Mundo
17/04/2008 - 02h30

Itamaraty é insensível, diz presidente do Paraguai

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FÁBIO VICTOR
Enviado especial da Folha de S.Paulo a Assunção

À frente do partido que governa o país há 61 anos, Nicanor Duarte, cuja sucessão se decidirá no domingo, vê imprensa contra si

O presidente do Paraguai, Nicanor Duarte Frutos, tem a agenda carregada nestes últimos dias de campanha eleitoral para sua sucessão. Apesar de mal avaliado (levantamento divulgado no fim de 2007 pelo Latinobarómetro o apontou como o mais impopular presidente da América Latina), ele converteu-se num onipresente e empedernido cabo eleitoral da candidata Blanca Ovelar, do Partido Colorado, que governa o país há 61 anos.

Na entrevista abaixo, concedida ontem na residência oficial de Mburuvicha Roga, Nicanor atacou a mídia paraguaia (os principais jornais apoiam Lugo), pôs mais lenha na fogueira da campanha eleitoral, fez um balanço de seu mandato, que se encerra em agosto, elogiou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e atacou o Itamaraty: "É é uma burocracia insensível".

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FOLHA - O sr. denunciou nesta semana que militantes de Venezuela e Equador viriam ao Paraguai para promover violência em caso de derrota de Fernando Lugo. O sr. tem provas disso?

NICANOR DUARTE - Temos o fluxo migratório, que mostra que de 12 de abril até hoje entram no Paraguai muitos venezuelanos e equatorianos. E a maioria especialistas em comunicação, em computadores, software, tudo relacionado ao processo eleitoral. Então solicitamos investigação, para saber onde estão, o que estão fazendo. Também recebemos informações de que em San Pedro e Central [Estados], grupos hostis ao governo e pró-Lugo estariam planejando atos de violência na noite de domingo se o coloradismo triunfar. Que em algumas rádios comunitárias guardaram explosivos e armas para gerar grande distúrbio se o Partido Colorado ganhar.

FOLHA - Mas o sr. tem provas disso?

NICANOR - Promotores vão investigar isso.

FOLHA - Não é um abuso que o Estado monitore e persiga estrangeiros contra os quais não há provas?

NICANOR - Em absoluto, você está aqui fazendo seu trabalho normalmente. Observadores internacionais têm nosso apoio. Mas isso é parte de nossa soberania. Quando vou ao Brasil, a primeira coisa que me perguntam é a que eu estou indo.

FOLHA - Alguns coloradistas dizem que a oposição não vai aceitar a derrota. Mas há gente do seu partido dizendo o mesmo. O governo aceitará democraticamente uma eventual derrota?

NICANOR - Um, essa é uma hipótese improvável. Dois, nós somos democratas, e sempre aceitamos as regras do jogo.

FOLHA - O sr. é um presidente impopular. Como transferir votos numa situação assim?

NICANOR - Que situação? Nós temos ganhado eleições sucessivamente com minha liderança, a última delas foi nas primárias do partido, contra toda a aliança interna colorada [o candidato derrotado denunciou fraude]. Hoje enfrentamos a oposição unida, 12 partidos. Não é Nicanor quem vai pedir voto, é o Partido Colorado, uma força eleitoral imbatível, de maneira que as imagens são voláteis. Lula em seu pior momento, com todas as denúncias, ganhou com mais de 60% no segundo turno. A opinião pública é errática. Em uma manhã pode estar comemorando sua coroação, e à noite pode estar aplaudindo seu fuzilamento. Para mim, como dizia Maquiavel, a imagem é um predicado do aparente. Isso não serve, o que serve são os votos. Alguém pode ser impopular, mas o que importa são os votos, as vitórias.

FOLHA - Como é possível ser impopular e ter votos?

NICANOR - Muitos impopulares, segundo a imprensa, terminaram ganhando eleições. Se fosse pela imprensa, o Partido Colorado estaria enterrado, cem metros abaixo, se a imprensa tivesse poder. A imprensa não tem caralho nenhum.

