Presidente do Paraguai diz que referendo boliviano não é constitucional
da Efe, em Assunção
O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, afirmou nesta terça-feira que o referendo autônomo realizado neste domingo (4) no departamento (Estado) boliviano de Santa Cruz "não tem nenhuma vinculação com os princípios constitucionais" da Bolívia.
A consulta, aprovada com o apoio de mais de 80% dos eleitores, mas considerada separatista pelo governo de La Paz, "não tem nenhuma vinculação com os princípios constitucionais da Bolívia", disse Lugo a jornalistas.
Lugo acrescentou ainda que "qualquer um pode fazer um plebiscito" e que, no futuro, serão vistos "seus resultados e a conotação que pode ter" na Bolívia e na região.
"Posso fazer [um referendo] aqui em Assunção, em La Chacarita [bairro da capital], em Ciudad del Este ou em San Pedro [a região mais pobre do país]", disse Lugo.
Conspiração
O presidente da Bolívia, Evo Morales, acusou a Embaixada dos Estados Unidos em La Paz de conspirar com grupos promotores do plebiscito de autonomia, em declarações à televisão cubana.
"Há interesses, infelizmente, de grupos; mas também quero que o mundo inteiro saiba que esta conspiração é orquestrada pela Embaixada dos Estados Unidos", disse Morales.
O governante afirmou que "é impressionante como o embaixador [dos EUA] na Organização dos Estados Americanos (OEA) defendeu essas atitudes ilegais, inconstitucionais, de alguns dirigentes de Santa Cruz".
Morales também denunciou que "há agentes internos e externos no país que conspiram" contra a mudança, contra ele e contra seu governo.
Referendo
Santa Cruz realizou uma consulta que ratificou com mais de 80% dos votos o estatuto autônomo dessa região, segundo pesquisas de boca-de-urna e dados fornecidos nesta terça-feira pela Corte Departamental Eleitoral, após a apuração de um terço dos votos.
Os líderes civis que pedem mais autonomia são coordenados pelo governador Ruben Costas. A Corte Nacional Eleitoral considera o referendo ilegal e afirmou que não reconhecerá o seu resultado, baseada no argumento da falta de poderes legais do departamento para realizá-lo.
A elite econômica de Santa Cruz lidera o anseio de que a região, de 370 mil km2 e 2,5 milhões de habitantes, alcance autonomia do poder central, o que permitiria ter um maior controle político e, principalmente, econômico. O departamento é responsável por 30% do PIB da Bolívia.
Santa Cruz está localizada, em grande parte, em uma extensa planície fértil na fronteira com o Paraguai e o Brasil, em um local propício para a agricultura e a pecuária --atividades que se converteram em fonte importante para a riqueza do país, principalmente a soja, a cana-de-açúcar, o algodão, a carne, o couro e a madeira.
Outros referendos
Além de Santa Cruz, outros três departamentos querem conseguir a autonomia: Beni, Pando e Tarija. Os dois primeiros marcaram referendos, separadamente, para o dia 1º de junho. No dia 22, será a vez de Tarija.
O poder econômico dos quatro departamentos representa cerca de 80% do PIB da Bolívia, o que permite um confronto direto dos governadores locais com o presidente Evo Morales.
As divergências começaram em janeiro de 2006, com o começo da administração Morales, que pretende fazer uma economia com grande intervenção estatal para buscar um maior acesso às terras para os indígenas e camponeses. Os governos locais, ao contrário, querem uma economia de livre comércio, com grandes empresas e latifúndios.
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