Mundo
09/04/2008 - 17h26

Para analista, Colômbia deve libertar os 500 guerrilheiros das Farc

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FERNANDO SERPONE
da Folha Online

O governo colombiano deveria libertar de forma unilateral os cerca de 500 guerrilheiros Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) detidos, já que se recusa a atender ao pedido da guerrilha de desmilitarizar uma zona do país para uma troca dos presos por reféns do grupo. A opinião é de Alfredo Rangel, diretor da Fundação Segurança e Democracia, com sede em Bogotá.

A libertação unilateral, segundo Rangel, também seria útil porque eliminaria a necessidade de "mediações incômodas como a do presidente [da Venezuela] Hugo Chávez" na troca. O especialista em segurança afirma ainda que a medida eliminaria a necessidade de desmilitarizar os municípios de Pradera e Florida, e que a maioria dos guerrilheiros presos não deverá voltar a integrar o grupo quando recuperar a liberdade.

Em entrevista à Folha Online na terça-feira (8), Rangel disse não acreditar que a franco-colombiana Ingrid Betancourt, refém das Farc há mais de seis anos, irá morrer nas mãos da guerrilha. "A maioria (dos reféns) consegue sobreviver na selva, e pressupõe-se que esses seqüestrados, que são tão especiais para a guerrilha, vão ter uma atenção médica mais disponível para mantê-los com vida, que é o que interessa à guerrilha. Eles querem utilizá-los como uma moeda de câmbio para pressionar pela liberação de seus próprios guerrilheiros presos."

Para Rangel, o envio de uma força preventiva da ONU às fronteiras da Colômbia seria útil para evitar que o governo de outros países, como o da Venezuela e do Equador, ofereçam abrigo e proteção à guerrilha colombiana em seu próprio território.

Leia a íntegra da entrevista com Rangel:

*

Folha Online - O governo da Colômbia se recusa a criar uma zona desmilitarizada (pré-requisito das Farc para uma troca humanitária). As Farc dizem que não fazem mais libertações unilaterais. O senhor escreveu que a solução é "libertar de imediato todos os guerrilheiros das Farc, sem exigir como condição que a guerrilha libere primeiro os seqüestrados". Não seria uma medida perigosa?

Alfredo Rangel - O governo já se ofereceu para libertar todos os guerrilheiros que estão nas prisões do país, no momento em que ocorrer a troca humanitária. O ponto é que a imensa maioria dos guerrilheiros nas prisões não quer regressar à guerrilha. Nesse sentido, essa libertação unilateral por parte do governo não suporia um fortalecimento [das Farc]. Em segundo lugar, seria uma forma de o governo acabar com qualquer desculpa da guerrilha para manter os seqüestrados. Já não haveria esse instrumento de pressão para se obter a libertação dos guerrilheiros. Além disso, acabaria-se com o problema da retirada [militar de determinadas áreas], que é o principal tema no qual a guerrilha e o governo não conseguem chegar a um acordo. E também acabariam algumas possibilidades de mediação que aparecem para o governo colombiano como incômodas, como a do presidente [da Venezuela, Hugo] Chávez no tema. Assim, o governo resolveria várias questões com apenas uma medida. Mataria vários pássaros com apenas um tiro.

Folha Online - O senhor não crê que a guerrilha criaria outras desculpas para não libertar os reféns?

Rangel - Eu não creio nisso, porque, se você ver o comunicado de hoje, a guerrilha diz que o que lhes interessa é a liberação dos presos. No segundo parágrafo, eles afirmam: "Os guerrilheiros presos são a nossa prioridade".

Folha Online - E por que a grande maioria dos presos não quer voltar à guerrilha?

Rangel - Há um movimento nas prisões da Colômbia, que não tem muita projeção, é quase clandestino, que está formado para unir ex-guerrilheiros que manifestaram ao governo colombiano sua intenção de não regressar à guerrilha caso sejam libertados.

Folha Online - O senhor crê que a política de indenização a informantes e de apoio a desmobilizados possa ser satisfatória? Na semana passada, um guerrilheiro desmobilizado afirmou que o dinheiro fornecido pelo governo é pouco, e que se ele tivesse parentes na Venezuela, não se desmobilizaria e teria ido trabalhar no país.

Rangel - Há recursos no reservados para os desmobilizados que são escassos. Os desertores, se colaboram com o governo fornecendo informações, como a localização de alguns chefes, recebem uma quantia maior. Mas, claro, só pelo fato de se desmobilizarem, não recebem somas tão altas. O atrativo da desmobilização é reiniciar uma vida normal, não com muito dinheiro, mas recuperar a liberdade e a possibilidade de refazer a vida, retornar à família, etc. Não é especificamente pelo dinheiro que eles vão renunciar à guerrilha.

Folha Online - Esse mesmo desmobilizado afirmou que os seqüestros mais lucrativos ocorrem na Venezuela. Quais são os riscos que a guerrilha cria aos países vizinhos?

Rangel - Já se sabe que, na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, a guerrilha tem realizado seqüestros de maneira sistemática nos últimos anos. Igualmente, há um risco muito alto devido ao narcotráfico. A Venezuela se tornou um dos principais países de passagem do tráfico procedente da Colômbia, e a guerrilha também participa. Outros riscos são o contrabando e a corrupção. Muitas coisas que a guerrilha faz, tanto na Colômbia quanto na Venezuela, é através da corrupção de agentes do Estado desses países.

Folha Online - O senhor crê que esses problemas na fronteira com a Venezuela ocorrem também nas fronteiras da Colômbia com outros países, onde as Farc também estão presentes?

Rangel - Eles se manifestam de formas distintas em outros lugares, mas creio que tudo isso ocorre também nas fronteiras com a Venezuela e com o Equador.

