Mundo
07/05/2008 - 22h19

"Criação de Estado uniu judeus em torno de bandeira", diz rabino

CAMILA NEUMAM
colaboração para a Folha Online

Maio de 2008 é um mês duplamente significativo para os judeus, pois marca a comemoração dos 60 anos do Estado de Israel, e também os 20 anos da Marcha da Vida, completados no dia 1º.

Grande parte das celebrações oficiais ocorrem neste ano no dia 8. Israel teve sua independência proclamada no dia 14 de maio de 1948, mas o calendário judaico é lunar e, portanto, o feriado ocorre a cada ano em diferentes datas dos meses de abril ou maio.

Carol Guedes/Folha Imagem
Para rabino Henry Sobel, criação de Estado uniu judeus em torno de bandeira
Para rabino Henry Sobel, criação de Estado uniu judeus em torno de uma bandeira

A Marcha da Vida relembra o trágico momento histórico ano a ano ao refazer o mesmo percurso realizado pelas vítimas do Holocausto, transitando entre o antigo campo de concentração de Auschwitz e o campo de extermínio de Birkenau.

Em entrevista exclusiva concedida à Folha Online, o rabino Henry Sobel, norte-americano que vive há 37 anos no Brasil e é ex-presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista (CIP), comenta a importância da data e explica o que significa ser um judeu no Brasil.

Durante a entrevista, Sobel --que nasceu em 1944, em Lisboa, mas cresceu em Nova York até vir para o Brasil, em 1970-- também faz críticas a políticas de Israel e ao ex-premiê israelense, Ariel Sharon, afastado do governo desde que entrou em coma, em 2006.

"Confio no Estado de Israel e em como ele foi fundado, mas nem sempre acredito nas suas decisões. [O ex-premiê] Ariel Sharon, que continua muito doente, é um direitista que acredita que a queda de Israel pertence exclusivamente ao Estado de Israel. Construiríamos a paz se ambos os lados cedessem. Sharon não pensava assim. Ele sempre quis excluir os vizinhos, exclusivamente os palestinos. Ele nunca achava que os palestinos deveriam estar nas negociações. E é um erro tentar chegar à paz sem negociar, sem os palestinos", afirma.

Sobel também falou à Folha Online sobre temas de sua vida pessoal, entre eles o incidente ocorrido em 23 de março de 2007, quando foi acusado de roubar gravatas em uma loja de grife em Palm Beach (Flórida). "Eu sofri muito, fiz um tratamento com profissionais e me sinto muito melhor. Não foi falta de moral, de ideais morais e éticos, mas por problema de saúde".

Leia abaixo a íntegra da entrevista com Sobel:

Folha Online - O que representam os 60 anos da criação de Israel para os judeus?

Henry Sobel - O Estado de Israel tem uma razão de ser muito forte na psique judaica, pois possibilitou que o povo judeu se unisse em torno de uma bandeira, ao invés de em torno de um túmulo. Se não fosse pela criação do Estado, o judeu ficaria à mercê de autoridades ou de líderes políticos que revelaram o fascismo, o nazismo e as ideologias que distanciam o cidadão do seu governante. Quando Israel foi coroado, em 1948, pela primeira vez o judeu se sentiu seguro, sentiu que tinha um porto seguro, caso haja um outro Holocausto.

Folha Online - O senhor acredita na possibilidade de um novo Holocausto?

Sobel - Eu não acredito em um outro Holocausto, na possibilidade de outro [Adolf] Hitler, apesar de mundo ter testemunhado tal sadismo sem levantar uma mão. Eu digo que a tragédia do Holocausto foi uma tragédia judaica, embora nem todas as vítimas tenham sido judeus. E se houver uma onda de anti-semitismo, como no caso do Irã, que é um país anti-semita, se houver algum perigo, o judeu sabe que ele tem o Estado de Israel para se garantir. E se houver alguma atitude dramática contra os judeus, como em qualquer outro país, haverão países livres que vão contribuir e realmente gerar uma súbita realidade de paz.

Folha Online - Os judeus brasileiros, mesmo distantes geograficamente do Estado de Israel, podem considerar o Estado seu território?

