Países árabes têm interesses em conflito israelo-palestino, diz analista
MARIANA CAMPOS
da Folha Online
Os países árabes sempre tiveram interesses próprios na mediação do conflito israelo-palestino, que continua a ser um dos assuntos mais debatidos no aniversário de 60 anos da criação do Estado de Israel, celebrado oficialmente nesta quarta-feira. A opinião é do cientista político Samuel Feldberg, membro do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP (Universidade de São Paulo).
"A questão palestina normalmente é abordada de forma muito simplória: os países árabes preocupados com o sofrimento dos palestinos, pressionando Israel para ter uma solução. Obviamente isso não é verdade, nem parte da verdade. Os países árabes sempre tiveram interesses próprios", afirmou o analista em entrevista à Folha Online.
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Ele cita, como exemplos, o caso dos egípcios, jordanianos, sírios, iraquianos e sauditas. "No meu entender, os países árabes nunca estiveram interessados em apoiar a causa palestina, mas, por outro lado, a retórica de apoio aos palestinos sempre foi um elemento muito forte de propaganda para consolidar regimes pouco ou muito populares", disse Feldberg.
O cientista político também descarta a possibilidade de mudança na postura adotada pelos EUA no que se refere à mediação do conflito, caso o Partido Democrata vença as eleições presidenciais de novembro.
Segundo Feldberg, o problema é um assunto que um "sábio candidato tenderia a evitar". "Quando a mediação do conflito é interessante? Quando se pode vislumbrar os trunfos de uma resolução, quando o presidente puder falar que resolveu o conflito israelo-palestino. Caso contrário, [o tema] é um pântano. (...)", afirmou.
Leia os principais trechos da entrevista concedida à Folha Online:
Folha Online - O que o sr. considera como o principal problema, após 60 anos da criação do Estado de Israel?
Samuel Feldberg - Sem dúvida nenhuma, há dois problemas fundamentais. O primeiro está relacionado com a consolidação do Estado. Durante muitos anos, o que houve foi uma canalização da energia do Estado e das divisões da sociedade para consolidar a existência de Israel. Especialmente após a guerra de 1967 e da reversão dos revezes iniciais da guerra de 1973 houve a geração de uma percepção ampla que a consolidação do Estado de Israel era irreversível. Ou seja, o país conseguiu se fortalecer e garantir a sua existência. Talvez o maior problema que exista a partir deste momento seja a multiplicação de forças que deixaram de canalizar suas energias em uma única direção.
Como resultado dessa variante, temos um problema que está refletido na relação entre Israel e os palestinos nos territórios ocupados. Esse era um problema menor e de certa forma um acessório das relações entre Israel e seus vizinhos.
A partir do momento em que a maior preocupação de Israel deixou de ser geopolítica --ou seja, como garantir sua subsistência frente a vizinhos poderosos que ameaçavam aniquilar o Estado-- e com a confirmação de que os países vizinhos não seriam capazes de fazer uma guerra bem-sucedida contra Israel, o foco passa a ser a relação com a população palestina nos territórios ocupados e a tensão com relação à minoria árabe dentro de Israel. Se hoje o problema central tiver de ser focado, ele está relacionado com algo que podemos chamar de identidade do Estado de Israel. Com isso, há uma dispersão interna na sociedade israelense.
Folha Online - Há uma dispersão política também?
Feldberg - Exato. Existem muitas facetas do ponto de vista da representação da sociedade. Há um partido que representa os interesses dos aposentados, há dois partidos que representam os imigrantes russos na sociedade, há partidos das diversas linhas religiosas --um deles inclusive ameaça derrubar o governo israelense se avançarem as negociações em relação a Jerusalém. Todas essas facetas se digladiam em relação à representação, a recursos, à política externa. Havia uma amenização dessa representação quando a maior preocupação era com a segurança e a consolidação da existência do Estado.
Folha Online - Como o sr. vê a influência dos países vizinhos no processo de paz?
Feldberg - Por um lado, a questão palestina normalmente é abordada de forma muito simplória: os países árabes preocupados com o sofrimento dos palestinos, pressionando Israel para ter uma solução. Obviamente isso não é verdade, nem parte da verdade. Os países árabes sempre tiveram interesses próprios. Quando se analisa a participação dos países árabes do conflito de 1947/48, vê-se nitidamente uma dispersão dos recursos aportados pelos países árabes e a defesa de interesses próprios que, na maioria dos casos, iam frontalmente contra o interesse dos palestinos.
Os egípcios estavam interessados em criar uma continuidade territorial em relação ao leste, portanto [queriam] se apropriar do sul de Israel para não ficarem isolados do mundo árabe. Os jordanianos, com apoio da Inglaterra, tinham interesse em se manter como o bastião inglês na região e por isso a Inglaterra até permitia ou se conformava com a perda do mandato na palestina. Os sírios estavam interessados em consolidar um Estado que havia sido criado de forma falha pela criação do Líbano; os iraquianos e os sauditas estavam interessados em ampliar os poderes de suas monarquias.
