Após fim de prazo, China diz que irá lutar por direito territorial
da Folha Online
O governo chinês afirmou nesta segunda-feira que irá lutar para proteger seu direito territorial sobre o Tibete, ao mesmo tempo em que o prazo dado aos manifestantes anti-China para se entregar e receber indulgência terminou sem que, aparentemente, alguém se entregasse ou fosse preso.
Liu Jianchao, porta-voz do ministro das Relações Exteriores chinês, culpou os seguidores do líder espiritual dalai-lama pela violência em Lhasa, capital do Tibete, na semana passada. Nesta segunda, Liu acusou os ativistas tibetanos de atacar as embaixadas chinesas pelo mundo.
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"Gostaria de reiterar que o governo chinês irá garantir sua soberania nacional e integridade territorial", disse Liu em coletiva de imprensa. "Os atos violentos mostraram a verdadeira natureza do grupo do dalai."
Liu afirmou que ataques foram realizados contra embaixadas e consulados da China nos EUA e na Europa, com manifestantes rompendo cordões policiais e lançando pedras contras as portas e janelas dos edifícios. A polícia alemã afirmou que 25 manifestantes tibetanos foram presos nesta segunda após tentarem invadir o consulado chinês em Munique.
Confrontos também foram registrados do lado de fora de representações diplomáticas chinesas em Nova Déli, Paris, Nova York e Washington nos últimos dias.
Protestos de apoio ocorreram em Províncias vizinhas ao Tibete, chegando inclusive à capital da China, Pequim.
Olimpíada
Liu afirmou que a violência não irá afetar os Jogos Olímpicos em Pequim. "Creio que eles fizeram um cálculo errado da situação", declarou o porta-voz.
"Continuaremos nossos grandes esforços para realizar a Olimpíada com grande sucesso. Estamos orgulhosos em ter os Jogos Olímpicos aqui e estamos determinados em fazer dos Jogos Olímpicos um grande sucesso."
Os comentários de Liu foram os primeiros do governo central desde os primeiros protestos contra a China em 10 de março, dia do levante frustrado de 1959 contra o controle chinês na região, que resultou no exílio do dalai-lama e de boa parte dos líderes budistas. O Tibete foi independente durante décadas até a chegada das tropas comunistas, em 1950.
Violência
Champa Phuntsok, governador chinês para o Tibete, disse nesta segunda que o número de mortos no protesto havia chegado a 16, e que dezenas estavam feridos. O governo tibetano exilado na Índia disse que 80 tibetanos foram assassinados.
Phuntsok disse que forças de segurança usaram apenas jatos d'água e bombas de gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes em Lhasa. Segundo ele, 13 dos mortos eram "civis inocentes" que foram atacados pela multidão. Outros três tibetanos morreram após saltarem do telhado de um prédio, recusando-se a render-se à polícia.
Novas demonstrações de apoio aos protestos de Lhasa ocorreram nesta segunda nas Províncias vizinhas de Sichuan and Gansu, assim como em Pequim, onde cerca de 200 estudantes fizeram um vigília com velas.
Champa Phuntsok afirmou que os manifestantes são criminosos e pediu punição severa se eles não se rendessem até a meia-noite desta segunda (13h de Brasília).
"Se eles se entregarem, serão tratados com indulgência, de acordo com a lei." Caso contrário, afirmou em coletiva, "lidaremos com eles com dureza".
O anúncio aumentou as tensões na capital tibetana, onde postos de controle armados foram criados em diversos pontos. Moradores temem uma possível varredura militar após o fim do prazo, segundo a organização Campanha Internacional pelo Tibete, baseada em Washington.
Uma mulher que atendeu uma ligação da agência de notícias Associated Press em um escritório de segurança pública em Lhasa após a meia-noite se recusou a responder perguntas.
Por causa do forte controle sobre a região, é difícil conseguir informações sobre os protestos --os maiores e mais violentos em quase 20 anos.
Moradores de Lhasa afirmaram nesta segunda que a polícia havia criado postos de controle pela cidade com o retorno da população às ruas.
Estrangeiros foram levados para os arredores da cidade, onde a situação é menos tensa.
A polícia também realizava "buscas de porta em porta entrando e destruindo (as casas) em busca de insurgentes" disse Susan Wetmore, canadense que chegou à Província vizinha de Chengdu nesta segunda.
Wetmore afirmou que havia ao menos dez postos de controle do centro da cidade até o aeroporto, a cerca de 90 km de distância.
Genocídio cultural
Neste domingo, o dalai-lama disse que a região está sofrendo "um tipo de genocídio cultural", e que as autoridades chinesas pretendem alcançar a paz através do uso da força.
Em entrevista concedida em Dharamsala, cidade da Índia onde está estabelecido o governo tibetano no exílio, o dalai-lama disse que, de uma forma "proposital ou não, o genocídio cultural" ocorre no Tibete. O líder espiritual também pediu a ajuda da comunidade internacional, à qual atribuiu uma responsabilidade de "caráter moral" na causa tibetana.
O líder tibetano denunciou os impedimentos e restrições que, segundo ele, as autoridades chinesas impõem ao desenvolvimento da educação e à formação nos mosteiros tibetanos, e alertou do risco de desaparecimento do patrimônio cultural do Tibete.
Em seu primeiro comparecimento público após os distúrbios de sexta-feira (14) em Lhasa (capital tibetana), o dalai-lama voltou a expressar seu apoio à realização dos Jogos Olímpicos de Pequim neste ano.
Olimpíadas
O presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge, disse neste domingo estar "muito preocupado" com a situação no Tibete.
'O COI espera que a situação possa ser revertida o mais rapidamente possível, e oferece suas condolências aos familiares das pessoas mortas', disse Rogge à Associated Press.
Anteriormente, ele havia descartado um boicote aos Jogos Olímpicos, dizendo que isso "penalizaria apenas os próprios competidores".
A Austrália, os EUA, o Japão e países da Europa pediram moderação à China. "Com a proximidade dos Jogos Olímpicos, que deveria ser uma mostra de fraternidade, a França chama a atenção das autoridades da China para a importância do respeito dos direitos humanos", disse o Ministério francês de Relações Exteriores em um comunicado.
Com Associated Press
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