Mundo
19/03/2008 - 17h39

Erros cometidos por Bush no Iraque beneficiam o Irã, diz analista

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MARIANA CAMPOS
da Folha Online

Cinco anos após o início da Guerra do Iraque, a influência do Irã sobre seu vizinho se expande a cada dia, e uma de suas principais causas são os erros cometidos pelo governo dos EUA no país árabe, na opinião de Peter Demant, especialista em Oriente Médio da USP e autor, entre outras obras, de "O Mundo Muçulmano".

"Pelos erros que o governo [de George W.] Bush cometeu, temos uma situação em que o Iraque está oferecido 'em uma bandeja' ao Irã, que, de forma passiva, é o beneficiário das bobagens cometidas pelo Ocidente", afirmou Demant em entrevista à Folha Online.

Arte Folha Online

"Não acho que a maioria dos iraquianos esteja feliz com o aumento da influência iraniana. Historicamente, o Irã é o grande concorrente e inimigo do Iraque. Além disso, O Irã tem ambições de se tornar grande potência regional, e um projeto expansionista religioso islâmico. Isto agrada a uma parte dos iraquianos xiitas, mas não a todos, e é completamente rejeitado pela minoria sunita e, provavelmente também, pela grande maioria dos curdos".

Na entrevista, o professor diz também que os EUA ainda não deixaram o Iraque porque isso seria conceder uma "derrota militar e política". "Eles também deixariam o país indefeso contra a influência do Irã. O Iraque até agora evitou o pior, mas vai precisar de muita sorte para se consolidar como sociedade estável e mais ou menos livre", afirma Demant.

Para o especialista, as eleições presidenciais de novembro nos EUA devem influenciar a situação iraquiana. "Acho mais importante o que o novo presidente vai fazer do que qual partido vai vencer as eleições. Neste momento, os democratas estão com mais vantagens. Barack Obama e Hillary Clinton se comprometeram com uma retirada do Iraque e isso, com certeza, mudaria o balanço das forças dentro daquele país. McCain, republicano, promete continuar com a política do Bush. Então, haverá uma influência [com as eleições]", diz.

Leia abaixo a entrevista dada por telefone à Folha Online:

Folha Online- A Guerra do Iraque completa cinco anos nesta quinta-feira (20). Na sua opinião, quais as principais mudanças que o Iraque teve nesse período?

Peter Demant- Eu diria que, em primeiro lugar, o país passou de um sistema de ditadura do governo de Saddam Hussein, para algo que não é uma democracia perfeita, mas o começo da soberania do povo e da tentativa de construir um governo pela própria população. Apesar de apontarmos algumas mudanças positivas, há também muitas negativas, e aí está a tentativa clara de não conseguir construir completamente [a democracia]. Você tem um sistema em que a população está tão dividida, e as tensões são tão grandes, que o maior problema é a segurança.

A segunda grande mudança seria a transição de um sistema em que o ditador manteve algo semelhante a uma segurança interna, mediante o uso de terror contra a própria população, para um sistema muito mais anárquico, em que há muitas armas em circulação. O governo, embora fruto de eleição, ainda não conseguiu dar à minoria -- como por exemplo os sunitas, outrora predominantes-- o sentimento de que também cuida de sua segurança. Grupos que não estão de acordo com a direção do Iraque têm a possibilidade de aterrorizar a população com ataques, bombas em supermercados, esse tipo de coisas. Isso nutre a percepção de uma guerra civil, tanto no próprio país quanto no exterior.

A terceira grande mudança é a postura internacional. Durante o período do governo de Saddam, o país foi isolado, mas mesmo assim, era um tipo de símbolo da resistência contra o Ocidente. Hoje, a situação é muito mais opaca. O governo do Iraque, que a maioria da população elegeu, é um governo pró-americano. No entanto, existem, entre a população iraquiana, fortes tendências anti-ocidentais e anti-secularistas.

Folha Online - O sr. disse que há alguns pontos positivos e outros negativos no período. Algumas dessas mudanças que o sr. citou podem ser enquadradas como positivas. Quais os principais pontos negativos desses cinco anos de guerra?

Demant- Insegurança e democratização incompleta não vejo, obviamente, como positivas, mas tal situação poderia ainda melhorar. De fato, há alguns meses, a segurança no Iraque tem inegavelmente melhorado. Entre as negativas, menciono o sofrimento humano. Ninguém sabe exatamente o número de vítimas, mas é bem além de 100 mil civis, o que é uma sangria permanente. Temos uma nova pesquisa de opinião pública mostrando que, mesmo que o otimismo esteja agora mais espalhado entre a população, a maioria dos iraquianos continua a apontar a questão da segurança como o maior desafio do país. É uma situação instável, em que cada esquina ameaça o fim da vida. É uma condição terrível para desenvolver um país.

