Com custo estimado em US$ 500 bi, Guerra do Iraque completa 5 anos
FERNANDO SERPONE
MARIANA CAMPOS
da Folha Online
Nesta quinta-feira (20) a invasão do Iraque liderada pelos EUA completa cinco anos. O número total de mortos desde o início do conflito são discrepantes. A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou, em janeiro, que o número de civis mortos violentamente desde o início da invasão oscila entre 104 mil e 223 mil. A organização não-governamental IBC (Iraq Body Count) afirma que entre 82.249 e 89.760 civis morreram desde março de 2003.
Entre 2003 e 2008, cerca de 4.000 militares americanos foram mortos --principalmente em ataques terroristas e confrontos com insurgentes-- em um conflito que já consumiu mais de US$ 504 bilhões [R$ 859,82 bilhões] dos cofres públicos americanos, de acordo com a ONG National Priorities Project, um grupo independente que visa medir os gastos governamentais em diversas áreas, os conflitos. Segundo estudo do prêmio Nobel de Economia americano Joseph Stiglitz, a Guerra deve consumir cerca de US$ 3 trilhões (R$ 5,1 trilhões) até 2010.
| Arte Folha Online |
![]() |
"O custo das operações militares americanas --sem levar em conta os gastos a longo prazo, como cuidados com os ex-combatentes-- já supera o custo da guerra do Vietnã, que durou 12 anos, e representa mais que o dobro do que custou a guerra da Coréia", segundo o livro "The Three Trillion Dollar War: The True Cost of the Iraq Conflict" ("A guerra de três trilhões de dólares: o verdadeiro custo do conflito no Iraque").
Após cinco anos, parece haver poucos ou nenhum motivo para comemorar. Um dos maiores indicativos da situação atual do país é a questão dos refugiados.
Atualmente, um em cada cinco iraquianos é classificado como refugiado. Após cinco anos em queda, os pedidos de refúgio no mundo tiveram alta em 2007, principalmente devido ao aumento do número de solicitantes iraquianos, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugidos (Acnur).
De acordo com o órgão da ONU, "pelo segundo ano seguido, os iraquianos lideraram a lista de solicitantes de refúgio nos países mais industrializados do mundo. O número de solicitantes iraquianos praticamente dobrou em um ano, saindo de 22.900 em 2006 para 45.200 em 2007".
O Acnur afirma que o conflito no Iraque fez com que 4,5 milhões de iraquianos deixassem suas casas. Destes, 2,4 milhões são deslocados internos. Outros 2 milhões estão refugiados principalmente nos países vizinhos, como Síria e Jordânia --não inclusos na lista de países mais industrializados.
Violência
No início de 2007, os EUA enviaram mais 30 mil militares ao Iraque, elevando o contingente do Exército americano no país a aproximadamente 150 mil homens. Com a intensificação do patrulhamento de Bagdá, em meados de 2007, as estatísticas indicam uma queda no número de mortos dos chamados não-combatentes desde então.
Além do aumento do número de soldados americanos, outro motivo apontado para a queda da violência no país foi a ordem dada pelo clérigo radical xiita Moqtada al Sadr -- considerado inimigo dos EUA-- para que o principal grupo armado xiita iraquiano, o Exército de Mehdi, respeitasse um cessar-fogo com as forças dos EUA e do Iraque.
Especialistas indicam, no entanto, que a situação atual é bem melhor que a registrada no mesmo período do ano passado.
De acordo com a IBC, o mês de janeiro de 2008 registrou 767 mortes --o número mais baixo desde dezembro de 2003.
Influência do Irã
Nas últimas décadas antes da guerra, o Iraque havia se firmado como um importante ator político na região. Com a invasão ocorrida em 2003, a influência iraquiana diminuiu e, consequentemente, aumentou a influência do Irã --um dos seus principais rivais.
O Irã é considerado de vital importância para a estabilidade do Iraque devido à grande influência que exerce sobre importantes setores da população xiita iraquiana.
Apesar da importância do país persa, a participação iraniana na estabilização do Iraque é rejeitada pelos EUA, que o acusam de fornecer armas para que os grupos insurgentes ataquem as forças americanas. Em janeiro de 2001, o Pentágono anunciou que reforçaria a atuação na fronteira entre Irã e Iraque. O anúncio fazia parte de uma estratégia para deter a ajuda iraniana a esses insurgentes iraquianos.
