Mundo
01/04/2008 - 17h06

Raúl Castro inicia mudanças na agricultura para produzir mais alimentos

CARLOS BATISTA
da France Presse, em Havana

Entrega maciça de terras ociosas, melhores preços para os produtores e descentralização das decisões: esse é o tripé da nova reforma agrária empreendida pelo líder Raúl Castro em Cuba para aumentar a produção de alimentos.

As Delegações de Agricultura, que serão constituídas até 10 de abril nos 169 municípios do país, são consideradas as peças-chave no processo de descentralização de decisões.

A partir de "um novo conceito", essas delegações "terão poder para tomar decisões e assumir responsabilidades", segundo o jornal oficial "Granma".

Segundo Fidel e Raúl Castro, "os problemas atuais da sociedade cubana requerem respostas mais variadas para cada problema concreto que as contidas em um tabuleiro de xadrez", o que explica a "municipalização" das soluções.

Dos 3,5 milhões de hectares cultiváveis da ilha, 32,6% pertencem a pequenos proprietários ou Cooperativas de Produção Agropecuárias (CPA), 42% às Unidades Básicas de Produção Cooperativa (UBPC, cooperativas em terras estatais) e o restante, a empresas estatais.

Contudo, dessa superfície, "51% estão ociosas ou exploradas de forma insuficiente", segundo fontes oficiais --um grave problema num momento de alta dos preços internacionais dos alimentos, cuja importação custa à ilha 1,5 milhão de dólares por ano.

Medidas

"Já começou a entrega maciça de terras ociosas", disse à televisão Orlando Lugo Fonte, membro do Conselho de Estado e presidente dos agricultores privados (ANAP), que anunciou aumento dos preços vigentes na compra de produtos que vão de batata e outros tubérculos, a leite, hortaliças, café e coco.

O preço de compra do leite subiu em 150% na moeda nacional e dois centavos de dólar por litro. "Estamos estimulados", disse o fazendeiro Angel Valdés, de Mariel (50 km de Havana). Ouvido sobre a repercussão das novas medidas, Valdés afirma "que está ocorrendo aos poucos, mas já há mudanças".

Silvino Valdés, da cooperativa de Güira de Melena (45 km ao sul de Havana), comentou que "com esse novo sistema de benefício aos preços dos cultivos, a força de trabalho se estabiliza".

As terras ociosas são estatais e muitas vezes cobertas pelo marabu, uma árvore de madeira muito dura que se reproduz com facilidade, criando verdadeiros bosques impenetráveis. Essas terras são entregues para cooperativas, pessoas particulares e algumas UBPC.

O caso mais difícil parece estar justamente com as UBPC. Criadas em 1993 como parte das reformas, existem 1.300 que ocupam 42% da terra.

O vice-ministro da Agricultura, Alcides López, anunciou que as UBPC "irão receber um crédito específico que lhes permitirá aumentar a capacidade técnica, cumprir normas produtivas mais altas e criar futuras estruturas para a compra dos insumos necessários".

Além disso, está autorizada pelas administrações a criação de "mecanismos internos de pagamento mais atrativos para especialistas e técnicos, que atualmente emigram para as cidades", disse.

Isso significa que as UBPC irão comercializar diretamente com as comunidades próximas, reduzindo a participação de empresas intermediárias, que se tornaram prestadoras de serviço das cooperativas.

 

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