O segundo grande ponto negativo é a influência do Irã, que se expande enormemente. E isso tem mais a ver com os erros cometidos durante a presença norte-americana, ocidental, do que com a própria invasão. Pelos erros que o governo Bush cometeu, temos uma situação em que o Iraque está sendo oferecido "em uma bandeja" para o Irã, que, de forma passiva, é o beneficiário das bobagens cometidas pelo Ocidente. Não acho que a maioria dos iraquianos esteja feliz com o aumento da influência iraniana. Historicamente, o Irã é o grande concorrente e inimigo do Iraque. Além disso, O Irã tem ambições de se tornar grande potência regional, tem também um projeto expansionista religioso islâmico. Isto agrada a uma parte dos iraquianos xiitas, mas não a todos, e é completamente rejeitado pela minoria sunita e, provavelmente também, pela grande maioria dos curdos.

Porém, o aumento da influência iraniana pode provocar uma reação da Arábia Saudita e da Jordânia, Estados árabes sunitas, em uma tentativa de equilibrar a situação. Tudo isso se traduz em um aumento da influência externa dentro do Iraque. Os iraquianos são pouco entusiasmados com a presença norte-americana, mas estão também preocupados com a influência dos vizinhos em seu país.

Folha Online- Essa influência do Irã e, possivelmente, da Arábia Saudita e Jordânia chega a ser preocupante naquela região?

Demant- Neste momento, a presença mais clara é a influência iraniana. O Irã é uma grande potência regional e é considerado uma ameaça por países árabes predominantemente sunitas, por ser persa e predominantemente xiita. Isso pode, futuramente, conduzir a uma situação em que essas potências se equilibrem entre si ou poderia produzir confrontos mais abertos. Em qualquer um desses cenários, os iraquianos pagariam o preço.

Folha Online - O sr. disse alguns pontos negativos e citou a questão da segurança. O que explica a falta de segurança e os constantes ataques no país?

Demant - Ao lado da questão da segurança, que, sem dúvida, é a mais grave, há ainda outros grandes problemas como a infra-estrutura. A população sofre com a falta de eletricidade, a renda petrolífera desaponta, o desemprego é muito grande e há milhões de refugiados. Com relação às causas do problema da segurança, acho que há dois fatores. Um deles é que a população é bastante dividida. Há três grandes grupos: os árabes-sunitas, os árabes-xiitas e os curdos e eles têm idéias completamente diferentes sobre o caminho que o Iraque tem de seguir. O outro fator é a ausência de uma cultura política de resolução não-violenta dos conflitos. Tradicionalmente, a violência tem um papel muito grande na sociedade iraquiana, e uma ditadura como a de Saddam Hussein piorou ainda mais esta tendência, mas, para uma democracia funcionar, você precisa neutralizar a violência.

Um Estado funciona pelo monopólio dos meios da violência nas mãos do Estado; um Estado democrático funciona se o Estado não usa essa violência contra seus próprios cidadãos. Em uma democracia a esfera pública é uma esfera pacífica. É o caso dos Estados Unidos e do Brasil, mas esse não é o caso do Iraque. Enquanto o Estado for fraco, há uma proliferação de grupos armados, muitos criminosos, a obtenção de armas é fácil. Com isso, mesmo grupos relativamente pequenos têm a possibilidade de extorquir ou aterrorizar outros grupos, a cidadania. E, como a cultura política inclui, no Iraque, uma cultura de honra e de vingança, pode-se facilmente descarrilar e estalar uma guerra civil. Este é o desafio.

Folha Online- Em sua opinião, por que a guerra ainda não terminou, por que os EUA ainda não deixaram o Iraque e como o sr. vê a situação norte-americana no país?