FOLHA - Mas é de certa forma uma novidade, a imprensa contra o governo colorado...

NICANOR - Não, em nenhum país do mundo a imprensa está com o governo, a imprensa quer vender, não lhe interessa a verdade, mas a renda, o fluxo de ganância, o que o mercado quer.

FOLHA - Mas, por essa sua lógica, seria mais confortável para a imprensa apoiar o governo, que está no poder há 61 anos...

NICANOR - Mas apoio não é uma questão de lógica, o respaldo eleitoral não responde a um critério de racionalidade, mas de sentimento. E aqui os donos dos meios, em sua grande maioria, acumularam fortuna na época de Stroessner, desfrutando de impunidade. E hoje estão frustrados, a maioria queria ser presidente, mas, como não tinham votos e não sabiam como influir nas políticas estatais, então compraram as cadeias. Nosso governo desenvolveu as grandes transformações políticas e econômicas de um país que estava numa escalada de luta de classes, hoje estamos entregando um país basicamente ordenado.

FOLHA - Quais os pontos que o sr destaca em sua gestão?

NICANOR - Não há grandes convulsões, investimos em programas sociais para reduzir a pobreza, construímos estabilidade política, nosso crescimento é recorde, graças a uma reforma tributária nossas reservas triplicaram, como nunca na história podemos pagar nossa dívida externa e continuar tendo dinheiro em caixa, as taxas de juros caíram de 39% para 11%, houve uma recuperação do mercado financeiro. Temos ainda problemas de pobreza e vícios estruturais, corrupção, que temos que combater com maiores e melhores sistemas de controle.

FOLHA - O sr fala em paz social, mas há poucos dias um distúrbio com sem tetos resultou em vários feridos em Assunção.

NICANOR - São atos isolados, que acontecem em qualquer país, são manifestações de setores desconformes, que não aceitam os pactos com os grandes grêmios dos sem-teto, e também estão politizados, porque seus líderes são do luguismo.

FOLHA - Promover a independência do Judiciário foi uma de suas promessas de campanha, mas este poder continua subordinado aos interesses dos partidos...

NICANOR - Lamentavelmente. É certo. Renovei totalmente a corte [suprema], foi uma luta. Mas como a Constituição tem um mecanismo que oferece uma grande influência aos partidos [o Senado é quem aprova a lista formulada pelo Conselho de Magistratura], obviamente a nova configuração da corte não veio solucionar a falta de autonomia e de independência em relação aos poderes político e econômico. Talvez o próximo governo chame uma Constituinte e se estabeleça um mecanismo diferente que possibilite mais respeito à meritocracia, mais reconhecimento ao credenciamento de saberes no campo do Direito.

FOLHA - Por que o sr. congelou as privatizações no Paraguai, iniciadas no governo anterior?

NICANOR - Por que não estou de acordo. As privatizações na América Latina geraram mais corrupção, e dos monopólios estatais se passou aos monopólios privados, e os serviços não melhoraram, até encareceram. E mais setores ficaram excluídos. Então nós felizmente não entramos na efervescência neoliberal dos anos 90. Creio que as empresas públicas precisam de reformas. Eu priorizei a política econômica, a paz social, recuperar a confiança no Paraguai, fortalecer os créditos. Optei por prioridades urgentes, deixamos um pouco atrás a reforma das empresas públicas, o próximo governo tem que fazer. Eu creio na parceria público-privada, na necessidade de unir capitais estatal e privado, como na indústria nacional de cimento [hoje estatal].

FOLHA - O combate à corrupção foi outra de suas bandeiras de campanha, e denúncias continuam surgindo, o Paraguai é um dos países mais corruptos da América, segundo a Transparência Internacional...

