Análise: Em Tikrit, a memória de Saddam mantém-se nos relógios
SABAH AL BAZEE
da Reuters, em Tikrit
Após cinco anos da queda de Saddam Hussein, a memória do ex-ditador resiste através de relógios de pulso. As pessoas da cidade na qual cresceu e da vila na qual nasceu buscam lembretes de um tempo de segurança, trabalhos garantidos e custo de vida mais baixo.
Na cidade de Tikrit, ao norte de Bagdá, relógios com imagens do ex-líder do Iraque vendem muito para uma parcela mais velha da população. Já os jovens, segundo relatos do vendedor de relógio Hamad Younes, gostam de prová-los e fazer poses.
"As pessoas adoram esses relógios do Saddam", disse Younes sobre os relógios que têm um preço inicial de US$ 100 e mostram um Saddam sorridente em um traje militar iraquiano. "Eles nunca ficam no estoque mais do que dois ou três dias. As pessoas de Tikrit amam Saddam", completa.
Saddam escolheu muitos de seus mais confiáveis oficiais entre as tropas sunitas de Tikrit e da vizinhança de Awja, onde ele nasceu em 1937. Ele confiava na lealdade da população de sua cidade natal para garantir seu controle absoluto do poder. Esta lealdade foi recompensada com as mais finas iguarias importadas e apoio generoso do Estado.
A nostalgia pelas regras estipuladas por Saddam e o desejo da volta de um tempo quando os sunitas obtinham tratamento especial inflacionou a venda de relógios e outras lembranças do líder iraquiano. "As pessoas começaram a perguntar por fotos de Saddam. a última que eu fiz foi uma foto para pendurar acima da porta de seu templo", contou Shayban al Aloosi, pintor em Tikrit.
Outra foto do ex-líder está pendurada na recepção de um centro de apoio a crianças. "Saddam morreu como um mártir e ele permanecerá como herói de Tikrit", afirma o administrador do centro, Fatin Mohammed.
"O que os americanos trouxeram? Fome, prisões e morte. Eu queria que Saddam estivesse de volta. Nós choramos pelo fim de Saddam", criticou Khodaeiyar Salah, um homem idoso vestido em trajes típicos árabes no mercado central de Tikrit.
Saddam foi enforcado em dezembro de 2006 por crimes contra a humanidade.
Uma Tikrit em expansão
Tikrit, capital da Província de Salahuddin é uma cidade populosa de 900 mil pessoas que mostra poucos sinais exteriores de que ainda lamenta por seu filho mais famoso. O trânsito bloqueia as ruas, as pessoas lotam suas lojas e oficiais dizem que a cidade está segura e aberta a investidores.
"Nós conquistamos a segurança em Tikrit e pela segurança, estabilidade e reconstrução, estamos abertos para qualquer um que queira investir", afirmou o policial Raad Subhi. Um sinal acima da entrada da cidade dá boas-vindas aos visitantes.
Tikrit tem planos de abrir o antigo palácio de Saddam Hussein para o público. Atualmente, ele está abandonado e coberto de grafite deixado por soldados iraquianos e norte-americanos.
"Saddam estando aqui ou não, não importa para nós. Nós queremos viver e continuar com nossas vidas", afirmou o motorista de táxi, Bassam Razuk.
Uma Awja esquecida
Mas em Awja, uma aparência negligenciada espelha o humor de sua população. Escritas rudes em grafite cobrem suas paredes, as estradas estão vazias e tudo que resta de seus jardins são árvores mortas.
"O pior dia da minha vida foi quando Iraque caiu. Hoje, Awja está vazia, não restou muita gente. Todos os meus tios e tias se foram, ou estão presos", conta Suleiman al Nasseri, 25.
Nem todos em Tikrit eram próximos de Saddam, mas quase todo mundo em Awja estava relacionado com ele de alguma forma. Isso significava também que muitos estavam marcados por quem queria punir os aliados de Saddam.
Como muitos iraquianos com dinheiro, muitos em Awja fugiram da violência que engoliu o Iraque desde a queda de Saddam. Dezenas de milhares de iraquianos foram mortos desde a invasão das tropas dos Estados Unidos, em março de 2003.
Bombardeios e tiroteios permaneceram parte da rotina diária no Iraque, apesar de uma queda geral na violência desde que 30 mil tropas extras dos Estados Unidos foram enviadas em junho do ano passado.
"Os americanos dizem que Saddam era um assassino e opressor. Agora há mais mortes e opressão que no tempo de Saddam. Todo dia há morte, tiroteios. Somente quando os americanos vieram nós ouvimos relatos de racismo e segregação", afirmou Yassen al Omar, vendedor da cidade e relacionado aos primos de Saddam.
Xiitas, a maioria muçulmana no Iraque e curdos sofreram terrivelmente sob o domínio de Saddam, cujo governo liderado por sunitas acabou com os dissidentes através de campanhas militares brutais, tortura e execuções.
Na tumba de mármore de Saddam, coberta de flores e cercada de imagens do ex-líder, um grupo de homens ora. Os sepulcros dos filhos de Saddam, Uday e Qusay, que morreu lutando contra as tropas norte-americanas, ficam próximos. "Saddam era uma vela da tribo e sua luz brilha hoje e sempre. Nós sentimos sua falta quando vemos fotos suas ou notícias nos jornais e eu juro que choramos quando visitamos sua tumba e a de seus filhos. Deus os abençoe", relatou Yaseen al Majid, parente do ex-ditador.
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