Mundo
17/04/2008 - 02h32

Leia discurso do papa Bento 16 na Casa Branca

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da Folha de S. Paulo

"Senhor Presidente, agradeço as palavras corteses com que me recebeu em nome do povo dos Estados Unidos da América. Aprecio profundamente o seu convite para uma visita a este grande país. Minha visita coincide com um momento importante na vida de comunidade católica norte-americana ­o ducentésimo aniversário da elevação da primeira diocese do país, a de Baltimore, à condição de arquidiocese metropolitana, com o estabelecimento das sés de Nova York, Boston, Filadélfia e Louisville. Mas estou feliz por estar aqui como convidado de todos os norte-americanos. Venho como amigo, como pregador dos evangelhos e como alguém que respeita imensamente esta sociedade vasta e pluralista. Os católicos norte-americanos fizeram, e continuam a fazer, excelente contribuição à vida de seu país. No início de minha visita, confio em que minha presença sirva como fonte de renovação e de esperança para a Igreja dos Estados Unidos, e para reforçar a determinação dos católicos quanto a contribuir de maneira cada vez mais responsável para a vida desta nação da qual são cidadãos orgulhosos.

Desde a alvorada da república, a busca norte-americana de liberdade vem sendo orientada pela convicção de que os princípios que orientam a vida social e política estão intimamente conectados a uma ordem moral que se baseia no domínio de Deus, o Criador. Os homens que formularam os documentos que deram fundação a este país se apoiaram nessa convicção ao proclamar a "verdade intrinsecamente evidente" de que todos os homens foram criados iguais e estão dotados de direitos inalienáveis, fundados nas leis da natureza e do Deus da natureza. O curso da história norte-americana comprova as dificuldades, as lutas e a grande determinação social e moral requeridas para dar forma a uma sociedade que incorporasse fielmente esses nobres princípios. Naquele processo, que forjou a alma do país, as crenças religiosas foram constante inspiração e força motora, como por exemplo na luta contra a escravidão e no movimento dos direitos civis. Em nossa era, igualmente, e em especial nos momentos de crise, os norte-americanos continuam a encontrar força em seu compromisso para com esse patrimônio de ideais e aspirações compartilhados.

Nos próximos dias, pretendo me encontrar não só com a comunidade católica dos Estados Unidos mas com outras comunidades cristãs e com representantes das muitas tradições religiosas presentes no país. Historicamente, não só os católicos mas todos os crentes descobriram aqui a liberdade de cultuar Deus de acordo com os ditames de suas consciências, enquanto eram aceitos ao mesmo tempo como parte de uma comunidade na qual cada indivíduo e grupo pode fazer com que sua voz seja ouvida. Enquanto o país enfrenta os dilemas políticos e éticos cada vez mais complexos de nossa era, confio em que o povo norte-americano encontre em suas crenças religiosas uma preciosa fonte de percepção e uma inspiração para que se promova um diálogo racional, responsável e respeitoso, em um esforço por construir uma sociedade mais humana e mais livre.

A liberdade é não apenas um dom mas também uma convocação ao exercício da responsabilidade pessoal. Os norte-americanos o sabem por experiência ­quase todas as cidades do país apresentam monumentos que honram aqueles que sacrificaram suas vidas em defesa da liberdade, tanto no país quanto no exterior. A preservação da liberdade pede o cultivo da virtude; autodisciplina; sacrifício pelo bem comum; e um senso de responsabilidade para com os menos afortunados. Também exige a coragem de se envolver na vida pública e de contribuir com as crenças e valores pessoais mais profundos ao debate público. Em resumo, liberdade é algo que sempre se renova. É um desafio apresentado a cada geração, e que deve ser constantemente vencido, em nome do bem. Poucos o compreenderam tão claramente quanto o Papa João Paulo 2°. Ao refletir sobre a vitória espiritual da liberdade diante do totalitarismo, em sua Polônia natal e na Europa Oriental, ele nos lembrou de que a História repetidamente nos demonstra que, "em um mundo sem verdade, a liberdade perde sua fundação", e uma democracia sem valores pode perder sua alma. Essas palavras proféticas de certa maneira expressam a convicção do presidente Washington, em seu discurso de despedida, de que religião e moralidade representam "apoios indispensáveis" à prosperidade política.

A Igreja, de sua parte, deseja contribuir para a construção de um mundo cada vez mais digno da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. A Igreja está convencida de que a fé lança uma nova luz sobre todas as coisas, e que o Evangelho revela a vocação nobre e o destino sublime de cada homem e cada mulher. A fé também nos dá a força para responder ao chamado mais elevado, e a esperança que nos inspira a trabalhar por uma sociedade cada vez mais justa e fraterna. A democracia só pode florescer, como compreenderam os pais fundadores dos Estados Unidos, quando os líderes políticos e aqueles a quem eles representam são orientados pela verdade e trazem a sabedoria nascida de firmes princípios morais às decisões que afetam a vida e o destino da nação.

Por mais de um século, os Estados Unidos desempenharam papel importante na comunidade internacional. Na sexta-feira, se Deus quiser, terei a honra de discursar à Organização das Nações Unidas, onde espero encorajar os esforços em curso para fazer daquela instituição uma voz cada vez mais efetiva para as aspirações legítimas de todos os povos do mundo., No 60° aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a necessidade de solidariedade mundial continua urgente como sempre, se todas as pessoas devem viver de maneira que afirme sua dignidade ­como irmãos e irmãs compartilhando da mesma casa e sentados à mesa generosa que Deus oferece aos seus filhos. Os Estados Unidos sempre se mostraram generosos quanto a atender as necessidades humanitárias imediatas, promovendo o desenvolvimento e oferecendo assistência às vítimas de catástrofes naturais. Estou confiante em que essa preocupação pela família humana mais ampla continuará a encontrar expressão em forma de apoio aos pacientes esforços da diplomacia internacional para resolver conflitos e promover progresso. Dessa forma, as gerações vindouras poderão viver em um mundo no qual verdade, liberdade e justiça serão capazes de florescer ­um mundo em que a dignidade e os direitos que Deus concedeu a todos os homens, mulheres e crianças serão acalentados, protegidos e promovidos de maneira efetiva.

"Senhor presidente, caros amigos: no início de minha visita aos Estados Unidos, expresso uma vez mais minha gratidão pelo seu convite, minha alegria por estar entre vocês e minhas ardorosas preces a Deus Todo-Poderoso para que confirme este país e seu povo nos caminhos da justiça, prosperidade e paz. Que Deus abençoe a América".

Tradução de Paulo Migliacci

 

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