Após cem dias, imagem de Kirchner ainda assombra Cristina
ADRIANA KÜCHLER
da Folha de S. Paulo
Quando assumiu o poder, em 10 de dezembro do ano passado, a presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, fez questão de frisar que era "presidenta" com a, que era diferente. Hoje, completa cem dias no governo do país sem se desvencilhar da imagem do marido e ex-presidente, Néstor Kirchner (2003-2007).
"Este é um governo de continuidade. Temos pouco tempo para julgar, mas, diante de promessas de mudanças, é uma decepção", avalia o analista político Sergio Berensztein.
O analista explica que, dedicado a fortalecer politicamente o governo por meio da reestruturação do Partido Justicialista (peronista), o ex-presidente "tende a eclipsar" sua mulher. Kirchner atualmente recebe ministros e líderes políticos em seu escritório particular. Analistas e a oposição vêem aí um duplo comando no poder.
Cristina também viu seus planos de mudança no fronte externo irem para o espaço quando, recém-empossada, a Procuradoria dos EUA divulgou que estaria envolvida com o polêmico caso da mala: os US$ 800 mil dólares que o empresário americano-venezuelano Guido Antonini Wilson trouxe ao país em agosto estariam destinados à campanha da então candidata à Presidência.
Segundo a analista política Graciela Römer, o caso não afetou a imagem da presidente. "Os argentinos não se preocupam muito com temas internacionais", diz Graciela. "Ela não tem uma imagem popular tão favorável quanto a de Néstor Kirchner, mas ele foi eleito em uma situação dramática [pós-crise econômica e política de 2001-2002], que permitia maior identificação."
Cristina ainda não conseguiu, no entanto, levar adiante a promessa de reinserir a Argentina no mundo, já que o marido era visto como muito voltado à política interna. "A visita de Condoleezza Rice [secretária de Estado] ao Brasil e ao Chile, sem passar pela Argentina, confirmou mais uma vez que a relação bilateral entre Washington e Buenos Aires não tem sido boa", afirma o analista Rosendo Fraga.
Até agora, as gestões internacionais de Cristina foram limitadas a uma viagem para a assinatura de acordos com a Venezuela (tido como aliado preferencial), à participação na reunião do Grupo do Rio, na República Dominicana, e a uma frustrada reunião com os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Bolívia, Evo Morales, para discutir a distribuição do gás boliviano.
A falta de gás reflete a crise energética, um dos grandes problemas pendentes em seu governo, junto com a questão da manipulação dos índices de inflação. "Uma vantagem de Cristina sobre Kirchner é que ela reconheceu problemas, como a crise energética, apesar de não tomar medidas para resolvê-los", diz Berensztein.
Para o analista, hoje Cristina não tem opositores, mas o continuísmo pode ser um problema. "O rival de Cristina hoje é ela mesma. Com o tempo, vai descobrir que não mudar também tem seus custos."
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