Mundo
10/04/2008 - 11h01

Iraque pode prejudicar McCain em corrida nos EUA, diz professor

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MÁRCIA SOMAN MORAES
Colaboração para a Folha Online

A entrada da Guerra do Iraque em seu sexto ano, com mais de 4.000 soldados dos EUA mortos no conflito, e o momento de crise na economia norte-americana --que se instala enquanto o presidente George W. Bush gasta bilhões de dólares para financiar a guerra-- podem prejudicar o provável candidato republicano John McCain na corrida à Casa Branca. A opinião é do professor de Ciências Políticas da Universidade da Pensilvânia Ian Lustick.

"Se a economia afundar, gerando valores abaixo dos US$ 400 milhões (R$ 678 milhões) diários gastos no Iraque, isso poderá ser usado como uma arma contra o senador McCain, por ele ser do mesmo partido de Bush", afirmou Lustick, que é especialista em política norte-americana e do Oriente Médio, em entrevista concedida por telefone à Folha Online da Filadélfia.

02abr.08Mary Altaffer/AP
Republican presidential candidate, Sen. John McCain, R-Ariz., addresses the audience during a speech at Pensacola Junior College Wednesday, April 2, 2008, in Pensacola, Fla. (AP Photo/Mary Altaffer)
Provável candidato republicano John McCain discursa em colégio na Pensacola, Flórida

Na entrevista, Lustick questiona ainda a eficiência da manutenção das tropas no Iraque, tema de divergência entre os democratas Hillary Clinton e Barack Obama --que prometem a retirada das tropas-- e o republicano McCain-- que defende a permanência "pelo tempo que for necessário".

"A presença prolongada dos EUA no país não dará as condições necessárias para que o Iraque caminhe por si só. [...] Tenho certeza de que o bom resultado desta governança [no Iraque] não será definido por quanto tempo os EUA permaneçam lá, e sim por como será feita a retirada das forças norte-americanas", afirma.

"Quanto mais se prolongar a presença militar norte-americana no Iraque, mais profundas serão as cicatrizes, tanto no Iraque quanto nos EUA, e até mesmo no Oriente Médio como um todo. O que o esforço contínuo dos EUA no país prolonga não é um bom resultado, uma democracia livre, mas sim o começo de um processo complicado de descobrir qual será o futuro do Iraque como nação, que, por sua vez, será conseqüência direta da invasão norte-americana", acrescenta o analista.

O professor comenta também o cenário político inédito das eleições presidenciais deste ano, que tem inspirado a participação em grande escala dos eleitores norte-americanos, que não são obrigados a votar. "A primeira [condição inusitada] é um atual presidente [George W. Bush] que é odiado pelos cidadãos e considerado como um governante incompetente por uma grande maioria de norte-americanos, uma situação quase sem precedentes no país", afirma o especialista.

Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida à Folha Online.

Folha Online - Uma pesquisa divulgada recentemente pelo jornal "The New York Times" indica que 81% dos norte-americanos estão insatisfeitos com os rumos dos EUA, e que a economia tornou-se um assunto de extrema importância para o eleitorado. Ainda assim, a Guerra no Iraque será um tema de influência na corrida presidencial?

Ian Lustick- Há uma ansiedade disfarçada [pelos pré-candidatos] sobre o fato de que a Guerra do Iraque poderia afetar poderosamente a campanha democrata pela nomeação e a eleição geral de dois modos. Primeiramente, se as mortes de soldados norte-americanos aumentarem no Iraque, um sentimento anti-guerra irá rapidamente reaparecer. Isso poderá influenciar diretamente na eleição, já que os democratas [Hillary e Obama] são contrários à manutenção da guerra, enquanto o republicano [John McCain] defende a manutenção da presença militar dos Estados Unidos no país. Segundo, se a economia afundar [gerando valores] abaixo dos US$ 400 milhões (R$ 678 milhões) diários gastos no Iraque, isso poderá ser usado como uma arma contra McCain, por ser do mesmo partido de Bush [George W. Bush, atual presidente dos EUA].

Folha Online - Mesmo entre os democratas existem divergências na política sobre o conflito...