O especialista em Oriente Médio da USP (Universidade de São Paulo) e autor de, entre outros, "O Mundo Muçulmano", Peter Demant diz acreditar que a influência do Irã sobre o Iraque seja um dos pontos mais preocupantes da guerra.
"O aumento da influência iraniana pode provocar uma reação da Arábia Saudita e da Jordânia, em uma tentativa de equilibrar a situação. Tudo isso se traduz em um aumento da influência externa dentro do Iraque. Os iraquianos são pouco entusiasmados com a presença norte-americana, mas estão se preocupam com a influência em seu país", afirma Demant.
Curdistão
Apesar de os EUA divulgarem um menor número de vítimas no conflito, os atentados continuam recorrentes.
A única região que parece em relativa tranqüilidade é a Região Autônoma do Curdistão iraquiano, no norte do país, que conta com Parlamento e presidente próprios. Considerados o maior grupo étnico sem Estado do mundo, os curdos ocupam uma área de 530 mil km2 incluindo partes de Turquia, Irã, Iraque, Síria, Azerbaijão e Armênia.
Desde o ano passado, a tensão entre a Turquia e os militantes curdos aumentou. Eles se refugiam no norte do Iraque. Em fevereiro deste ano, o Exército turco entrou no Iraque para combater os militantes separatistas.
O presidente do Iraque, Jalal Talabani, afirmou que seu país não permitirá que o grupo separatista PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) utilize o solo iraquiano para atacar a Turquia.
Reconciliação
Com o fim do domínio de Saddam --da minoria sunita-- a convivência entre as diferentes etnias que vivem no Iraque se tornou praticamente impossível. O grande número de refugiados internos reflete tal situação, já que zonas habitadas por diferentes grupos passaram a se tornar homogêneas, dividas entre xiitas, sunitas e curdos.
Na terça-feira (19), uma conferência de reconciliação entre os diferentes partidos políticos fracassou no momento em que começou, com os blocos xiitas e sunitas se retirando em protesto.
O boicote pelo principal grupo sunita, pelo bloco xiita liderado por Moqtada al Sadr e por grupos menores evidenciam as profundas e persistentes divisões entre as principais etnias do Iraque, que resultaram na violência sectária que levou o país à beira de uma guerra civil.
O premiê Nuri al Maliki, xiita, questionou o patriotismo desses grupos, os acusando de quererem danificar os esforços de reconciliação do Iraque.
Maliki está sob pressão de Washington para aproveitar o momento de queda na violência para conseguir uma acomodação política entre os grupos rivais, o que iria consolidar os frágeis ganhos na área da segurança.
A reunião tinha como intenção unir uma ampla gama de grupos políticos, tribais e de líderes religiosos, para dar novo fôlego ao processo de reconciliação nacional. No entanto, um entendimento ainda parece distante, sendo a divisão dos ganhos do petróleo um dos principais pontos de discórdia.
Eleições nos EUA
Ao completar cinco anos, a Guerra do Iraque se mantém como "arma" na campanha eleitoral dos EUA. Já utilizada nos ataques entre os então candidatos George W. Bush e John Kerry, em 2004, a guerra serve hoje como "munição" para os ataques entre os pré-candidatos democratas e republicanos.
Os democratas Hillary Clinton e Barack Obama defendem uma retirada das tropas norte-americanas do país. Já o republicano John McCain apóia a permanência dos soldados e um maior compromisso militar para que os EUA tenham sucesso a médio prazo.
Neste sentido, as eleições dos EUA, que serão realizadas em novembro desta ano, poderão ser imprescindíveis para definir os rumos das tropas americanas no país e, conseqüentemente, o cenário do Iraque para os próximos anos.
Leia Mais
- Veja mapa da região do Iraque
- Conheça os principais problemas enfrentados pelo Iraque
- Veja a cronologia do Conflito no Iraque
- Saiba mais sobre o Iraque
- Veja as frases mais marcantes a respeito do conflito no Iraque
Especial


