Mundo
11/05/2008 - 23h48

Militares de Mianmar festejam "sucesso" de referendo e ignoram ciclone

da Folha Online

A junta militar que governa Mianmar festejou neste domingo o "sucesso" do referendo constitucional no país, organizado apesar da devastação provocada pelo ciclone Nargis, que deixou cerca de 28.458 mortos e 33.416 desaparecidos, segundo a agência France Presse.

Convocados para votar pela primeira vez desde 1990, os eleitores de Mianmar participaram "massivamente" do referendo no sábado, segundo o jornal "New Light of Myanmar", controlado pelo regime.

No entanto, em nenhum momento o jornal mencionou uma das piores catástrofes da história recente do país, que devastou Mianmar no último dia 3.

Alguns diplomatas ocidentais em Mianmar questionam os dados oficiais e acreditam que o número de mortos se aproxima dos 100 mil. A ONU teme que outras dezenas de milhares de pessoas morram caso a ajuda necessária para socorrer cerca de dois milhões de desabrigados não chegue imediatamente.

"A realização do referendo foi coroada pelo sucesso em todo o país", exceto em 47 municípios de Yangun e Irrawaddy --zonas mais afetadas pelo Nargis--, onde a votação foi adiada para 24 de maio, parabenizou o jornal.

As autoridades birmanesas ainda não têm o número exato de eleitores que votaram em todo o país.

Constituição

O referendo procura a aprovação popular de uma nova Constituição, que, segundo os generais, será seguida por uma eleição geral em 2010. Ambas as votações são elementos do que a junta chama de "o caminho da democracia".

Mas a Constituição proposta garante 25% do Parlamento aos militares e permite ao presidente entregar todo o poder ao Exército em caso de emergência.

O novo documento também impede que Aung San Suu Kyi, a líder presa do movimento democrático e nobel da Paz, possa ter cargos públicos. Os militares se recusaram a aceitar o resultado da eleição geral de 1990, vencido pela Liga Nacional pela Democracia, da opositora encarcerada.

Os generais se apresentaram como os guardiões da estabilidade e da soberania de um país sob o domínio britânico até 1948 e como os únicos capazes de impedir "a desintegração da Nação" perante as rebeliões de minorias étnicas.

O número um do regime militar de Mianmar, general Than Shwe, 75, insistiu em realizar o referendo na data programada, ainda que o ciclone tenha devastado parte do país. Ele ignorou os pedidos internacionais e da Liga Nacional pela Democracia, para priorizar os aproximadamente 2 milhões de afetados pelo ciclone Nargis, dos quais três quartos ainda não receberam ajuda alguma.

A entrega da ajuda humanitária parece acelerar pouco a pouco. A ONG francesa Médicos do Mundo (Médecins du Monde) indicou no domingo que a Junta Militar os autorizou a distribuir o material enviado ao país.

"Médicos do Mundo obtiveram autorização" para "se encarregar da distribuição de sua ajuda", que chegará a Yangun na segunda-feira pela manhã, anunciou a organização em um comunicado.

Com Associated Press, France Presse e Reuters

 

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