África do Sul mobiliza Exército para conter violência contra imigrantes
da Folha Online
O Exército foi mobilizado nesta quinta-feira na região de Johannesburgo para conter a onda de violência xenófoba que deixou até agora mais de 40 mortos, lembrando aos sul-africanos os dias sombrios do apartheid.
Militares e policiais tomaram o controle dos bairros pobres da Província de Gauteng, onde fica Johannesburgo, e "trabalharão em coordenação até que a calma seja restaurada", segundo um comunicado.
| Siphiwe Sibeko/Reuters |
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| Zimbábuano se refugia em delegacia de polícia em favela próxima a Johannesburgo |
Enquanto o Exército estava em alerta, policiais de elite permaneciam mobilizados nos "townships" (favelas) arrasadas há cerca de dez dias por bandos armados com machetes e armas de fogo que atacam estrangeiros e incendeiam suas casas.
Desde terça-feira, a onda de violência se estendeu para fora de Johannesburgo, fazendo temer uma propagação por todo o país.
Nesta quinta-feira, a situação parecia mais calma nas favelas de Gauteng, mas a polícia registrou pela primeira vez ataques na Província de North West.
Onda de violência
"Tivemos incidentes na noite passada na township de Ukasie, em Brits. As lojas de três estrangeiros foram atacadas e saqueadas", declarou nesta quinta-feira à agência France Presse o delegado Peter du Plessis, da polícia de North West, afirmando que 49 pessoas foram detidas.
Outros tumultos foram registrados na Província de Mpumalanga (leste) na noite de quarta-feira. "Dois ônibus foram incendiados e um moçambicano foi baleado. Ele está hospitalizado neste momento", informou a porta-voz da polícia Sibongile Nkosi.
A onda de violência, que começou em 11 de maio na favela de Alexandra em Johannesburgo, deixou ao menos 42 mortos segundo a polícia, que afirmou ter detido 517 pessoas.
Mais de 16 mil pessoas fugiram. Centenas de estrangeiros se refugiaram em delegacias e igrejas, onde associações estão mobilizadas para ajudá-los.
Acusações
Muitos sul-africanos acusam os estrangeiros --entre eles cerca de três milhões de zimbabuanos exilados pela crise em seu país-- de serem os principais responsáveis pela explosão do desemprego, da pobreza e da criminalidade.
O chefe da oposição zimbabuana, Morgan Tsvangirai, foi nesta quinta-feira a Alexandra, onde foi recebido como um herói por seus compatriotas. "Se tudo estivesse bem no nosso país, não precisaríamos estar aqui. Espero que conseguiremos resolver nossa própria crise', declarou.
A onda de violência tem um impacto importante sobre a economia, principalmente nas minas de ouro, que empregam muitos estrangeiros.
"No total, 14% dos trabalhadores estiveram ausentes segunda-feira, 60% quarta-feira e 58% hoje (quinta-feira)", declarou à agência France Presse James Duncan, porta-voz da companhia DRD Gold, destacando que os funcionários presentes "estão traumatizados e preocupados com suas famílias".
Retorno
A imagem da "Nação Arco-Íris" idealizada pelo herói da luta contra o apartheid e ex-presidente sul-africano Nelson Mandela foi bastante abalada pela explosão da violência contra os estrangeiros.
Mais de 3.000 moçambicanos já retornaram a seu país. "Estamos prontos para ajudar os que desejam voltar", afirmou nesta quinta-feira o presidente do Moçambique, Armando Guebuza.
Segundo Kgalema Motlanthe, vice-presidente do Congresso Nacional Africano (ANC), o partido no poder na África do Sul, a miséria explica a violência.
"Quando muitas pessoas vivem em condições sórdidas, basta um incidente para que tudo exploda", declarou, denunciando a reação tardia das autoridades "que incentivou outras pessoas vivendo em condições semelhantes a perpetrarem ataques idênticos".
Motlanthe afirmou que os sul-africanos "que não tiveram acesso à educação" por causa das injustiças que vigoravam na época do apartheid, que acabou em 1994, têm inveja dos estrangeiros, sobretudo dos zimbabuanos mais qualificados.
A África do Sul, com cerca de 47 milhões de habitantes, possui um dos maiores índices de criminalidade do mundo, com média de 18 mil assassinatos ao ano e 55 mil atos de violência.
Com France Presse
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