Comissão Eleitoral adverte oposição por proclamar vitória no Zimbábue
da Efe, em Harare
da Folha Online
A Comissão Eleitoral do Zimbábue pediu neste domingo que a oposição deixe de divulgar dados sobre as eleições de ontem, das quais diz ter saído vencedora. O órgão também ressaltou que apenas autoridades eleitorais podem fazer anúncios sobre o pleito.
"Os resultados anunciados não são oficiais, porque os dados estão sendo processados", informou em um comunicado oficial o presidente da comissão, Lovemore Sekeramayi.
"A comissão vê com preocupação o fato de algumas partes estarem anunciando supostos resultados", acrescentou o órgão.
| Mike Hutchings/Reuters |
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| Em coletiva, secretário-geral do MDC, Tendai Biti (foto) disse que oposição está à frente |
O oposicionista Movimento para a Mudança Democrática (MDC) afirmou neste domingo que, de acordo com dados próprios, obteve a vitória nas eleições gerais de ontem, nas quais o presidente zimbabuano, Robert Mugabe, no poder desde 1980, tentou a reeleição. O anúncio do MDC foi feito em entrevista coletiva concedida pelo secretário-geral do partido, Tendai Biti.
"Ganhamos essas eleições acima de qualquer dúvida", afirmou o dirigente político.
No entanto, até o meio-dia (7h de Brasília) de hoje, nem o presidente do MDC nem o candidato da legenda, Morgan Tsvangirai, tinham feito comentários oficiais a respeito.
O governo, por meio do porta-voz George Charamba, afirmou que, se Tsvangirai se proclamar vencedor das eleições antes do anúncio do resultado oficial, a atitude poderá "ser considerada um golpe de Estado". "E todos sabemos como agir diante de golpes de Estado", advertiu Charamba em declarações publicadas hoje pelo jornal estatal "Sunday Mail".
Os primeiros dados dispersos sobre a apuração dão a vitória ao MDC, mas o resultado ainda é parcial e os votos apurados são de regiões urbanas, nas quais o partido é mais forte.
Votação
Cerca de 9.000 postos eleitores foram montados neste sábado para que cerca de 5,9 milhões de eleitores registrassem seus votos. No entanto, segundo Biti, apenas cerca de 3,5 milhões votaram, porque o número total incluíam pessoas mortas ou nomes fictícios. Além disso, parte da população vive exilada devido à questões políticas ou ao colapso econômico no país.
| Efe |
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| População confere resultados das eleições fixados em mural no subúrbio de Harare |
Os eleitores tiveram 12 horas para escolher pela primeira vez seu presidente, além de eleger 210 legisladores, 60 senadores e 1.600 conselheiros locais. O governo impediu que jornalistas estrangeiros e observadores dos EUA e da União Européia acompanhassem as eleições.
O Zimbábue sofre com a maior inflação mundial, de mais de 100.000%, além da falta de alimentos e combustíveis e da epidemia de Aids, que diminui a expectativa de vida.
Ao registrar seu voto ontem em Harare, Mugabe disse aos repórteres que estava "confiante na vitória", mas que aceitaria uma derrota. "Por que eu trapacearia? O povo é nosso apoio. Quando a população pára de apoiá-lo, é a hora de deixar a política", afirmou ele.
Mugabe atribui o colapso econômico ao antigo colonialismo britânico, e às nações ocidentais.
Disputa
O ditador enfrenta o maior desafio de seus 28 anos de poder, com a oposição do veterano Morgan Tsvangirai e do o ex-ministro das Finanças e candidato independente Simba Makoni.
Apesar da situação grave no país, muitos analistas diziam que Mugabe deveria ganhar.
No entanto, seus dois opositores --que o acusavam de planejar fraudar as eleições-- diziam acreditar que poderiam derrotá-lo, devido ao colapso econômico que levou até mesmo os redutos mais tradicionais de eleitores de Mugabe, nas áreas rurais do país, à miséria.
Se nenhum dos candidatos tiver alcançado 51% dos votos na votação deste sábado, haverá segundo turno, e provavelmente os dois partidos de oposição se unirão, ganhando força.
Neste sábado, unidades da polícia e do Exército em veículos blindados patrulharam as ruas.
"Isso é intimidação, mas não nos sentiremos acuados. Não temos nada a perder, mas temos fome", disse o eleitor Samuel Furutsa em um posto de votação em Mufakose (Harare).
Reforma
No início desta década, Mugabe empreendeu uma vasta reforma agrária que expropriou mais de 3.000 fazendas, tiradas de produtores brancos para serem dadas a camponeses negros.
No entanto, a reforma agrária foi tão caótica que, juntamente com outros fatores, gerou a pior crise financeira da história, que além da inflação de 100.000%, sofre com uma taxa de desemprego de aproximadamente 80%.
"Quero votar porque estive desempregado nos últimos cinco anos e quero um partido que consiga gerar empregos", disse Moses Dong, 29, ao votar neste sábado.
Por sua vez, a vendedora Betty Gwae, 51, declarou que estava indo às urnas para poder criar seus filhos. "Quero votar no partido que dê alimentos e uma casa para minha família".
"Eu voto pela mudança, e rezo por eleições livres e justas. Só assim o país poderá progredir", disse Richard Mutedzi, 25, mecânico que votou em Chitungwiza, 30 km ao sul de Harare. Ele diz que foi forçado a vender bens para sobreviver, porque não consegue um emprego.
"Eu vim votar porque as coisas vão muito mal, talvez essas eleições possam ajudar a mudar isso", disse um segurança de 35 anos que não quis se identificar. Ele havia caminhado por mais de duas horas para chegar ao posto eleitoral em Harare.
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