Para professor, vitória democrata não mudaria política no Iraque
FERNANDA BARBOSA
Colaboração para a Folha Online
A política adotada pelos Estados Unidos no Iraque não deve sofrer mudanças radicais no caso de uma vitória democrata nas eleições de 4 de novembro, na opinião do venezuelano Rafael Villa, que é doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Departamento de Ciência Política da instituição.
"Em nenhuma hipótese as tropas [dos EUA] serão retiradas de imediato. Há uma sensação de que pode ser pior sem elas, de que a violência pode piorar. Além disso, certamente que nenhum governo está disposto a assumir o ônus de passar por nova derrota frente à opinião pública", disse o professor, em entrevista por telefone à Folha Online nesta quinta-feira.
| AP |
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| O republicano John McCain (à esq.) e os democratas Barack Obama e Hillary Clinton |
Para o especialista, que é coordenador do núcleo de pesquisas da instituição sobre a Agenda dos EUA para a América Latina, a política do país para o Brasil também deve continuar similar à atual.
"No momento, ambos [os partidos] têm a mesma posição favorável em relação à Alca, e concordam em estabelecer parcerias no campo tecnológico e dos biocombustíveis com o Brasil. Eles também concordam que o Brasil desempenha um papel importante em assuntos relacionados às relações com a América do Sul", explica o professor.
Em relação à possível saída de Hillary da disputa, discutida por líderes do Partido Democrata durante esta semana, Villa disse que a escolha do comitê da senadora vai depender dos resultados das próximas primárias. No entanto, para ele, não bastará à ex-primeira-dama vencer os próximos pleitos democratas. Ela precisará se cercar do apoio de superdelegados para chegar forte à Convenção Nacional do partido, que ocorrerá em agosto em Denver.
Na entrevista, Villa disse ainda que a candidatura de John McCain é vista como a "mais democrata" entre os republicanos, e que, embora durante a campanha ele defenda a permanência das tropas americanas no Iraque, é possível que se torne, mais tarde, "um outro McCain", que obedeça até mesmo a um "cronograma para a retirada das tropas."
Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida à Folha Online:
Folha Online - As relações dos Estados Unidos com o Brasil podem mudar de acordo com o partido que vença as eleições gerais de novembro?
Rafael Villa - Eu não sei se vai existir alguma posição diferente. Isso só aconteceria se mudasse a política do país em relação à América Latina, mas isso independe da vitória dos democratas ou republicanos. No momento, ambos tem a mesma posição favorável em relação à Alca e concordam em estabelecer parcerias no campo tecnológico e dos biocombustíveis com o Brasil. Eles também concordam que o Brasil desempenha um papel primário principal em assuntos relacionados às relações com a América do Sul. Não vejo que possamos falar em grandes mudanças. Por outro lado, as políticas em relação à América Latina não foram abordadas até agora nas primárias pelos pré-candidatos. Não há propostas muito específicas, elas existem apenas em relação a temas mais preocupantes para os norte-americanos. Não para uma região [a América Latina] que normalmente é consenso.
Folha Online - Além da Guerra do Iraque, existe outro ponto da política externa sobre o qual os partidos divergiriam?
Villa - Talvez um governo democrata faça coisas diferentes, como a exportação da democracia por meio do multilateralismo, e use menos a força que no governo Bush. Ou seja, usando mecanismos internacionais, reforçando o poder da ONU e das instituições ligadas ao comércio. Isso sim tende a ser diferente. De maneira global, essa é a maior discordância entre os partidos. Também tem que levar em conta que a candidatura do McCain é vista como a "mais democrata" dos candidatos republicanos. Então, pode ser que McCain queira melhorar a imagem do uso do poder pelos EUA e pelos governos republicanos. Ele também tende a afirmar os princípios do multilateralismo e das políticas que não utilizem a força.
Folha Online - Isso ocorre mesmo nos discursos em que McCain reafirma sua postura conservadora, defendendo a permanência das tropas norte-americanas no Iraque?
Villa- Na verdade, ele está jogando para uma parte do público republicano, a ala conservadora. McCain sabe certamente que precisa desse apoio. Então, passada a campanha eleitoral, caso venha a ser eleito, é possível que nós tenhamos um outro McCain, que obedeça a um cronograma para a retirada das tropas.
Folha Online- Ainda em relação ao Iraque, uma saída das tropas não significaria uma derrota como foi, por exemplo a Guerra do Vietnã? Como os democratas lidariam com isso?