No meu entender, os países árabes nunca estiveram interessados em apoiar a causa palestina, mas, por outro lado, a retórica de apoio aos palestinos sempre foi um elemento muito forte de propaganda para consolidar regimes pouco ou muito populares.
Folha Online - E com relação aos Estados Unidos?
Feldberg - Depende muito de qual é o momento da política norte-americana. Há um governo como o de Jimmy Carter (1977-1981) que deu uma ênfase muito grande à questão da mediação norte-americana no Oriente Médio que levou ao acordo de paz entre Israel e o Egito. Quando se olha pro governo de Bill Clinton (1993-2001), se vê uma tentativa de último momento de resgatar o processo de paz, com as negociações que não levaram a nada.
E, ao longo do governo Bush temos, desde 2001, uma preocupação com outras questões, uma visão do conflito entre Israel e os palestinos dentro da ótica da guerra contra o terror e, portanto, nenhum engajamento concreto e importante, nem no primeiro nem no segundo mandato, de chegar a alguma acordo. Não acredito nas previsões de que até o fim de 2008 vai acontecer alguma coisa. Certamente não vai acontecer nada no final do governo Bush. E, obviamente, dependendo de quem será o próximo presidente, as opções são muito amplas.
Folha Online - O sr. acredita que há uma possibilidade de mudança se os democratas, independentemente de quem seja, vencerem as eleições em novembro?
Feldberg - Os democratas vão ter problemas muito mais sérios para tratar que mediar o conflito israelo-palestino, que tem o agravante de não permitir deslumbrar uma solução. Quando a mediação do conflito é interessante? Quando se pode vislumbrar os trunfos de uma resolução, quando o presidente puder falar que resolveu o conflito israelo-palestino. Caso contrário, é um pântano. (...)
É um campo de areia movediça em que o presidente entra e envolve a questão de relacionamento de países árabes produtores de petróleo, e a questão do Iraque, onde a popularidade norte-americana já é um problema e só se complica se houver percepção de apoio a Israel ou mesmo de equilíbrio. Porque o que as populações árabes estão procurando não é equilíbrio por parte dos EUA, é um apoio às posições palestinas. Mesmo como mediador equilibrado, os EUA têm desvantagens. Há a questão interna da política norte-americana, da percepção do peso do voto judaico, é um problema que um sábio candidato a presidente tenderia a evitar.
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Também tem a questão do holocausto, sendo usado como recurso para vitimizar os judeus e colocar os palestinos como substitutos dos alemães. Isso obviamente é irônico, pois inverte os papéis da vítima e do algoz.
Falar em holocausto lembra revisionismo, mentirosamente chamado de negação do holocausto. Não se nega o holocausto e sim se revisa. O máximo que se nega é a versão oficial.
Há um projeto de lei, do Dep. Marcelo Itajiba, que pretende criminalizar a negação do holocausto (e obviamente sua revisão). Se o revisionismo é algo inválido, bastariam simples explicações para desmentir. Só. Mas o fato de criarem lei proibindo pensar, duvidar, indagar, já é motivo para se desconfiar. E não é a toa, pois o revisionismo não só apresenta outra versão, mas também denuncia a chamada industria do holocausto, onde o sofrimento das vítimas seria usado como forma de lucro fácil, além de ter ajudado a forçar a criação do estado de Israel. Só a mentira precisa de censura, e comparar revisionismo com apologia ao nazismo é no mínimo covardia de quem quer fugir de dar explicações e responder certas questões.
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Os palestinos estavam lá e os judeus simplesmente foram chegando, tendo o antigo testamento como escritura de terras. Ao invés de uma justificativa, deram uma desculpa, de que seus ancestrais ali viveram a milênios, portanto as terras são suas.
Israel assassinou inocentes, até crianças. Claro que os palestinos não ficariam sem fazer nada. Não só podem como DEVEM lutar contra invasores. Desejar o fim do estado de Israel é o mínimo, tendo em vista que este estado está promovendo o fim do povo palestino.
E é bom deixar claro algumas coisas: Hamas, Hezbollah e Fatah não são grupos terroristas, como a mídia teima em afirmar. O Brasil oficialmente os reconhece como partidos políticos. Do ponto de vista palestino, Kadima e Likud é que seriam grupos terroristas.
Também tem a questão do holocausto. Usar isso como desculpa para matar palestinos é absurdo. Querem compensar o holocausto judeu com um holocausto palestino? Por isso digo que os sionistas fizeram um curso de genocídio na faculdade de Auschwitz, com o professor Menguele, cujo reitor era Adolf Hitler. Dali sairam com diploma de mestrado e doutorado.
Se os judeus tinham algum direito àquelas terras, deveriam simplesmente ir chegando com bons modos, respeitando seus anfitriões. Pelo que fizeram aos inocentes palestinos, já perderam o direito de estar ali a muito tempo. Portanto, não reclamem depois se ocorrer uma nova diáspora.
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