Sobel - O Brasil é um país abençoado para os judeus e para os não-judeus. Aqui existe liberdade de expressão, e estamos vivendo uma fase magnífica de democracia mesmo tendo ainda um caminho para percorrer para consolidá-la. É uma antítese do anti-semitismo. Aqui todos os brasileiros vivem bem uns com os outros, inclusive com os judeus. E a comunidade judaica contribui em escolas e institutos de direitos humanos.

No entanto, antes do Holocausto, era impossível para o judeu ser um judeu brasileiro no país, porque naquela época, inclusive na administração de Getúlio Vargas, que mudou de lado durante a Segunda Guerra (1939-1945), era difícil para um judeu se integrar na sociedade fosse brasileira, norte-americana ou canadense, porque o Holocausto estava muito vivo. Foi difícil o judeu se integrar, porque ele tinha medo, insegurança, por causa de Hitler.

Folha Online - Já que Israel é considerado um país seguro para os judeus, o senhor nunca cogitou a hipótese de morar no país?

Sobel - Na vida, há duas lealdades. O judeu tem ao menos duas lealdades. O Brasil abriu as portas para o judeu, quando outros países não queriam saber. Mas não vamos confundir o Estado com o governo. O governo vem e vai, mas o Estado fica. Como judeu, às vezes não concordo com o governo de Israel, mas nem por isso minha lealdade pelo Estado diminui.

Folha Online - Em que o senhor não concorda com a política adotada por Israel?

Sobel - Confio no Estado de Israel e em como ele foi fundado, mas nem sempre acredito nas suas decisões. [O ex-premiê] Ariel Sharon, que continua muito doente, é um direitista que acredita que a queda de Israel pertence exclusivamente ao Estado de Israel. Construiríamos a paz se ambos os lados cedessem. Sharon não pensava assim. Ele sempre quis excluir os vizinhos, exclusivamente os palestinos. Ele nunca achava que os palestinos deveriam estar nas negociações. E é um erro tentar chegar à paz sem negociar, sem os palestinos.

Folha Online - Como o senhor avalia a participação de 400 jovens brasileiros na Marcha da Vida, entre os quais metade deles não-judeus?

Sobel - Temos uma delegação jovem muito bonita. A Marcha da Vida é onde convertemos a morte em vida. Por ela, conscientizamos os jovens sobre a tragédia que foi o Holocausto.

Folha Online - O senhor lançou recentemente o livro "Um homem. Um rabino". Nele, o senhor relata sobre questões políticas, além das pessoais?

Sobel- O livro é uma autobiografia. Depois de tantos anos, pensei: "Por que escrever sobre temas muitos abstratos e não falar de valores pessoais, sobre acontecimentos que tiveram maior repercussão dentro da história do Brasil?" Daí surgiu "Um Homem, Um Rabino".

No livro, recapitulo as experiências mais importantes da minha vida. Falo da minha infância, da minha chegada ao Brasil, do caso de Wladimir Herzog [jornalista assassinado pela ditadura militar em 1975], da época da tortura no Brasil à democracia e sobre o meu relacionamento com o papa João Paulo 2º. Neste em especial, sem muita modéstia, falo do trabalho que fiz com o papa e mais oito pessoas, que acabou levando o Vaticano a reconhecer Israel.

Folha Online - No livro, o senhor cita o caso que o envolveu em uma acusação de furto de gravatas em Palm Beach (Flórida). Como foi escrever a respeito?

Sobel - Eu sofri muito, fiz um tratamento com profissionais e me sinto muito melhor. Quero declarar que não foi por falta de moral, de ideais morais e éticos, mas por problema de saúde. No livro há depoimentos dos médicos que explicam que tipo de problema cria o condenável. Não quero falar mais sobre isso, porque é um assunto muito dolorido, porque prefiro realmente fazer algo de bem.

Me senti abandonado por alguns poucos, e me senti muito acolhido pelos brasileiros não-judeus. As pessoas que não gostavam do rabino Sobel agora têm mais um motivo concreto para não gostarem de mim. Mas os amigos de verdade são chegados. O saldo é positivo por parte do povo, e negativo por algumas pessoas isoladas que têm seus motivos para se distanciarem.

Folha Online - Como está a vida de rabinato depois do incidente? Como mantê-la após deixar a Congregação Israelita Paulista (CIP), que presidiu por 37 anos?

