Santa Cruz apóia estatuto de autonomia em relação à Bolívia, diz pesquisa
da France Presse, em Santa Cruz
A proposta de criação do primeiro governo autônomo da Bolívia na região de Santa Cruz de la Sierra recebeu apoio de 85,9% dos eleitores no referendo realizado neste domingo, segundo as primeiras pesquisas de boca-de-urna divulgadas pela rede de televisão local.
De acordo com resultados parciais, a rejeição à proposta alcançou 14,1% dos votos, de acordo com informe da rede de televisão privada Red Uno.
O referendo --considerado ilegal pelo governo boliviano-- foi realizado durante oito horas, em meio a incidentes isolados no bairro "Plan 3000", no sul da cidade e baluarte eleitoral do partido MAS (Movimento ao Socialismo), do presidente boliviano, Evo Morales, e nas zonas rurais do departamento (Estado) que deixaram pelo menos 28 feridos, segundo o ministro de Interior, Alfredo Rada.
Fontes médicas informaram à rede de TV boliviana ATB que a maior quantidade de feridos foi registrada durante um confronto entre simpatizantes do presidente Evo Morales e grupos autonomistas do bairro de Plan 3.000, na capital Santa Cruz de La Sierra.
Os choques ocorreram após a decisão dos habitantes desse bairro de destruir as urnas instaladas para a votação, que foi suspensa temporariamente.
Outros foram registrados na cidade de Montero, outro foco de tensão na área rural do departamento, onde um jovem sofreu uma fratura exposta na perna, após a explosão de um cartucho de dinamite.
No povoado de San Julián, o médico Ciro González informou à agência de notícias Efe que um partidário de Morales ficou gravemente ferido ao cair de um ônibus, que o atropelou e danificou seus órgãos internos.
O veículo, segundo as versões recolhidas no local, levava um grupo de simpatizantes do líder que pouco antes tinha havia destruído urnas para tentar evitar a votação.
Também foram registrados feridos na localidade de Yapacani, outro reduto dos sindicatos leais a Morales, no qual o referendo foi suspenso após camponeses atacarem os recintos de votação.
Referendo
A votação foi organizada pela Corte Eleitoral Departamental de Santa Cruz. Cerca de 900 mil eleitores são esperados às urnas, mas o voto não é obrigatório.
Os líderes civis de Santa Cruz que pedem mais autonomia são coordenados pelo governador Ruben Costas. A Corte Nacional Eleitoral considera o referendo ilegal e afirmou que não reconhecerá o seu resultado, baseada no argumento da falta de poderes legais do departamento para realizá-lo.
A elite econômica de Santa Cruz lidera o anseio de que a região, de 370 mil km2 e 2,5 milhões de habitantes, alcance autonomia do poder central, o que permitiria ter um maior controle político e, principalmente, econômico. O departamento é responsável por 30% do PIB da Bolívia.
Santa Cruz está localizada, em grande parte, em uma extensa planície fértil na fronteira com o Paraguai e o Brasil, em um local propício para a agricultura e a pecuária --atividades que se converteram em fonte importante para a riqueza do país, principalmente a soja, a cana-de-açúcar, o algodão, a carne, o couro e a madeira.
O governo de Morales afirma que o referendo sobre o estatuto autônomo de Santa Cruz é ilegal, e pediu à população que não participe da consulta.
Outros referendos
Além de Santa Cruz, outros três departamentos querem conseguir a autonomia: Beni, Pando e Tarija. Os dois primeiros marcaram referendos, separadamente, para o dia 1º de junho. No dia 22, será a vez de Tarija.
O poder econômico dos quatro departamentos representa cerca de 80% do PIB da Bolívia, o que permite um confronto direto dos governadores locais com o presidente Evo Morales.
As divergências começaram em janeiro de 2006, com o começo da administração Morales, que pretende fazer uma economia com grande intervenção estatal para buscar um maior acesso às terras para os indígenas e camponeses. Os governos locais, ao contrário, querem uma economia de livre comércio, com grandes empresas e latifúndios.
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