Demant- A guerra não terminou porque não há pacificação interna. Nenhuma das forças é suficientemente forte para derrotar ou dominar as outras e elas, entre si, não chegaram a um acordo estável. Se os EUA tivessem feito a invasão com meio milhão de soldados no lugar de 150 mil, provavelmente a situação teria sido diferente. O desmantelamento das forças de segurança de Saddam foi feito com boas intenções, mas deixou o país em uma situação de quase anarquia. Esta situação meio anárquica não foi resolvida. [Os EUA ainda não foram embora] porque, em primeiro lugar, seria conceder uma derrota, já que, neste momento, o Iraque não está com forças e organização interna suficientes para se auto-defender contra seus inimigos internos (como muçulmanos radicais e fascistas nostálgicos do regime de Saddam) e externos. Se os EUA saíssem, poderia haver um aquecimento da guerra civil. Muitos grupos são dependentes dos EUA. Isto leva a um absurdo: a maioria da população não gosta da presença dos soldados estrangeiros, mas também entende que sua saída imediata poderia afundar o país em uma nova crise de guerra civil, provavelmente muito pior do que havia antes. Deixar o Iraque simplesmente seria não só a pior derrota militar e política em décadas, mas também deixaria o país indefeso contra, por exemplo, a influência do Irã.

Folha Online- E como o sr. enxerga a situação dos EUA no Iraque atualmente?

Demant- Neste momento, as coisas estão indo melhor que há um ano. Os EUA mandaram um contingente extra bastante significativo de soldados e também mudaram de estratégia --o "surge". Eles conseguiram uma melhora significativa da situação de segurança. Como conseqüência disso, a população começa a voltar a uma certa normalidade, o que é uma pré-condição para melhorar a economia, a infra-estrutura, para possibilitar avanços do processo político e conciliação entre os grupos. Mas a situação continua indefinida. Há aspectos positivos e negativos e isso também vale para a presença americana.

Folha Online- O sr. acredita que, se houver uma eventual vitória do partido democrata nas eleições norte-americanas que serão realizadas em novembro, a situação do Iraque pode mudar?

Demant- Acho mais importante o que o novo presidente vai fazer do que qual partido vai vencer as eleições. Neste momento, os democratas estão com mais vantagens. Barack Obama e Hillary Clinton se comprometeram com uma retirada do Iraque e isso, com certeza, mudaria o balanço das forças dentro daquele país. McCain, republicano, promete continuar com a política do Bush. Então, haverá uma influência [com as eleições].

Obama, que se comprometeu com uma retirada norte-americana, está com as melhores cartas. Contudo, ele pensará duas vezes, porque uma retirada rápida arrisca desestabilizar tudo o que os EUA, com grande dificuldade e ao preço de perda de prestígio internacional, conseguiram construir nos últimos anos. Se a comunidade internacional abandonar completamente o Iraque, será perigoso para a população iraquiana. Mesmo que em um primeiro momento os iraquianos aplaudissem a saída das tropas, em um segundo momento eles se encontrariam com a violência interna. Agora os EUA funcionam como um guarda-chuva que mantém um frágil equilíbrio interno [no Iraque]. Se eles forem embora, os iraquianos precisarão resolver por si mesmos. Se acontecer antes da construção de um novo Exército e de uma conciliação política entre os grupos políticos iraquianos, os problemas serão mais complicados.

Folha Online- A tentativa de implantar uma democracia no Iraque era um dos objetivos do governo americano. Há algum motivo para que a democracia não tenha sido implantada efetivamente até agora no país?

Demant- Tudo depende do tipo de critério que você usa. Você pode olhar para fatores formais como a existência de partidos políticos, de liberdade de expressão, de movimento, eleições imparciais, uma lista de pré-condições institucionais. Neste caso, não é uma situação perfeita, mas foram dados grandes passos. Já aconteceram eleições nacionais e locais, há o começo do judiciário independente, uma separação de poder entre o Executivo e o Legislativo. Todas essas coisas são pré-condições para a democracia.

Neste nível, o Iraque tem traços de uma democracia, está a caminho. Por outro lado, há um problema que, para fazer funcionar uma democracia, é preciso muito mais que instituições. Precisa de uma mentalidade democrática.

Isso significa que as pessoas devem tentar resolver os problemas por barganhas e negociações e não pelo fuzil. [Significa que] escolham as soluções pacíficas, tenham uma mentalidade de tolerância para identidades diferentes, uma mentalidade pluralista para aceitar que uma sociedade seja composta por minorias diferentes. Tudo isso é imprescindível para o bom funcionamento de uma democracia. Neste ponto, o Iraque, assim como outros países árabes, têm grandes dificuldades. Isso tem a ver com sua história, grau de modernização, existência de extremismos internos, certas influências religiosas. Esses fatores complicam muito o quadro dentro do Iraque. Podemos apontar sinais otimistas, mas, por outro lado, há também fatores mais pessimistas. O Iraque até agora evitou o pior, mas vai precisar de muita boa sorte para se consolidar como sociedade estável e mais ou menos livre.

 

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