Cristina recusa diálogo com produtores antes de suspensão de locaute
da Folha Online
A presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, se recusou nesta quinta-feira a dialogar com os fazendeiros argentinos se o locaute, iniciado há 15 dias após um aumento de impostos sobre exportações, não for suspenso.
Em discurso transmitido pela televisão, Cristina recusou a proposta de diálogo feita pelos milhares de produtores rurais qualificando os bloqueios rodoviários --que criaram uma crise de abastecimento no país- de um ataque contra todos os argentinos.
| Ricardo Santellán /Efe |
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| Produtores agropecuários bloqueiam estrada como protesto contra aumento de impostos de exportações, em Gualeguaychú, Argentina |
"Dialogar com uma pistola apontada para a cabeça é muito difícil, ainda mais em uma democracia", disse a presidente. "Esse locaute não é contra o governo, mas contra a população."
"Quero convocar todos os argentinos ao diálogo. Peço a vocês, humildemente, como presidente de todos os argentinos, que suspendam a greve para que possamos sentar e dialogar", discursou Cristina diante de milhares de partidários em um centro de convenções de Buenos Aires.
Em seu segundo discurso sobre a crise, Cristina declarou que "não pode haver diálogo se as medidas de greve não forem suspensas (...) acabem com a greve, e conversamos".
"É necessário, e não por uma questão de força ou orgulho, que uma presidente não tenha que negociar sem que as medidas de força tenham sido suspensas", afirmou, sob aplausos dos presentes.
Impasse
Um decreto presidencial emitido no dia 11 de março aumentou os impostos em 35% a 45% e criou novas taxas sobre exportações, sob a justificativa de conter a crescente inflação.
Mais cedo nesta quinta, os quatro grupos de produtores que lideram o locaute emitiram um comunicado afirmando estarem abertos ao diálogo e instaram a presidente a ceder terreno no crescente impasse.
| Héctor Rio /Efe |
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| Manifestantes bloqueiam estrada em Pujato,a 300 km de Buenos Aires; locaute já causa desabastecimento em grandes cidades |
Durante o discurso de Cristina, os fazendeiros nos bloqueios pelo país fizeram sinais de "não" às demandas da presidente. Logo após o pronunciamento, eles reacenderam o fogo em pneus e disseram que continuarão o locaute e os bloqueios indefinidamente --apesar da crescente falta de carne, óleo de cozinha, leite e outros produtos agrícolas pelo país.
O discurso de Cristina "muda as expectativas", disse Hugo Biolcati, vice-presidente da Sociedade Rural Argentina, um dos maiores grupos de produtores. Os líderes do movimento devem se reunir para definir os próximos passos, acrescentou.
Crescimento
Na capital Buenos Aires, centenas de manifestantes realizaram pela terceira noite seguida um panelaço em apoio aos fazendeiros.
Cristina disse que os fazendeiros tiveram grandes lucros com a alta dos preços das commodities durante meia-década de crescimento anual acima dos 8%, e agora devem dividir esses ganhos com o resto do país para ajudar a distribuir a riqueza aos pobres da Argentina.
"O campo cresceu, a indústria se recuperou, e os trabalhadores recuperaram postos de trabalho e ganhos perdidos", afirmou a presidente. "Todos nós devemos dividir harmoniosamente esse crescimento. É a única forma de erradicar a fome e a pobreza entre o nosso povo."
O locaute, que entrou em sua terceira semana, paralisou o terceiro maior exportador de soja --atrás dos EUA e do Brasil--, e um dos maiores exportadores de carne e trigo. No entanto, não há relatos de grandes incidentes violentos, além de brigas nos bloqueios e em Buenos Aires e de enormes congestionamentos.
Com Associated Press e France Presse
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