NICANOR - Em cinco anos não puderam me envolver em nenhum ato de corrupção, o que não significa que não tivemos problemas de ilegalidades no manejo da coisa pública, houve roubo de sementes e de medicamentos nos hospitais, problemas com alimentos para as crianças nas escolas. Mas bancos quebrando, reservas internacionais, créditos fraudulentos dos fundos previdenciários, grandes licitações combinadas, nada disso houve. O que não significa que a administração publica se tornou um paraíso, temos ainda vícios, corrupção, pelo próprio sistema jurídico. Temos que ir mudando as leis, criando sistemas de controle. O que se pretende na imprensa daqui é reduzir a corrupção à burocracia administrativa, e sempre, se há um corrupto, há um corruptor. E este sempre é um elemento que atua fora do Estado, com o suborno. Mas é como se a corrupção se gerasse por obra do espírito santo...

Nós avançamos, criamos o portal eletrônico, que permite monitorar as compras e licitações do governo, um sistema que nos permitiu reduzir em quase 40% os preços dos bens e serviços. Creio que há um avanço, mas luta contra a corrupção requer muito esforço e muito tempo.

FOLHA - Mas há um tipo de corrupção em que o corruptor é o Estado, como na compra de votos para a candidata governista, que tem sido denunciada pela mídia paraguaia.

NICANOR - São denúncias que ocorrem no processo eleitoral, no Brasil, aqui, na Argentina, em Beirute, em Londres, Washington, Paris... Terêncio dizia: "Sou homem e nada do que é humano me é estranho". Ou você crê que os seres humanos mudam segundo regiões ou culturas? Provavelmente sim, em alguns casos, mas no essencial não.

FOLHA - O sr. tentou sem sucesso aprovar a reeleição, proibida pela Constituição. No Brasil também se discute a possibilidade de uma mudança constitucional para permitir ao presidente disputar um terceiro mandato...

NICANOR - Acho que a Constituição tem que estabelecer a reeleição por um mandato. Não me permitiram. Se eu era um presidente realmente impopular, porque a oposição se opôs ferrenhamente à possibilidade de eu concorrer a uma reeleição? Lula foi reeleito e não creio que tente um terceiro mandado, em absoluto.

FOLHA - Quais os resultados das relações do Paraguai com o Brasil durante o seu mandato?

NICANOR - Chegamos a acordos muito importantes. Uma nova política tributária para regularizar os sacoleiros, já aprovada no Congresso brasileiro [na Câmara, falta ser votada no Senado], isso vai formalizar a economia e tranqüilizar a fronteira. No Mercosul logramos os fundos estruturais de compensação aos países menos desenvolvidos, para combater as assimetrias. Em Itaipu, conseguimos aumentar o que o Brasil paga pelo excedente de energia, que permitiu ao Paraguai receber quase US$ 100 milhões a mais, e por outro lado o fator de ajuste, que era uma dupla taxa de juros que incidia sobre a dívida [foi eliminada a taxa indexada à inflação americana], reduzimos US$ 10 bilhões de dólares. Então Paraguai pede que os royalties que recebemos hoje, aproximadamente US$ 300 milhões, dobrem no futuro, ao baixar a dívida.

E sobretudo iniciamos diálogo sério com Lula. Lula demonstrou muito afeto pelo Paraguai, apesar do Itamaraty. Lutou bastante pelas reivindicações.

FOLHA - O Itamaraty não compartilha com a política de Lula?

NICANOR - O Itamaraty é uma burocracia insensível, é como o técnico economista que diz: "Olhe, temos que congelar os salários, porque isso vai aumentar a inflação", não importa que o povo tenha fome. Os critérios técnicos às vezes são muito rígidos e não se compadecem das necessidades políticas, das demandas sociais, da solidariedade.

FOLHA - Oviedo foi libertado porque sua pena venceu [cumpriu metade dos dez anos a que foi condenado] ou porque era conveniente para Blanca Ovelar dividir votos da oposição?

NICANOR - Claro que foi porque cumpriu a pena. Tinha que sair e saiu, a menos que no Paraguai volte a manipulação dos prazos judiciais. Eu estou convencido de que as lideranças se provam no processo eleitoral, não privando os líderes de sua liberdade. E aí está: Oviedo era um mito, e agora está em terceiro, distante [na verdade, as pesquisas variam conforme o candidato que as encomenda].

 

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