Mundo
17/03/2008 - 22h03

Norte de Kosovo vive dia mais violento desde proclamação da independência

da Efe, em Pristina

O norte de Kosovo viveu nesta segunda-feira seu dia mais violento desde a proclamação da independência em relação à Sérvia há um mês, com 70 manifestantes sérvios e 30 soldados internacionais feridos após a evacuação forçada de um Tribunal das Nações Unidas na cidade de Mitrovica.

Em conseqüência dos enfrentamentos na parte norte do novo país, a Polícia da Missão da ONU no Kosovo (Unmik) se retirou da região e entregou o controle aos soldados da Força da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Kosovo (KFOR) e à polícia kosovar.

Arte Folha Imagem
Mapa do Kosovo

"Como medida temporária, a polícia do norte de Mitrovica está em processo de reorganização fora da cidade enquanto a KFOR restabelece o controle", declarou a ONU em um comunicado divulgado em Pristina, a capital de Kosovo.

Os enfrentamentos violentos registrados nesta segunda em Mitrovica provocaram uma forte reação política na Sérvia, onde o governo pediu a ajuda da Rússia para buscar uma resposta conjunta, enquanto o líder da oposição, Tomislav Nikolic, comparava a Unmik ao Exército de Adolf Hitler.

"Condeno da forma mais enérgica o emprego da força contra os sérvios que se opõem ao estabelecimento de um Estado falso em território sérvio", afirmou o primeiro-ministro, Vojislav Kostunica, em comunicado publicado pela agência sérvia Tanjug.

Kostunica culpou as forças da Unmik pela onda de violência, a maior registrada desde a proclamação unilateral da independência de Kosovo, há um mês.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, condenou hoje os "violentos ataques" contra membros da Polícia das Nações Unidas e tropas da Otan por manifestantes sérvios no norte de Kosovo.

Através da porta-voz das Nações Unidas, Michele Montas, Ban Ki-moon reafirmou que a Unmik "continuará tomando as medidas necessárias para pôr em prática o mandato fixado pela resolução 1.244", que em 1999 pôs a ex-Província sérvia sob sua responsabilidade.

O secretário-geral das Nações Unidas "pede a todas as comunidades que permaneçam calmas e destaca a necessidade de estabelecer um diálogo construtivo para discutir a situação", declarou a porta-voz.

Michele Montas declarou que Ban "espera que todas as partes se abstenham de ações e declarações que possam incitar ou provocar mais violência".

Confrontos

A situação vivida nesta segunda, com enfrentamentos nas ruas, a intervenção do destacamento antidistúrbios e situações isoladas de trocas de tiros, aconteceu depois que as forças da Unmik controlaram hoje, com o apoio da Otan, o edifício de um tribunal ocupado desde sexta-feira por centenas de sérvios.

Durante a desocupação do prédio, 53 sérvios foram detidos, dos quais 20 foram liberados pouco depois por uma multidão de manifestantes que se enfrentaram com as forças internacionais nas ruas de Mitrovica.

A emissora sérvia B92 afirma que até agora 30 soldados internacionais ficaram feridos, cinco deles com gravidade, enquanto os manifestantes sérvios que se feriram já passam dos 70, sendo três deles em estado grave.

O diretor do hospital do norte de Mitrovica, Vladimir Adzic, disse à Tanjug que teme pela vida de dois dos feridos, que seriam transferidos com urgência para Belgrado.

Fontes hospitalares de Mitrovica afirmaram que a maior parte dos sérvios feridos foram atingidos por tiros.

Um funcionário internacional, que pediu para não ser identificado, disse hoje à agência de notícias Efe em Pristina que a Unmik tinha obtido a permissão de disparar contra os manifestantes, após ver que alguns civis sérvios tinham atirado com armas de fogo.

O representante especial adjunto da ONU, Larry Rossin, e o comandante da KFOR, Xavier de Marnhac, se encontraram e condenaram a violência.

"A violência dirigida contra a Polícia da Unmik e o pessoal da KFOR é uma violação flagrante da resolução 1.244 do Conselho de Segurança", disseram em comunicado.

Os policiais e soldados da Otan que intervieram esta manhã usaram gás lacrimogêneo para dispersar a multidão.

O presidente sérvio, Boris Tadic, denunciou hoje em Belgrado que as forças internacionais "se excederam no emprego da força" e pediu calma para diminuir a tensão.

"Pogrom"

Tadic lamentou que os incidentes tenham acontecido hoje, "dia em que o povo sérvio sofreu um dos piores 'pogroms' (atos em massa de violência)", disse se referindo aos distúrbios de 2004.

Na ocasião, uma onda de violência de extremistas albano-kosovares contra os sérvios de Kosovo deixou 19 mortos e cerca de 900 feridos.

Tal comportamento "poderia causar uma escalada dos conflitos na região", advertiu Tadic e pediu aos sérvios de Kosovo a "não provocarem o uso da força por parte das forças internacionais com nenhum gesto".

Nas igrejas e mosteiros ortodoxos de Kosovo e da Sérvia, foram organizados hoje protestos contra os que os sérvios chamam de "massacre de março" de 2004.

O ministro sérvio para Kosovo, Slobodan Samardzic, informou que pediu à Unmik a "imediata libertação" dos sérvios detidos nos incidentes.

Samardzic acrescentou que a operação realizada hoje pela Unmik era "inadmissível" e estava "fora de todos os modos civilizados de comportamento em situações de crise".

Samardzic afirmou que se ofereceu ontem à noite para encontrar uma solução de compromisso para a crise do Tribunal de Mitrovica.

"Apesar disso, realizaram esta ação violenta e provocaram a população, causando a desordem", acrescentou.

Independência

Kosovo declarou sua independência há um mês e desde então o principal foco de tensão foi o norte do país, habitado em sua maioria por sérvios.

A ex-Província sérvia está sob administração internacional desde o fim da guerra de Kosovo, em 1999.

Sua independência unilateral foi reconhecida pelas principais potências ocidentais, como Estados Unidos, França, Alemanha e Reino Unido, mas é rejeitada pela Sérvia, seu principal aliado, Rússia, Espanha, além das Nações Unidas.

 

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