Mundo
07/05/2008 - 09h58

Aliado de Putin, novo presidente russo deve se "rebelar" em um ano

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FERNANDO SERPONE
da Folha Online

Eleito com 70% dos votos, Dmitri Medvedev toma posse como presidente da Rússia nesta quarta-feira. Ele é apoiado por seu antecessor, Vladimir Putin, que embora seja bastante popular entre os russos, não poderia se candidatar para um terceiro mandato.

Mesmo antes de ser eleito, Medvedev havia anunciado que Putin seria seu premiê, o que é visto como uma "manobra" de Putin para se manter no poder sem alterar a Constituição.

Para Mark Galeotti, chefe do curso de história da universidade Keele, no Reino Unido, em um prazo de "seis meses a um ano de Presidência" será possível ver as "tensões entre os dois", e Medvedev deve tentar se impor, talvez "diminuindo o controle de Putin sobre o governo".

Reuters
Vladimir Putin ao lado de Medvedev; para professor, novo presidente deve se "rebelar" em um ano
Putin (à esq.) ao lado de Medvedev; novo presidente deve se "rebelar"

"Creio que dentro de um ano Medvedev irá se mostrar realmente, assim como as suas posições. A questão-chave é que, até agora, não vimos o real Medvedev", afirma o professor.

De acordo com o estudioso britânico, o sistema político russo é "muito presidencial", e o trabalho do premiê é simplesmente fazer o que "o presidente o manda fazer". "Assim como Putin foi contra [Boris] Ieltsin, perseguindo pessoas que ele tentou proteger, Medvedev deve ir contra Putin", disse o professor em entrevista à Folha Online. Para o professor, não há "controles práticos" sobre o poder que se pode exercer ao assumir a Presidência russa.

"Putin chegou ao poder após a era Ieltsin --do caos, da lama, incompetência e corrupção dos anos 90. Então, ele visava restabelecer a autoridade central", explica o professor. "O trabalho de Putin já foi feito. O Kremlin está inatingível agora. Há um sistema democrático que não é realmente democrático, e é controlado pelo governo central", acrescenta.

Apesar de acreditar que haverá diminuição da repressão contra a mídia, Galeotti alerta que não se deve esperar uma real pluralidade de opinião. "Medvedev é um homem que acredita, assim como Putin, que deve haver uma forte voz no Kremlin e governando a Rússia."

Para o especialista, "o legado de Putin faz com que Medvedev "não tenha que se preocupar em recriar o poder", e possa pensar em "como quer usar esse poder".

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Folha Online - Medvedev tem tentado se mostrar um pouco mais liberal que Putin. Haverá alguma mudança considerável com ele na Presidência?

Mark Galeotti - É uma pergunta interessante. Ele realmente está tentando fazer concessões a todos. Para o mundo externo, ele soa um pouco mais liberal. Mas, ao mesmo tempo, ele reassegura o estilo linha-dura --o estilo siloviki, dos homens no poder, que cercam Putin. Os membros do Exército e dos serviços de segurança. Ele tenta os reassegurar de que ele não será um fraco. Então, é difícil saber no que ele realmente acredita.

Alexander Zemlianichenko/AP
Tradicionais bonecas russas pintadas com imagens de Medvedev e Putin
Tradicionais bonecas russas pintadas com imagens de Medvedev e Putin são vendidas

Além do mais, se olharmos para o tipo de pessoa que ele era no passado, antes de se tornar candidato, claramente em muitas formas ele é mais liberal. Mas não devemos achar, por exemplo, que ele seria a favor de uma real pluralidade de opinião. Ele ainda é um homem que acredita, assim como Putin, que deve haver uma forte voz no Kremlin e governando a Rússia.
Então, creio que veremos sob [a Presidência de] Medvedev com certeza, uma democracia mais liberal economicamente. Mas, ao mesmo tempo, ele deve continuar o programa que Putin começou, que é ter certeza de que as principais indústrias da Rússia sejam dominadas por companhias próximas ao Kremlin. Acho que ele também irá encorajar grupos ativistas de base, para dar chance às pessoas formarem grupos e se manifestarem em assuntos locais. No entanto, políticas nacionais centrais devem continuar sob controle do Kremlin.

Então, o que creio que iremos ver é menos que uma mudança --democratização em pequena escala, em nível local, mas não em nível nacional.

Há outro ponto. Se você olha para outros tempos, quando novos líderes tomaram o poder, eles tenderam a estabelecer rapidamente sua autoridade. Por exemplo, Putin, claramente foi além do que Ieltsin esperava que ele fosse. Apesar de Ieltsin ter colocado Putin no poder, ele rapidamente mostrou que ele queria um regime seu. Medvedev, às vezes parece satisfeito em estar sendo liderado por Putin. Creio que dentro de um ano Medvedev irá se mostrar realmente, assim como suas posições. A questão-chave é que, até agora, não vimos o real Medvedev.

Folha Online - O sr. falou sobre uma liberalização da economia, ao mesmo tempo em que as empresas continuarão ligadas ao Kremlin...

Galeotti - Se você observar a economia russa nos últimos anos, o Kremlin tem tentado assegurar que todas as indústrias principais --gás, petróleo, metais, construção- estejam em mãos privadas, mas que as companhias que as dominem seja companhias muito próximas ao Kremlin, ao seu lado. Isso irá continuar. Mas não significa que iremos retornar a um período pós-soviético. Veremos cada vez mais um mercado ativo livre nas indústrias que não são vistas como estratégicas e vitais --no nível de lojas locais, negócios.

