Mundo
05/05/2008 - 09h03

Presidente da Bolívia insta governadores a trabalharem por autonomia

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da Ansa, em La Paz
da Folha Online

O presidente boliviano, Evo Morales, convocou neste domingo os governadores a "trabalhar juntos desde amanhã [segunda-feira]" para organizar um regime autônomo legal em benefício do povo.

Morales qualificou como "um fracasso" o referendo de autonomia organizado domingo em Santa Cruz e elogiou as organizações sociais que realizaram grandes concentrações em La Paz, El Alto, Cochabamba e Oruro.

O presidente atribuiu "o fracasso desta consulta ilegal e anticonstitucional" ao enfrentamento entre as famílias que vivem no Departamento [Estado] de Santa Cruz.

"Espero que os governadores possam me escutar para, juntos, garantirmos uma autonomia para as regiões, para os povos indígenas e também para os Departamentos", disse.

O presidente observou também que "não se pode forçar, obrigar com intimidação autonomias inconstitucionais, ilegais, como pretendiam. A autonomia deve ser para os povos e não para pequenos grupos", acrescentou.

Segundo Morales, que reiterou diversas vezes que o referendo foi "ilegal e inconstitucional", a votação não teve o êxito que se esperava porque "houve violência e enfrentamento entre famílias", denúncias de irregularidades e presença de cidadãos de outras regiões para apoiar ações violentas.

"Mas, sobretudo, com a abstenção de 39%, o 'não' e os votos nulos somam praticamente 50%" de repúdio ao estatuto autônomo de Santa Cruz. Morales chamou atenção ainda para o fato de que esses dados se baseiam na informação dos meios privados. "Se quiséssemos ter um resultado real, a verdade, estou seguro de que é muito mais de 50% e não se pode enganar o povo dizendo que há muito mais que 80%".

"Seria bom se dissessem a verdade. Eu creio na força do povo, na consciência do povo, na sabedoria dos setores sociais abandonados que, apesar do amedrontamento e humilhações, fez hoje uma grande rebelião contra grupos que usaram o povo para ter ganhos econômicos", afirmou ainda.

No discurso, Morales disse também que "ninguém pode dizer que as mobilizações de hoje [domingo] foram financiadas. Por isso, meu respeito a essas organizações que se mobilizaram para preservar a unidade e a igualdade de nosso país".

Comemoração

Milhares de pessoas celebraram nas ruas da capital de Santa Cruz seu novo estatuto autônomo, que segundo as autoridades regionais, obteve um respaldo superior a 80%, em um referendo que o governo de Evo Morales não reconhece e considera "ilegal".

Embora a Corte Departamental ainda não tenha divulgado dados definitivos sobre o resultado da consulta, os habitantes do Estado festejaram a vitória do "sim" que, segundo o governador regional, Rubén Costas, foi "contundente" ao superar 80% dos votos.

A região de Santa Cruz, que lidera um movimento autonomista contrário ao Governo de Morales, realizou neste domingo seu referendo em uma jornada marcada por confrontos violentos que deixaram ao menos 28 feridos.

O líder opositor do Comitê Cívico de Santa Cruz, Branko Marinkovic, pediu a Evo Morales que respeite a vitória do estatuto autonômico no referendo local nessa próspera região, que seria esmagadora.

"O governo tem a obrigação legal e moral de respeitar o voto", afirmou durante uma festa popular improvisada na praça de Armas da cidade.

Segundo resultados anunciados pelas televisões locais baseados em pesquisas boca-de-urna, 85% da população votou "Sim" ao governo autônomo.

Referendo

Os líderes civis de Santa Cruz que pedem mais autonomia são coordenados pelo governador Ruben Costas. A Corte Nacional Eleitoral considera o referendo ilegal e afirmou que não reconhecerá o seu resultado, baseada no argumento da falta de poderes legais do departamento para realizá-lo.

A elite econômica de Santa Cruz lidera o anseio de que a região, de 370 mil km¦ e 2,5 milhões de habitantes, alcance autonomia do poder central, o que permitiria ter um maior controle político e, principalmente, econômico. O departamento é responsável por 30% do PIB da Bolívia.

Santa Cruz está localizada, em grande parte, em uma extensa planície fértil na fronteira com o Paraguai e o Brasil, em um local propício para a agricultura e a pecuária --atividades que se converteram em fonte importante para a riqueza do país, principalmente a soja, a cana-de-açúcar, o algodão, a carne, o couro e a madeira.

Outros referendos

Além de Santa Cruz, outros três Departamentos querem conseguir a autonomia: Beni, Pando e Tarija. Os dois primeiros marcaram referendos, separadamente, para o dia 1º de junho. No dia 22, será a vez de Tarija.

O poder econômico dos quatro departamentos representa cerca de 80% do PIB da Bolívia, o que permite um confronto direto dos governadores locais com o presidente Evo Morales.

As divergências começaram em janeiro de 2006, com o começo da administração Morales, que pretende fazer uma economia com grande intervenção estatal para buscar um maior acesso às terras para os indígenas e camponeses. Os governos locais, ao contrário, querem uma economia de livre comércio.

 

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