estava aumentando na Colômbia é que Peru e Equador estavam sendo bem sucedidos em seus programas de erradicação e em cortar a ponte aérea que movia a pasta de coca desses países para a Colômbia, onde era refinada e distribuída. Esse era o negócio original, e o Plano Colômbia quebrou isso. Os produtos de coca tiveram que se ajustar. O que nós e os colombianos estamos tentando fazer é nos ajustar também.
FOLHA - O senhor deve ter notado que a Venezuela mudou completamente sua atitude em relação à Colômbia em uma semana. A que o senhor atribui isso?
SHANNON - Não tenho certeza. Fico feliz em ver isso. E espero que na segunda-feira ele vá ter uma atitude positiva. Espero que a Venezuela e outros agora entendam e reconheçam quão perigosas as Farc são. Tivemos uma grande viagem aqui no Brasil. Mas, para mim, o que foi mais importante em nossa conversa com o presidente Lula e com Amorim sobre Colômbia e Equador e o compromisso do Brasil à resolução pacífica de problemas na América do Sul. E o reconhecimento do Brasil de que, para que os países da região consolidem suas democracias, tenham crescimento econômico e construam o tipo de infra-estrutura necessária para a região progredir a paz é necessária, assim como o comércio através das fronteiras. Acho que o Brasil teve um papel muito construtivo em toda essa crise e, quando olhamos para a frente, temos confiança de que o Brasil vai continuar a entender que é do seu interesse e do interesse da região promover o diálogo e a paz. Acho que Chávez recebeu essa mensagem claramente.
FOLHA -No encontro do Grupo do Rio no dia 10, Uribe disse que se comprometia a não invadir mais o território dos vizinhos. Como parceiros do Plano Colômbia, os EUA assumem o mesmo compromisso?
SHANNON -Veja, nós apoiamos o presidente Uribe neste esforço e, se você for ver o que ele disse, ele anunciou esse compromisso a partir do compromisso dos outros de cooperar com ele. Porque, em última instância, o que levou a Colômbia a fazer o que fez foi um sentimento profundo de frustração de não conseguir o tipo de colaboração que eles esperavam, no sentido de negar às Farc acesso a territórios em outros países. Vamos continuar a apoiar o presidente Uribe no esforço dele de construir cooperação com seus vizinhos.
FOLHA - Qual a sua expectativa para o encontro de segunda da OEA? Parece que o relatório que será apresentado pelo secretário-geral Insulza vai mostrar que as divergências entre Colômbia e Equador sobre o que aconteceu se mantêm e que o Equador vai insistir numa resolução que condene a Colômbia.
SHANNON - Isso seria um erro. Agora é o momento de olhar para a frente. Já tivemos uma resolução da OEA e a declaração do Grupo do Rio. As duas juntas abordaram a crise diplomática causada pelo ataque colombiano no Equador da maneira mais construtiva possível. Agora o importante é fechar este capítulo e ver como a Colômbia e o Equador seguem adiante, como eles constroem cooperação e diálogo e como a OEA reconhece isso.
FOLHA - É verdade que a diplomacia americana está esnobando a Argentina, como o "New York Times" disse ontem?
SHANNON - Não, não estamos e não podemos esnobar a Argentina. É um país muito importante e compartilhamos muitos interesses. As bases de nossas relações são sólidas, em temas como luta contra o terrorismo e tráfico de drogas, não-proliferação nuclear. Eles foram muito importantes ao abordar a questão do Hizbollah e dos ataques terroristas contra a Amia e a Embaixada de Israel, tiveram um papel corajoso na Interpol, perseguindo os autores. Fiquei meio chateado de ver o artigo do NYT. Eu vi o autor em Brasília e disse a ele que foi injusto.
FOLHA - O senhor gostaria de dizer mais alguma coisa em relação à visita ao Brasil?
SHANNON - Gostaria de dizer que antes de a secretária de Estado vir aqui, na semana passada tivemos em Washington três eventos relacionados ao Brasil, sobre ambiente, biocombustíveis e a segunda rodada de conversações da nossa parceria econômica. Esses três eventos mostram como a relação com o Brasil está crescendo, como ela está criando raízes e acho que isso é incrivelmente positivo. Ontem, nossa primeira-dama estava no Haiti, o Brasil teve um papel importantíssimo no Haiti e foi um gesto maravilhoso dela ir lá, e focar em tantas coisas que foram conquistadas lá, e que agora, com o sucesso da operação de manutenção da paz, estamos numa posição em que somos capazes de abordar os problemas mais graves do país, em saúde, educação, emprego. Isso foi mais uma prova de como o Brasil e os Estados Unidos encontram meios de cooperar, trocar idéias e trabalhar como parceiros num ambiente internacional mais amplo.
FOLHA - O senhor poderia afirmar que conta com o Brasil para conter qualquer tipo de antiamericanismo que possa crescer na América do Sul?
SHANNON - Não... para mim a melhor resposta ao antiamericanismo é os Estados Unidos serem vistos trabalhando com países na região em questões que importam para eles. Não esperamos que o Brasil carregue a nossa mala, defenda os nossos interesses. A tarefa do Brasil é defender seus próprios interesses, mas o que estamos mostrando é que, mesmo que tenhamos divergências em algumas questões, elas não são importantes, o importante é como as administramos e o contexto em que elas são discutidas. E no momento este contexto é muito positivo, o que é bom para nós, para o Brasil e para a região.
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