Mundo
18/03/2008 - 09h28

Domínio do Tibete garante controle de parte da Ásia, diz analista

FERNANDO SERPONE
da Folha Online

Dominado desde 1950 pela China, o Tibete se tornou palco de violentos confrontos entre manifestantes tibetanos e forças chinesas na semana passada, a apenas cinco meses do início dos Jogos Olímpicos de Pequim. Ao menos 16 pessoas morreram, de acordo com informações do governo chinês. Segundo grupos tibetanos, os mortos nos distúrbios já são cerca de cem.

O governo chinês -- que respondeu ao protestos com forte repressão e tenta controlar as informações sobre o território-- afirmou na segunda-feira que "irá garantir sua soberania nacional e integridade territorial", segundo Liu Jianchao, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.

Arte Folha Online
Mapa Tibete

Para Karma Dorjee, vice-diretor da divisão para o Tibete da Radio Free Asia --ONG que transmite informações em nove línguas da Ásia-- a ocupação do Tibete tem como principal motivo sua posição estratégica.

"O Tibete está no topo do mundo", disse Dorjee, em entrevista à Folha Online na segunda-feira. "Uma vez que você tem o controle do Tibete, controla grande parte do sul da Ásia, e parte da Ásia Central".

Dorjee afirma que, devido à proibição de estrangeiros no território desde o início dos protestos, é difícil contabilizar o número de mortos. "Uma das nossas fontes reportou 57 [mortos], uma fonte reportou outras cinco, outra reportou mais 25, e temos confirmado no oeste do Tibete outras 15", disse o tibetano, que deixou o território nos anos 60. "O total está por volta de cem, mas não podemos confirmar de maneira independente."

Segundo o governo da China, 16 pessoas morreram nos distúrbios. As forças chinesas negam a responsabilidade pelas mortes.

Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida à Folha Online:

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Folha Online - O que os manifestantes tibetanos reivindicam?

Karma Dorjee - Nos protestos dentro do Tibete, o que podemos saber, pelos gritos de ordem, é que os tibetanos dizem aos chineses para irem embora, que o Tibete é historicamente independente --essas são as reivindicações em comum nas manifestações em diferentes partes do Tibete. E, claro, depende de lugar para lugar. Em Lhasa, onde os monges iniciaram os protestos, um grande número deles foi preso, e uma das demandas [dos manifestantes] é a de que os chineses devem libertar os monges presos. A maioria dos mosteiros em Lhasa e ao redor da capital são cercados por forças militares --os manifestantes exigem a retirada [do Exército] e, claro, pedem que o dalai-lama possa voltar ao Tibete.

Folha Online - Por que esses protestos ocorrem agora? Eles são uma conseqüência dos Jogos Olímpicos, ou os protestos estão recebendo maior atenção por causa dos jogos?

Dorjee - Há algumas razões. Uma delas é a celebração do 49º aniversário do levante de 1959, que ocorreu em Lhasa, em 10 de março. Claro que as Olimpíadas em Pequim, um assunto delicado, e a tocha olímpica, que passa pelo Tibete no caminho para Pequim, também são questões relevantes. Eles [os tibetanos] também se ressentem por serem tratados como cidadãos de segunda classe no seu próprio país. Há ainda as razões financeiras, pois todo o poder econômico está nas mãos dos chineses, e os tibetanos querem participar das atividades econômicas dentro de seu próprio país.

Folha Online - Quais são as possíveis conseqüências desses protestos?

Dorjee - Do que ouvimos, uma das conseqüências é a forte repressão sobre os tibetanos. Todos os turistas tiveram de deixar o Tibete, e nenhum turista ou jornalista estrangeiro tem autorização para entrar na região. O único grupo que estava lá, de jornalistas de Hong Kong, também foi retirado do país. Não há ninguém lá para testemunhar a repressão. Então, de imediato, começaram a fazer buscas e prisões de casa em casa, e muitas pessoas foram mortas. Essas são algumas conseqüências imediatas. E, claro, há as reações de diferentes partes do mundo.

Folha Online - A comunidade internacional pode pressionar a China em prol da independência do Tibete? Como os outros países podem pressionar Pequim para diminuir a repressão no Tibete?

Dorjee - Há um série de respostas [à repressão chinesa]. Por exemplo, muitos governos, inclusive o ministro das Relações Exteriores da França (Bernard Kouchner), já falaram com o chanceler chinês (Yang Jiechi) sobre a forma com que a China lida com os protestos, eles dizem que estão descontentes e falam em boicotar as Olimpíadas. O Embaixador do Reino Unido na China também conversou com lideranças chinesas, creio que o Embaixador foi chamado de volta para consultas. Na República Tcheca, eles também falam em boicotar as Olimpíadas. Então há muita pressão --a [secretária de Estado dos EUA] Condoleezza Rice também emitiu uma declaração pedindo moderação e diálogo à China.

Folha Online - O número de mortos nos protestos fornecido pelo governo tibetano no exílio é confiável?

Dorjee - Não sei quais fontes eles seguem, mas nós temos um número diferente. Uma das nossas fontes reportou 57 [mortos], outra fonte reportou outras cinco, outra reportou mais 25, e temos confirmadas, no oeste do Tibete, outras 15. O total está por volta de cem, mas não podemos confirmar de maneira independente.

Folha Online - Qual é a opinião do senhor sobre a versão chinesa do conflito?

Dorjee - Creio que eles tentam mostrar [os protestos] como atos terroristas ou violentos, cometidos pelos tibetanos, e eles também tentam colocar como se fosse uma disputa entre budistas e muçulmanos.

Folha Online - Por quais razões a China invadiu o Tibete? Há, por exemplo, algum recurso natural de valor no território?

Dorjee - Há várias razões. Uma é a posição estratégica do Tibete. O Tibete está no topo do mundo. Uma vez que você tem o controle do Tibete, você tem controle de grande parte do sul da Ásia, e de parte da Ásia Central. Suas implicações são cruciais. E, também, há vários recursos minerais, mas a principal razão também poderia ser a vontade da China por territórios adicionais.

 

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