Villa- Eu não acredito que, no momento, as tropas sejam retiradas. Os Estados Unidos e o governo Bush sempre esperaram um melhor momento em relação ao Iraque, sempre do ponto de vista militar. Agora eles tem conseguido diminuir a violência. Isso teria um efeito independentemente de o governo ser republicano ou democrata.
Em nenhuma hipótese as tropas serão retiradas de imediato. Há uma sensação de que pode ser pior sem elas, que a violência pode piorar. Além disso, certamente que nenhum governo está disposto a assumir o ônus de passar por nova derrota frente à opinião pública.
Folha Online- A disputa entre Hillary e Obama pode prejudicar o Partido Democrata em relação a McCain, já que o republicano tem mais tempo para se preparar para as eleições gerais?
Villa- Isso [a disputa interna] sempre gera ressentimentos. Mas imagino que há um esforço por parte de ambos os candidatos em diminuir o tom mais agressivo da campanha. Agora, de qualquer maneira, não vai ser fácil ganhar de McCain. Entre os republicanos, ele é o candidato que possui mais perfil de um democrata. E certamente vai disputar pontos frente a um eleitorado crescentemente democrata. Haverá simpatia com suas propostas. Agora, por outro lado, deve ser levado em conta que, se Obama confirmar sua trajetória ascendente, a populações latino-americana e negra podem vê-lo como um fator real de mudança, como uma nova liderança. Aí, talvez Obama não tenha concorrentes, independentemente da campanha forte no interior do partido democrata e independentemente do perfil político de McCain que o aproxima bastante dos pré-candidatos democratas.
Folha Online - O Obama tem dito, na campanha, que seria o candidato da união nacional, e mas o sr. afirmou que o McCain também tem esse poder...
Villa- Isso é, na verdade, uma estratégia inteligente do comitê de Obama. Se ele conseguir passar de maneira forte esse sentimento para a população, de que conseguirá ser um candidato de união nacional, aí não terá como impedir sua vitória. Porém, por outro lado, há também outras questões que são pontos fortes de Obama, como ter um discurso em relação aos historicamente excluídos dos Estados Unidos, como os negros, mas isso também pode ser um ponto fraco, porque ele pode ser preterido por uma outra parte da população.
Folha Online- Nesse caso, as opiniões de Obama podem prejudicá-lo em um suposto pleito nacional, em relação à população mais conservadora dos Estados Unidos?
Villa- Entre os mais conservadores sim. Isso pode prejudicar. Mas o comportamento da sociedade americana é interessante. Em alguns Estados, como na conservadora Carolina do Sul, onde não se via nenhuma chance para Obama no início da campanha, ele venceu, à frente de candidatos da própria região. Essa é uma informação importante a se levar em conta, pois talvez uma parcela da população conservadora estaria disposta a dar uma chance à Obama em torno de uma política mais concreta de mudança.
Folha Online- Tanto Obama como Hillary carregam esse lema da mudança. Obama seria o primeiro presidente negro e Hillary a primeira presidente mulher. Além disso, a ex-primeira-dama apresenta um apelo muito forte à população hispânica. Isso representa alguma mudança na sociedade norte-americana?
Villa- Eu não estou convencido de que seja uma mudança social. Estou mais convencido de que sejam propostas de novas lideranças, que fazem sentido em alguns setores específicos da sociedade e demonstram a identificação dos candidatos com novas propostas, mas, ao mesmo tempo, isso diz respeito ao crescimento de uma parcela do eleitorado muito importante hoje em dia nos EUA. E, nisso, talvez Obama tenha um diferencial maior, em razão de seu discurso para a população negra, que talvez vá além da disputa eleitoral. Ele apresenta um projeto maior de inclusão, de participação, desses setores.
Folha Online- Mas esse projeto de Obama parece concreto ou não passa de retórica?
Villa- Isso é mais difícil de avaliar. Mas essa população confere a Obama um projeto mais definido para isso ou, pelo menos, com intenção de mudança mais forte do que Hillary. E é possível ver isso por meio das intenções de voto nos Estados, principalmente no sul do país.
Folha Online- As próximas primárias na Pensilvânia [que ocorrem no dia 22 de abril] são cruciais para Hillary. Nesta semana, surgiram especulações sobre uma possível saída da pré-candidata da disputa. A senadora diz que vai continuar, mas ela tem forças para isso?
Villa- Isso vai depender das próximas primárias. Se ela entrar em uma seqüência de derrotas, pode não resistir à pressão que está sendo feita por um grupo de notáveis do Partido Democrata. Mas isso vai depender das próximas votações, que para ela são vitais.
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Especial



Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
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Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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