Menino "símbolo" da Guerra no Iraque diz ter medo de ir ao país
EMILIA PÉREZ
da Efe, em Londres
Com apenas 12 anos, Ali Ismael Abbas se tornou "símbolo" da destruição causada pelo conflito no Iraque ao perder os dois braços e quase toda a família em um bombardeio americano. Hoje com 17 anos, ele tenta refazer sua vida em Londres, apesar de passar o 5º aniversário do conflito em seu país, onde sente medo.
"É muito perigoso. É difícil levar uma vida normal. Posso sair na rua, mas sempre estou assustado. São atentados, seqüestros, destruição, você já sabe", contou Ali à agência Efe, em entrevista por telefone de Bagdá.
A aparência de Ali quase não lembra o daquela criança que chorava desolada na cama de um hospital de Bagdá, cuja imagem foi divulgada por jornais e emissoras de TV de todo o mundo nos primeiros dias da guerra.
O menino estava em casa ao lado da família quando um míssil americano caiu em sua casa. Ali --que além das amputações teve 60% do corpo queimado, sendo a metade das queimaduras de terceiro grau-- perdeu a mãe, que estava grávida, o pai, um irmão e outros parentes.
Seu drama comoveu o mundo inteiro.
"Houve muita pressão para que os governos britânico e americano retirassem aquele menino de Bagdá porque, caso contrário, ele morreria", lembra o presidente da Associação de Pessoas sem Extremidades (LA, na sigla em inglês) do Reino Unido, Zafar Khan, que criou um fundo para ajudar o menino.
Ajuda
Ali foi levado em um helicóptero americano ao hospital Ibn Sinai, no Kuait. Khan foi conhecer a criança e ver qual seria a melhor maneira de utilizar o dinheiro arrecadado.
No hospital, soube da existência de outra criança iraquiana, Ahmed Farhan, que tinha perdido a perna direita e a mão esquerda na mesma guerra. A médica que cuidava de Ahmed reclamava indignada que todo mundo se sensibilizava com a história de Ali, mas ninguém fazia nada pelo outro jovem, de 14 anos.
"Também oferecemos a mesma ajuda a Ahmed", diz Khan.
"Ali e Ahmed se conheceram no hospital. Os dois foram transferidos para o Reino Unido. Tornaram-se amigos e agora são mais do que irmãos", acrescenta.
As doações arrecadadas pelo Fundo Ali se destinaram ao cuidado, à assistência e à reabilitação dos dois meninos e a seus responsáveis no Reino Unido.
Tratamento
Ali foi tratado no Hospital Queen Mary, em Roehampton, no sudoeste de Londres, especializado em pacientes amputados, onde receberam braços robóticos, que não usam sempre por serem pesados, mas sim para ir ao colégio e em atos oficiais.
Ele aprendeu a desenvolver diversas atividades com seus pés, como escrever, brincar com o computador, atender o telefone, anotar os números e até pintar. Suas obras foram inclusive expostas em Londres.
"É muito maduro, muito relaxado, muito alegre. Sempre está fazendo brincadeiras, mesmo quando estava em uma cama", declara Khan.
Ali divide um apartamento em Londres com Ahmed e com um de seus tios, estuda em um colégio particular da capital britânica e volta ao Iraque todo verão para visitar os parentes que ficaram vivos.
Visita ao Iraque
Nesta última ida ao Iraque, Ali não foi passar férias. Voltou ao para buscar o tio e cuidar dele.
"Queria retornar a Londres o mais rápido possível, mas houve problemas com o visto do meu tio que esperamos que sejam resolvidos. O governo britânico está trabalhando nisso", explica.
"Meu tio me ajuda muito em Londre, me ajuda com tudo o que preciso", acrescenta o jovem, que não possui passaporte britânico, mas acredita que deve consegui-lo ainda este ano.
Ali sente saudades de Londres, cidade da qual diz gostar muito: "Gosto do colégio, gosto dos meus amigos (...) Tudo é agradável em Londres".
Sua vida é, obviamente, mais fácil na capital britânica. "No Iraque, preciso de mais ajuda. Em Londres, tudo está adaptado para mim e posso fazer mais coisas sozinho", acrescenta.
Atualmente, Ali não precisa de tratamento, mas explica que com o tempo que já está no Iraque, aproximadamente sete meses, precisa fazer uma revisão no hospital.
Ali fala um inglês fluente, no qual se pode notar um sotaque estrangeiro. O jovem gosta de estudar, embora ainda não saiba o que gostaria de ser. "Ainda não pensei nisso", confessa.
Quando perguntado sobre as coisas que mais gosta, responde quase sem pensar "Futebol". Ele torce pelo Manchester United.
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