Sem consenso sobre número de vítimas, Guerra do Iraque completa cinco anos
da Folha Online
Com um custo estimado em US$ 504 bilhões [R$ 859,82 bilhões], a Guerra do Iraque completa nesta quinta-feira cinco anos. Durante este período, cerca de 4.000 militares norte-americanos morreram, principalmente em ataques terroristas e confrontos com insurgentes. Não há consenso, no entanto, quanto ao número de civis mortos.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou, em janeiro, que o número de civis mortos violentamente desde o início da invasão oscila entre 104 mil e 223 mil. Já a organização não-governamental IBC (Iraq Body Count) afirma que entre 82.249 e 89.760 civis morreram desde março de 2003.
Um dos maiores indicativos da situação atual do país é a questão dos refugiados. Atualmente, um em cada cinco iraquianos é classificado como refugiado. Após cinco anos em queda, os pedidos de refúgio no mundo tiveram alta em 2007, principalmente devido ao aumento do número de solicitantes iraquianos, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugidos (Acnur).
O Acnur afirma que o conflito no Iraque fez com que 4,5 milhões de iraquianos deixassem suas casas. Destes, 2,4 milhões são deslocados internos. Outros 2 milhões estão refugiados principalmente nos países vizinhos, como Síria e Jordânia --não inclusos na lista de países mais industrializados.
Discurso
| 19.mar.2008/Gerald Herbert/AP |
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| Em discurso, Bush defendeu a guerra, que completa cinco anos |
Mesmo diante de tal cenário, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, defendeu nesta quarta-feira (19) a guerra em discurso no Pentágono. Segundo ele, a intervenção norte-americana foi "muito bem-sucedida" e fez com que o "primeiro grande país árabe se levantasse contra [o líder da rede Al Qaeda] Osama Bin Laden".
O discurso foi um dos muitos eventos organizados pelo governo dos EUA para marcar os cinco anos da intervenção no Iraque. A data iniciou uma nova rodada de debates sobre o conflito, e sobre uma possível retirada das tropas pelo novo presidente. Bush classificou as discussões como "compreensíveis", mas insistiu que a manutenção das tropas dos EUA no Iraque é "crucial".
Também ontem, mais de 160 pessoas foram detidas nos Estados Unidos em protestos para marcar o quinto ano do início da invasão americana no Iraque. Os manifestantes foram acusados de bloquear ruas e impedir o acesso a prédios oficiais.
Eleições
O quinto aniversário da invasão do Iraque rendeu repercussão pelo mundo e dentro dos EUA. Os pré-candidatos à Presidência aproveitaram a data para atacar um ao outro. Os democratas Barack Obama e Hillary Clinton --que defendem uma retirada das tropas do país-- criticaram o provável candidato republicano John McCain, que baseou sua campanha no sucesso do conflito.
Quando a corrida pela Presidência começou, o Iraque era visto como a principal questão entre os pré-candidatos, que acreditavam que o desenrolar do conflito seria decisivo para a escolha dos eleitores.
Irã
De acordo com o especialista em Oriente Médio da USP e autor, entre outras obras, de "O Mundo Muçulmano", Peter Demant, a influência do Irã sobre o Iraque, cinco anos após o início da guerra, se expande a cada dia, e uma de suas principais causas são os erros cometidos pelo governo dos EUA no país árabe.
"Pelos erros que o governo [de George W.] Bush cometeu, temos uma situação em que o Iraque está oferecido 'em uma bandeja' ao Irã, que, de forma passiva, é o beneficiário das bobagens cometidas pelo Ocidente", afirmou Demant em entrevista à Folha Online.
| Arte Folha Online |
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"Não acho que a maioria dos iraquianos esteja feliz com o aumento da influência iraniana. Historicamente, o Irã é o grande concorrente e inimigo do Iraque. Além disso, O Irã tem ambições de se tornar grande potência regional, e um projeto expansionista religioso islâmico. Isto agrada a uma parte dos iraquianos xiitas, mas não a todos, e é completamente rejeitado pela minoria sunita e, provavelmente também, pela grande maioria dos curdos".
Na entrevista, o professor diz também que os EUA ainda não deixaram o Iraque porque isso seria conceder uma "derrota militar e política". "Eles também deixariam o país indefeso contra a influência do Irã. O Iraque até agora evitou o pior, mas vai precisar de muita sorte para se consolidar como sociedade estável e mais ou menos livre", afirma Demant.
Demant também afirma que a implantação de uma democracia no Iraque esbarra na falta de uma "mentalidade democrática" necessária para completar o processo. "Tradicionalmente, a violência tem um papel muito grande na sociedade iraquiana, mas, para uma democracia funcionar, você precisa neutralizar essa violência", disse.
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