Sobel - Eu tenho uma oferta para ser rabino em uma sinagoga em Nova York. Eu ainda disse não, porque queria achar uma alternativa no Brasil, porque minha mulher ama o Brasil. E eu mesmo não gostaria de deixar o país, após 38 anos. Quero conseguir realizar um ou dois projetos que estou idealizando. Gostaria de criar no Brasil um instituto de judaísmo liberal, onde as pessoas pudessem ir para lançar livros, uma espécie de casa de cultura.

Folha Online - O que difere o judaísmo liberal do tradicional?

Sobel - O judaísmo liberal é uma visão do judaísmo relacionada ao dia-a-dia nacional. Os não-judeus sempre me procuram para conversar sobre os assuntos mais diversos, células tronco, cabala. Seria um espaço para eles também.

Folha Online - Há previsão para a implantação do instituto?

Sobel - Se possível, no começo do ano que vem.

Comentários dos leitores
FLORIANOPOLIS / SC
Parte final:
As autoridades francesas devem concordar em impedir os parisienses franceses de entrar na área da tumba sagrada, pois isto pode ser visto como provocação pelos corsicanos.
A Santa Capela e a Igreja de Notre Dame devem, é claro, ser internacionalizadas sob os auspícios do Vaticano e das organizações internacionais pela preservação do patrimônio artístico universal. Na realidade, os franceses devem considerar uma grande honra que tanta gente veja Paris como uma cidade internacional.
Os franceses não têm do que reclamar, pois desfrutarão dos benefícios da paz e manterão o controle dos Champs Elisées.
Mas, pensando melhor, até mesmo os Champs Elisées podem ser demasiado. Afinal, para ser coerente com a posição francesa para com Israel, a capital francesa não pode ser Paris, mas sim Vichy.
sem opinião
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FLORIANOPOLIS / SC
Parte 3: Final
As autoridades francesas devem concordar em impedir os parisienses franceses de entrar na área da tumba sagrada, pois isto pode ser visto como provocação pelos corsicanos.
A Santa Capela e a Igreja de Notre Dame devem, é claro, ser internacionalizadas sob os auspícios do Vaticano e das organizações internacionais pela preservação do patrimônio artístico universal. Na realidade, os franceses devem considerar uma grande honra que tanta gente veja Paris como uma cidade internacional.
Os franceses não têm do que reclamar, pois desfrutarão dos benefícios da paz e manterão o controle dos Champs Elisées.
Mas, pensando melhor, até mesmo os Champs Elisées podem ser demasiado. Afinal, para ser coerente com a posição francesa para com Israel, a capital francesa não pode ser Paris, mas sim Vichy.
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FLORIANOPOLIS / SC
Parte 2:
É preciso neste caso instituir o "full withdrawal for full peace" [retirada total pela paz total]. Além disso, a França deve receber de volta e compensar todos os alemães étnicos expulsos da Alsácia e da Lorena após a I e a II Guerras Mundiais, bem como a todos definidos por estes como seus descendentes.
Isto, é claro, é apenas o primeiro passo rumo a uma solução, pois não se pode premiar agressores, e a França possui muitos outros territórios roubados. Ela levou a Córsega de Genova, levou Nice e Savoy de Piedmont. A Itália deve então receber todas essas terras de volta. Da mesma maneira, os territórios tomados dos Habsburgos devem ser devolvidos à Áustria, incluindo Franche-Comt, Artois e a Burgúndia histórica. A área de Roussillon (ao longo dos Pireneus) deve ser devolvida à Espanha, que é o seu dono legítimo. E a Normandia, Anjou, Aquitaine e Gascônia devem ser devolvidos a seus donos legítimos, a família real britânica.
Mas isto tampouco é suficiente para chegar a uma paz duradoura. A Bretanha e o Languedoc devem receber autonomia imediatamente, reconhecendo as organizações para a libertação da Bretanha e do Occitan como seus legítimos governantes. Os corsicanos obviamente têm direito histórico à tumba do imperador Napoleão, seu mais famoso nativo, bem como o complexo de Invalides e arredores. Pela causa da paz não seria um exagero pedir que Paris fosse a capital de dois povos.
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