Folha Online - E quanto à liberdade de imprensa? Um relatório da organização Anistia Internacional afirma que Moscou aumentou a repressão de protestos contra o governo e não tem investigado assassinatos de jornalistas. O sr. crê que a repressão aumentará?

Galeotti - Creio que esse é um dos pontos em que irá melhorar. Putin francamente criou um clima restritivo na Rússia, no qual a violência e a repressão são usados contra os jornalistas que se opõem ao Kremlin. Medvedev deve ser mais relaxado em relação a isso, ele deve entender que não importa se alguns jornalistas escrevem histórias que você não gosta ou coisa parecida. Um regime como o do Kremlin pode suportar isso. Creio que irão proporcionar um ambiente mais aberto para a mídia sob Medvedev. Acho que ele confia mais na consolidação de que, cada vez mais, a mídia está sob domínio de aliados do Kremlin, então ele não precisa matar pessoas, se os seus amigos estão no comando dos jornais.

Folha Online - Então a mudança em relação à repressão seria derivada da aproximação dos jornais ao Kremlin?

Galeotti - Sim. Putin chegou no poder após a era Ieltsin --do caos, da lama, incompetência e corrupção dos anos 90. Então, ele visava restabelecer a autoridade central. O trabalho de Putin já foi feito. O Kremlin está inatingível agora. Há um sistema democrático que não é realmente democrático, é controlado pelo governo central. O legado de Putin faz com que Medvedev não tenha que se preocupar em recriar o poder. Medvedev deve pensar em como ele quer usar esse poder.

Folha Online - As relações com o Ocidente devem piorar com Medvedev como presidente?

Denis Sinyakov/Reuters
Tiros são dados para o alto depois que Medvedev assumiu a Presidência russa
Tiros são dados para o alto depois que Medvedev tomou posse na Rússia; para professor, repressão à imprensa deve diminuir

Galeotti- Não creio. Primeiro, o Ocidente tentará usar essa eleição como uma oportunidade de melhorar as relações (com a Rússia) novamente. Segundo, Medvedev é um patriota russo, com certeza. Mas ele não é tão preso a isso como Putin, que é realmente um nacionalista russo. Putin fica pessoalmente irritado quando ele acha que o Ocidente está se envolvendo em questões russas. Medvedev deve adotar uma abordagem mais filosófica, pois ele é muito mais preocupado com questões econômicas. Ele deve ficar mais interessado em melhorar os laços econômicos com o Ocidente.

Creio que ambos os lados --Kremlin e Ocidente-- tentarão usar a nova Presidência como uma desculpa para melhorar as relações. A menos que surjam alguns pontos em particular. Ao menos por agora, creio que veremos um período de lua-de-mel. Mas as relações devem melhorar dramaticamente.

Folha Online - Os russos temem secessões após a independência de Kosovo? O apoio à independência por parte dos países ocidentais coloca a população russa contra o Ocidente?

Galeotti- Não creio que seja uma ameaça séria. A economia russa vai bem e Moscou é bem poderoso. Não consigo ver além de algumas áreas no norte do Cáucaso, que já são controladas por regimes militarizados, não consigo ver nenhuma parte da Rússia pensar em secessão. Toda a questão de Kosovo não é realmente sobre Kosovo, não é realmente sobre secessão, é sobre a Rússia estar irritada que o Ocidente não a escuta o suficiente. Não creio que seja uma grande questão, é apenas uma desculpa para a irritação de Moscou.

Folha Online - O que o sr. tem a dizer sobre o governo Medvedev/Putin?

Galeotti- A única coisa que quero destacar é que concentramos em Medvedev, mas ainda não sabemos qual papel Putin terá. Suspeito que, não nos primeiros meses, mas que se Putin assumir o cargo de premiê, como parece inevitável, em seis meses a um ano de Presidência de Medvedev, começaremos a ver tensões entre os dois. Veremos Medvedev tentando se impor, talvez tentando tirar o controle de Putin.

Folha Online - O sr crê que Medvedev irá defender suas posições e, de alguma forma, romper com Putin?

Galeotti - Ele poderia. Se olharmos para as instituições e legislação atuais, é um sistema muito presidencial. O trabalho do premiê é simplesmente fazer o que o presidente o manda fazer. É claro que Putin não espera que Medvedev seja apenas uma continuidade. Ao menos que as leis mudem, o que não irá acontecer, Putin acredita que Medvedev não ousaria contrariá-lo. Só porque Medvedev o nomeou (premiê), não significa que os homens ao seu redor serão os de Putin. Com o tempo, Medvedev deve nomear seu próprio grupo, lentamente ganhando mais confiança.

Creio que, assim como Putin foi contra Ieltsin, perseguindo pessoas que Ieltsin tentou proteger, podemos ver Medvedev indo contra Putin. Não imediatamente, mas com o tempo.

Folha Online - Com o tempo, ele pode mostrar quem ele realmente é, e que ele não é apenas uma marionete de Putin...

Galeotti - Sim. Há algo sobre se tornar presidente da Rússia. A Presidência é uma posição poderosa. Não há controles práticos sobre o poder da Presidência, e isso muda alguém. Putin ficou bem diferente da primeira vez que assumiu o poder, após alguns anos no poder.

 

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