Ian Lustick- O tema é realmente importante para os norte-americanos e pode afetar inclusive a corrida democrata [pela nomeação]. Durante as primárias democratas, a melhor resposta de Obama ao argumento de Hillary de que ela teria mais experiência que ele em assuntos de política externa foi o seu bom julgamento, citado freqüentemente, de ter se oposto à guerra desde o início. Isso deve contar na votação democrata.

Folha Online - Um dos principais argumentos que diferenciam democratas e republicanos é a retirada das tropas dos EUA do Iraque, à qual McCain se opõe. Quais podem ser, para os iraquianos, as conseqüências da permanência do Exército dos EUA no país?

Ian Lustick - Quanto mais se prolongar a presença militar norte-americana no Iraque, mais profundas serão as cicatrizes, tanto no Iraque quanto nos EUA, e até mesmo no Oriente Médio como um todo. O que o esforço contínuo dos EUA no país prolonga não é um bom resultado, uma democracia livre, mas sim o começo de um processo complicado de descobrir qual será o futuro do Iraque como nação, que, por sua vez, será conseqüência direta da invasão norte-americana.

Folha Online- Os democratas argumentam que McCain representaria a continuidade do governo de George W. Bush, também republicano. O senhor acredita que a política de Bush em relação à guerra pode prejudicar McCain?

Ian Lustick - Bush não tem os recursos militares necessários para ampliar o esforço norte-americano no Iraque, ele já utilizou todos os recursos que tinha nestes cinco anos. Contudo, ele pode causar problemas a McCain caso efetive um ataque ao Irã [considerado grande inimigo dos EUA, que acusam o país de desenvolver um programa de armas nucleares]. A situação é tão delicada com o Irã que até mesmo esforços dos altos oficiais da administração Bush em lidar com a questão podem causar uma crise internacional. E isso poderia afetar diretamente McCain.

Folha Online- McCain afirmou recentemente que os democratas não deveriam prometer "o que não poderão cumprir". Ele se referia às promessas feitas por Obama e Hillary de levar os soldados norte-americanos de volta aos EUA em poucos meses. Na sua opinião, uma retirada rápida das tropas dos EUA é possível?

Ian Lustick - Obama defende uma retirada gradual das tropas norte-americanas no Iraque, em 16 meses. Já Hillary fala em iniciar a retirada das tropas em poucos meses, sem especificar uma data. Isso é estrategicamente possível.

Folha Online- Quais seriam as conseqüências desta retirada para o Iraque?

Ian Lustick -O Iraque ainda não é capaz de governar-se e cuidar de seus próprios problemas sozinho, sem a ajuda não só dos Estados Unidos, mas de todos os países que se uniram na coalizão. Mas a presença prolongada dos EUA não dará as condições necessárias para que o Iraque caminhe por si só. Acredito que, neste caso, a pergunta é como o Iraque ou, mais especificamente, as regiões do Iraque serão governadas na próxima década. Tenho certeza de que o bom resultado desta governança não será definido por quanto tempo os EUA permaneçam lá, e sim por como será feita a retirada das forças americanas.

Folha Online- Com uma disputa tão acirrada entre os democratas, as eleições deste ano têm sido consideradas por analistas a primeira a atrair tamanha atenção dos eleitores. A que o senhor atribui este momento político inédito?

Ian Lustick -Eu vejo duas condições muito diferentes nas eleições deste ano. A primeira é um atual presidente [George W. Bush] que é odiado pelos cidadãos e considerado como um governante incompetente por uma grande maioria de norte-americanos, uma situação quase sem precedentes na história política do país. Outro elemento importante são dois candidatos extraordinariamente talentosos do Partido Democrata, que exercem um apelo poderoso entre os eleitores de todas as gerações, tanto os mais jovens quanto os mais velhos.

Folha Online- Em sua opinião, quem ganhará as eleições presidenciais de 4 de novembro?

Ian Lustick - Eu acredito que Barack Obama ganhará, não só a disputa pela nomeação democrata, como também as eleições. Não estou totalmente seguro, de maneira nenhuma, mas ele é o candidato mais efetivo, que gera o maior entusiasmo e o maior potencial para ir além da base democrata em um ano que, de qualquer maneira, parece ser muito bom para o partido.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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