Folha Online - O que significaria a morte de Ingrid Betancourt para a imagem da guerrilha?

Rangel - [A morte] seria um desastre para a guerrilha, pois ficaria mais uma vez em evidência que a guerrilha não tem nenhum sentido humanitário, nenhuma consideração aos direitos humanos na Colômbia. E ficaria também em evidência perante o mundo que são centenas de pessoas tratadas pela guerrilha de maneira subumana, próxima à tortura. A guerrilha apareceria como ela realmente é: uma violadora sistemática do direito internacional humanitário.

Folha Online - O senhor crê que há esse risco [de morte]?

Rangel - Não creio tanto. Sempre há um risco, pelas condições difíceis em que [Betancourt] está na selva, com atenção médica precária, mas são muitos escassos os casos de seqüestrados que morreram nas mãos da guerrilha por falta de atenção. A maioria consegue sobreviver na selva, e pressupõe-se que esses seqüestrados, que são tão especiais para a guerrilha, vão ter uma atenção médica mais disponível para mantê-los com vida, que é o que interessa à guerrilha. Eles querem utilizá-los como uma moeda de câmbio para pressionar pela liberação de seus próprios guerrilheiros presos.

Folha Online - Se a maioria dos presos atuais não quer voltar à guerrilha, por que as Farc têm tanto interesse em que eles sejam libertados?

Rangel - A guerrilha não subestima a decisão dos guerrilheiros que estão no cárcere. Provavelmente, ela crê que é um problema de propaganda do governo, e acha que tem capacidade para pressioná-los para regressarem às fileiras. Há ainda o compromisso público frente a todas suas tropas, de liberar os guerrilheiros que estão no cárcere. Por todas essas razões, obviamente, a guerrilha insiste nas libertações.

Folha Online - O que conferiu visibilidade internacional ao conflito armado colombiano recentemente? Apenas o fato de Ingrid Betancourt ser franco-colombiana?

Rangel - Esse é um fator que, obviamente, projetou o conflito internacional ao mundo. Ao estar na origem de problemas fronteiriços com os vizinhos, por um lado, e por outra parte por estar relacionado com o narcotráfico, que é um problema de primeira ordem na agenda internacional, ganhou bastante visibilidade internacional. Mas creio que, através dos meios (de comunicação), recentemente, o mais significativo tem sido o tema de Ingrid Bentancourt, que é o que o mantém o tema nas primeiras páginas de muitos setores da imprensa internacional.

Folha Online - Creio que também há o fator Chávez...

Rangel - Com certeza, ele é parte dos problemas com os vizinhos.

Folha Online - Qual é a sua opinião sobre o envio de uma força preventiva da ONU às fronteiras colombianas?

Rangel - Seria uma medida útil para evitar que o conflito colombiano se estenda até as fronteiras de outros países, e para evitar que o governo de outros países, como o da Venezuela e do Equador, ofereçam abrigo, proteção e resguardo à guerrilha colombiana em seu próprio território.

Folha Online - Como o senhor caracteriza as Farc hoje?

Rangel - As Farc continuam a ser um partido político armado, que, apesar de usar métodos criminosos e bárbaros para se financiar e pressionar por resultados políticos, tem uma orientação ideológica e um propósito político que não se desfez, apesar das relações como narcotráfico e com o crime organizado nos últimos anos.

Comentários dos leitores
Jorge Bronze (42) 02/12/2009 07h58
Jorge Bronze (42) 02/12/2009 07h58
JR, você deveria dizer que os votos estão sendo comprados juntamente com suas consciências. Os bolsas diversas não dignificam ninguém, apenas resolvem num momento o seu problema, este desgoverno pretende criar mais dois bolsas, o da cultura e o do celular, isso se chama compra de voto, e o PT é PHD nisso, agora falar em 3º mandato para o imcomPeTente, é exatamente fazer o que o lixo do Zelaia iria fazer, se perpetuar no poder como alguns idiotas estão querendo fazer na América Latina, simplificando alguns são cópias baratas do Hugo Chavez e este por sua vez é uma planta nascida do esterco da revolução cubana. Este governo, tem sim laços de amizade com as FARC, pois guerrilheiro defende guerrilheiro, o caso mais conhecido neste governo é a Dilma, que era também colega do heroi do PT "Lamarca", guerrilheiro assassino cruel, assaltante de bancos, (aliás a Dilma também foi), sequestrador, ladrão de armas do exército, desertor, e ainda assim sua familia recebeu mais de um milhão de indenização mais a pensão de coronel. sem opinião
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Ricardo Perrone (48) 12/11/2009 11h26
Ricardo Perrone (48) 12/11/2009 11h26
O Governo colombiano não deveria exercer esse tipo de artifício para capturar assassinos, bandidos ou guerrilheiros. Pagar recompensa é um estímulo a práticas detestáveis do caráter humano, como: ganância, traição e mentira. O governo deveria pegar o valor de tal recompensa e empregar nas atividades investigativas da polícia ou mesmo em sua modernização. O Estado deve ter por meta estimular o bom comportamento na sociedade, banindo práticas detestáveis mesmo que sejam por uma boa causa. 5 opiniões
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O Pacificador (232) 12/11/2009 11h03
O Pacificador (232) 12/11/2009 11h03
"Governo colombiano oferece US$ 1 milhão pelos assassinos de soldados do país..."
Nem precisava tanta grana.
Quem pode entregar os "cabeças" das Farc, é só gente interna mesmo.
Por dinheiro, que a verdadeira ideologia deles, esses "guerilheiros", fazem qualquer coisa.
Como já mostraram antes que são capazes, cortando até as maos de um líder da guerilha, para comprovar sua eliminação.
Uma fração do oferecido, teria sido mais do que sufiente...
sem opinião
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